Há sete anos reuni o que havia escrito em fóruns e fiz este pequeno livro. Não o revisei, pois certamente hoje o meu pensamento evoluiu em alguns aspectos, mas no essencial continua o mesmo.



ESPÍRITO LIVRE

Reflexões


APRESENTAÇÃO

Para que os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem chegar ao inferno. Máxima alquímica Medieval.

Cada ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver as suas potencialidades congênitas.
O homem, entretanto, está jogado no mundo - conjunto de condições geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa está imersa - sem que a sua vontade tenha participado disso.
Aos poucos ele desperta e sente uma necessidade instintiva, que se apresenta como uma angústia indefinida que o leva a questionar quem é, de onde vem e para onde vai. Com o decorrer dos anos essa angústia transforma-se num sofrimento intenso ao qual Carl Gustav Jung denomina de passio animi (paixão da alma). Este despertar é um processo de auto-transformação, de evolução que leva a um nível superior de consciência.
Darwin desenvolveu uma teoria científica da evolução biológica. Antes dele, já era amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que havia uma evolução da consciência humana. Essa idéia desenvolveu-se e um dos seus maiores expoentes foi Carl Gustav Jung. Enquanto aquela pode ser comprovada cientificamente, esta é um processo subjetivo, é uma experiência, um saber que não pode ser pesado, medido, testado porque é autoconhecimento. Observa-se que além da evolução biológica há no homem um processo de evolução de consciência que não pode ser confundido com erudição que é um saber essencialmente intelectual.
O desenvolvimento ou evolução da consciência processa-se a partir da experiência direta, da observação, do desenvolvimento da sensibilidade e da intuição.


LIÇÕES DOS GRANDES SÁBIOS

O espírito é livre

O espírito dentro do homem não é escravo de nenhum senhor; nem mesmo da vida, do amor, nem de nenhum deus invocado pelo eterno desejo humano de ter um Pai celestial sobre quem lançar o ônus da guia ou libertação do mundo. O espírito no interior de todo homem é intrinsecamente livre. Não conhece deterioração. Não conhece dor. Os fluxos e refluxos de Universos e ciclos se sucedem uns aos outros ao longo do aro da roda do tempo infindo. Todas as coisas tornam ao seu ponto de origem. Todos os começos já são mortes dissimuladas. Mas bem ao centro de todas as experiências humanas está aquela quietude e aquela paz que se podem sentir onde todo sentimento cessa, que se podem conhecer na ausência de todo conhecimento. Ser essa própria quietude e essa paz - é esta a única salvação; esta é a única liberdade. Busca-a com diligência, incessantemente - porém ... sem pressa, serenamente, sem desejar-lhe os dons. Esforça-te em buscá-la; até já não haver necessidade de esforço; até já não haver necessidade alguma; até já não haver nada.

Dane Rudhyar

Possuí como se não possuísseis

Sabiamente falou quem disse que a perfeição não consiste nos verbos, senão nos advérbios: não em que as nossas obras sejam honestas e boas, senão em que sejam bem feitas. E para que esta condicional tão importante se estendesse também às coisas naturais e indiferentes, inventou o apóstolo S. Paulo um notável advérbio. E qual foi? Tanquam non, como senão: Ut Qui habent uxores, tanquam non habentes sint: et qui flent, tanquam non flentes: et qui gaudent, tanquam nan gaudentes: et qui emunt, tanquam non possidentes: et qui utuntur hoc mundo, tanquam non utantur. Sois casado? (diz o apóstolo) pois empregai todo o vosso cuidado em Deus, como se o não fôreis. Tendes ocasiões de tristezas? pois chorai, como se não choráreis. Não são de tristeza, senão de gosto? pois alegrai-vos, como se não vos alegráreis. Comprastes o que havíeis mister, ou desejáveis? pois possuí-o, como se não possuíreis. Finalmente usais de alguma outra coisa deste mundo? pois usai dela, como se não usáreis. De sorte que quanto há, ou pode haver neste mundo, por mais que nos toque no amor, na utilidade, no gosto, a tudo quer S. Paulo que acrescentemos um, como se não, tanquam non. Como se não houvera tal coisa, como se não fora nossa, como se não nos pertencera. E por quê? Vede a razão: Præterit enim figura hujus mundi . Porque nenhuma coisa deste mundo pára, ou permanece; todas passam. E como todas passam e são como se não foram, assim é bem que nós usemos delas, como se não usáramos: Tanquam non utantur. Por isso a essas mesmas coisas não lhes chamou o oráculo do terceiro céu coisas, senão aparências, e ao mundo não lhe chamou mundo, senão figura do mundo: Præterit enim figura hujus mundi.

Padre Antônio Vieira


Bhagavad Gita

Segundo a concepção cósmica da filosofia oriental, toda a atividade do homem profano é fundamentalmente trágica, eivada de culpa, ou karma, porque quem age é o ego, e esse ego é uma ilusão funesta e tudo que o ego ilusório faz é necessariamente negativo, contaminado de culpa e maldade.
Se tal é toda e qualquer atividade do homem profano, então estamos diante de um dilema inevitável: ou agir e onerar-se de culpa – ou não agir e assim preservar-se de culpa.
Grande parte da filosofia oriental optou pela segunda alternativa do dilema: não agir, entregar-se a uma total inatividade, abismar-se numa eterna meditação passiva, a fim de não aumentar o débito negativo do karma.
A Bhagavad Gita, porém, não recomenda nenhuma dessas duas alternativas: nem o não-agir e preservar-se de culpa, nem o agir e cobrir-se de culpa. A Gita descobriu um terceiro caminho: o de agir sem culpa ou karma.
A Bhagavad Gita recomenda o caminho do reto-agir, eqüidistante do falso-agir e do não-agir.
Como pode o homem agir sem se onerar de culpa?
O falso-agir é um agir por amor ao ego; mas o reto-agir age por amor ao Eu, embora através do ego, e assim a sua atividade não é culpada.
O reto-agir, por amor ao Eu verdadeiro, não só não cria uma nova culpabilidade, no presente e no futuro, mas neutraliza também o karma do falso-agir do passado, libertando assim o homem de todos os seus débitos.
É nisto que consiste a suprema sabedoria da Bhagavad Gita. Mas para que o homem possa agir assim, por amor ao Eu verdadeiro, deve ele conhecer esse Eu, deve conhecer a verdade sobre si mesmo.
É o que Krishna explica a seu discípulo Arjuna através dos 18 capítulos que perfazem o diálogo deste poema metafísico; autoconhecimento para tornar possível a auto-realização pelo reto-agir.
A quintessência da Gita é, pois, um convite para o reto-agir, porque o homem não se realiza nem pelo não-agir, nem pelo falso-agir.
A alma da Bhagavad Gita é um poema de auto-redenção pela auto-realização baseada em autoconhecimento.
Homem, conhece-te a ti mesmo!
Homem, realiza-te!

Huberto Rohden

MESTRES DO HIMALAIA

Solidão

Nunca estou só. Só está a pessoa que não se adverte da completa plenitude interior. Quando vos tornardes dependentes de alguma coisa externa, sem ter consciência da realidade que existe dentro de vós, por certo estareis só. Toda a busca da iluminação consiste em procurar no próprio interior, no dar-vos conta de que sois completo em vós mesmo. Sois perfeito. Não precisais de nenhuma exterioridade. Aconteça o que acontecer, em qualquer situação, nunca precisais estar só.
- Por favor, senhor, posso ver o vosso mestre?
Levei-o para dentro da caverna, onde meu mestre estava calmamente sentado. Desejando ser cortês e mostrar seus modos e sua educação ocidental, disse o príncipe:
- Senhor, pareceis solitário
- Sim, porque viestes, conveio meu mestre. Antes da vossa chegada eu gozava da companhia do meu Amigo interior. Agora que viestes, estou só.
O mais elevado de todos os companheirismos, na verdade, é a companhia do verdadeiro Eu. Os que aprendem a deleitar-se com o verdadeiro Eu interior nunca estão sós. Quem nos faz solitários? Os que proclamam conhecer-nos e amar-nos, ou os que amamos, criam solidão e nos tornam dependentes. Esquecemos o eterno Amigo interior. Quando aprendemos a conhecer o nosso verdadeiro Eu não dependemos de exterioridades. A dependência de relações externas é ignorância que precisa ser dissipada. Relações e vida são sinônimos e inseparáveis. Os que conhecem o Amigo interior amam a todos e não são dependentes. Nunca estão sós. A solidão é uma doença. Estar só e feliz é gozar da constante companhia – da constante percepção – da Realidade.

Só a experiência direta é o meio

Um dia, meu mestre ordenou que me sentasse. E perguntou:
- És um rapaz ilustrado?
- Claro que sou ilustrado, repliquei.
- Que aprendeste e quem te ensinou? Perguntou ele.
- Explica-mo!
- Nossa mãe é nossa primeira mestra, depois nosso pai, depois nossos irmãos e irmãs. Mais tarde aprendemos com os companheiros de folguedos, com os professores da escola e com os autores de livros. Seja o que for que tenhas aprendido, não aprendeste uma única coisa independentemente de outros. Até agora, o que aprendeste foi uma contribuição de terceiros. E com quem aprenderam êles? Também aprenderam com outros. No entanto, como resultado de tudo isso, julgas-te ilustrado. Tenho pena de ti porque nada aprendeste independentemente. Pelo visto, chegaste à conclusão de que nada existe no mundo que se pareça com o aprendizado independente. Tuas idéias são idéias alheias.
- Esperai um minuto, deixai-me pensar, disse eu.
Era chocante dar-me conta de que nada do que eu aprendera me pertencia. Se vos puserdes em meu lugar, é muito provável que experimenteis o mesmo sentimento. O conhecimento de que dependeis não vos pertence de modo algum. Eis porque não é satisfatório, por maior que seja a quantidade dele assimilada por vós. Ainda que tenhais dominado uma biblioteca inteira, ele nunca vos satisfará.
- Neste caso, como posso ser iluminado? Perguntei.
- Fazendo experiências com o conhecimento que adquiriste de fora, respondeu ele. Descobre por ti mesmo, com a ajuda da tua experiência direta. Chegarás, por fim, a uma fase decisiva e proveitosa da tua experiência direta. Está visto que o conhecimento indireto é informativo, mas não é satisfatório. Todas as pessoas sábias, no correr da história, realizaram ingentes esforços para conhecer a verdade diretamente. Não se satisfaziam com as simples opiniões dos outros. Não se deixavam amedrontar nem desviar dessa investigação pelos defensores da ortodoxia e do dogma, que as perseguiam e, às vezes, executavam porque suas conclusões eram diferentes.
Desde essa ocasião tenho tentado seguir-lhe o conselho. Descobri que a experiência direta é a prova final da validade do conhecimento. Quando se conhece a verdade diretamente, tem-se o melhor tipo de confirmação. A maioria de vós procura os amigos e expõe o seu ponto de vista. Está procurando confirmação nas opiniões deles. Seja o que for que pensais, quereis que outros o confirmem concordando convosco e digam: “- Sim, o que pensais está certo.” Mas a opinião de um terceiro não constitui prova da verdade. Quando conheceis a verdade diretamente, não precisais interrogar os vizinhos nem o professor. Não precisais procurar a confirmação nos livros. A verdade espiritual não necessita de uma testemunha externa. Enquanto duvidardes, a própria dúvida será indicação de que ainda precisais conhecer. Palmilhai o caminho da experiência direta até atingir o estado em que tudo é claro, até que todas as vossas dúvidas estejam esclarecidas. Só a experiência direta tem acesso à fonte do verdadeiro conhecimento.

O diabo

O que chamamos de diabo faz parte de nós. O mito do diabo e do mal nos é imposto pela nossa ignorância. A mente humana é um grande prodígio e um grande mágico. Tanto pode assumir a forma de um demônio quanto a de um ser divino, a qualquer momento que o desejar. Pode ser um grande inimigo ou um grande amigo nosso, criando o inferno ou o céu para nós. Há inúmeras tendências ocultas na mente inconsciente, que precisam ser desveladas, enfrentadas e transcendidas antes que tencionemos palmilhar o caminho da iluminação.
Uma corda no escuro pode ser tomado por uma cobra. Uma miragem à distância pode ser tomada por água. A falta de luz é a causa principal dessa visão. O diabo existe? Se há apenas uma existência onipresente e onisciente, não haverá lugar para a existência do diabo. Os religiosamente enfermos acreditam na existência do diabo esquecendo a existência de Deus (o Todo¹). A mente negativa é o maior demônio que pode residir no interior do ser humano. A transformação da negatividade conduz a visões positivas ou angélicas. A própria mente cria o inferno e o céu. O medo do diabo é uma fobia que precisa ser erradicada da mente humana.
¹ Observação minha.
Swami Ajaya - “Vivendo com os Mestres do Himalaia”. Ed. Pensamento.



EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA

O Universo

Mundo não é somente o conjunto de condições geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa está imersa. A Física Quântica apenas confirma a sabedoria oriental: o homem está inserido em algo muito maior, ele é filho do universo.
Constituído de energia em diferentes manifestações, o que existe como real é condensação de vibrações. A matéria é, portanto, o resfriamento da energia, enquanto essa é a descontinuidade da matéria.
O homem é parte do Todo, manifesta-se numa determinada dimensão, evolui e retorna. O nascimento e a morte não são um início ou um fim, mas um aparecer e um desaparecer, num determinado plano.
O ser humano não gera vida e, por isso, não tem a capacidade de tirá-la. Vida e morte, gerar vida e matar, não são atos de poder ou capacidades individuais, mas manifestações da natureza inerente ao próprio cosmo - vida original.
Superficialmente o homem interage com o mundo que está à sua volta, mas está ligado, umbilicamente, com o espírito da terra, do sol, da galáxia e do universo. Esta aparente relação superficial é dada pelos sentidos que são limitados. Esta percepção dá o conhecimento de verdades parciais, limitadas pelo tempo, espaço e pela lei da causalidade. Imerso nesse mundo, a causa aparente leva-o, muitas vezes, a uma visão deformada da realidade. Os sentidos limitam a percepção mas não a interação que existe com o mundo em que o homem vive. Até os nossos pensamentos e atitudes influenciam os outros e, por nossa vez, somos influenciados pelos incontáveis pensamentos e atitudes dos outros. Então, nossas mentes não são ilhadas e separadas da maneira que muitas pessoas modernas gostam de imaginar; são muito mais permeáveis umas às outras, afirma Rupert Sheldrake. Há uma estreita relação com o seu semelhante cujo círculo se amplia para abranger os animais, as plantas, as águas, o solo, enfim, todo o planeta Terra. O homem está interligado com todos os seres visíveis e invisíveis, perceptíveis e imperceptíveis, imagináveis e inimagináveis que vivem neste Planeta. Nós somos parte do espírito da Terra e através dele nos comunicamos com o Universo.
A terra é nossa mãe porque dela nascemos, e o sol o nosso pai porque ele nos dá a vida.
Caso perguntem, escreve Goethe, se me agrada cultuar reverentemente o Cristo, responderei: Sempre! Curvo-me diante dele, tomando-o pela divina revelação do princípio de moralidade mais alto. Caso me perguntem se me agrada cultuar o sol, tornarei a responder: Sempre! Pois também ele é a revelação da coisa mais alta e mais poderosa que já foi dada a nós, mortais, contemplar. Nele eu cultuo a luz e o poder criativo de Deus; apenas graças a ele podemos viver, avançar, existir, e conosco todas as plantas e animais.
A tomada de consciência dessa relação do homem com o seu mundo, com a terra, com o universo, com o todo, está relacionada com a evolução de sua própria consciência.

Uma Unidade, dois mundos, muitas realidades

O mundo material, objetivo e racional é regido pela lei da causalidade. Nada acontece sem uma causa correspondente, nenhum efeito é maior do que a sua causa. Tudo que está sujeito à lei da causalidade acontece no tempo e no espaço, que não são objetos, mais sim modos ou atributos de percepção sensitiva e concepção intelectual. A ciência, a técnica e a arte, isto é, a cultura e a civilização assentam alicerces na lei da causalidade, que é o objeto específico da inteligência. Existem, entretanto, fenômenos de causas desconhecidas e que o homem comum chama de casualidade.
O mundo que não pode ser explicado pela lei da causalidade nem pelos sentidos e pelo intelecto é o mundo dos instintos, da emoção, do sentimento, o reino do eterno, do infinito, do absoluto. Este é o mundo do Ser.
O ser humano interage com esses dois mundos.
A distinção entre dois mundos, segundo Nietzsche apareceu claramente com Sócrates, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível, fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado; foi criado o homem teórico, racional e lógico, separando o pensamento e a vida. Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora.
Todos os fenômenos conhecidos e desconhecidos estão interrelacionados. Não há dois mundos separados, estanques. Não há um vale de lágrimas aqui no mundo do ego e um céu ou inferno em outro mundo, em outra dimensão. O ser humano move-se dentro de um todo e cabe a cada um, individualmente, tomar consciência dessa realidade.
Quando toda a nossa motivação e ação, toda a nossa energia e interesses estão canalizados para o mundo do ego somos incapazes de perceber o Todo.
Ao nos afastarmos do mundo sensível e desenvolvermos apenas o intelecto, nós nos separamos da Unidade. Ao desenvolvermos somente a capacidade intelectual nós nos afastamos da nossa essência, nós nos incapacitamos, nos aleijamos, desenvolvemos apenas uma parte, deixamos de viver pelas leis da natureza, do nosso mundo interior. O homem teórico de que nos fala Nietzsche afastou-se de sua humanidade e, pela inteligência, criou Deus.
O homem criou Deus e, agora, busca desesperadamente, provas da sua existência. Não é fantástico? Tudo é extremamente simples, mas o homem quer uma explicação lógica, racional, científica! Desviou-se, separou-se, pela força da vontade, do seu mundo interior que faz a ligação com o Todo e agora, busca, freneticamente, respostas racionais para a sua existência. Mas o seu Deus racional, objetivo não existe porque é uma criação sua, e, portanto, uma ilusão.
O homem primitivo vive instintivamente; o homem intelectual vive racionalmente; o homem superior promove a paz entre os instintos e o intelecto e, assim, interage com o todo, o eterno e o infinito.
Nestes dois mundos, entretanto, cada ser humano percebe apenas a face que está voltada para a sua individualidade. Dentre as infinitas multiplicidades destes mundos, cada indivíduo cria, constrói, o seu mundo, a sua verdade, a sua realidade.


Quem é Deus?

O homem moral crê em Deus, o homem cosmoconsciente sabe o que é Deus. Huberto Rohden

O filósofo e o cientista procuram Deus através da razão e da lógica, mas Ele somente é encontrado pela intuição e pelo sentimento. O Deus dos filósofos não é o Deus da fé: não é Deus; afirma Blaise Pascal, e continua: o coração tem razões que a razão desconhece.
É necessário romper o círculo vicioso da razão, da lógica e permitir que a intuição e o sentimento abram o caminho para a descoberta dos mistérios do cosmo.
A consciência que o homem tem de Deus determina a sua compreensão do Universo. Para alguns Deus é um ditador celeste, uma pessoa, que vigia os homens de longe e registra os seus créditos e débitos, premiando-os ou castigando-os depois da morte, mandando os bons para um céu eterno e os maus para um inferno eterno. Para outros Deus é a realidade Una e Única, o grande Uno da Essência, que sempre de novo se revela através da pluralidade das existências da criação (monismo cósmico). (Huberto Rohden.)
Deus sempre é uma experiência pessoal, isto é, um saber subjetivo, interno, quer seja um Deus antropomórfico ou um Deus percebido como o monismo cósmico.
O conceito de um Deus antropomórfico inclui a presença do Diabo, isto é, Deus divide com o Diabo os domínios do Universo. É uma visão dual da realidade. No conceito do monismo cósmico Deus é o Todo, o Uno, a união dos opostos (complexio oppositorum).
No desenvolvimento da consciência, a compreensão de Deus vai-se modificando de acordo com a sua evolução.
São as relações de Senhor, Criador e Pai que as religiões formais afirmam existir entre Deus e os homens. A relação que estas pessoas, através de suas religiões, têm ou procuram ter com Deus estabelece-se, então, de acordo com este nível de relação.
Ao ultrapassar esta etapa da evolução, aos poucos, o homem toma consciência de que Deus não é um ser externo a ele; ele não é escravo, nem criatura, nem filho de Deus; ele não é Deus, mas está n’Ele, formando uma Unidade. O homem é um ponto energético que vibra dentro da Alma Universal, o Todo, o Inominável, a Fonte do Profundo Silêncio (Tao). Deus, então, não é mais um ser em que se acredita, Deus passa a ser um saber.

Lúcifer, o portador da luz

A inteligência que formula o pensamento, uma associação dinâmica de imagens acumuladas, e o raciocínio, uma forma de pensar por meio dos qual ensaiamos simbolicamente soluções para um ou vários problemas, ou seja, o intelecto, é representado esotericamente pela imagem de Lúcifer.
No sentido etimológico Lúcifer, do latim luci-feros, significa o portador da luz. Para certas escolas esotéricas, como a teosofia, a figura de Lúcifer está revestida de complexo e importante conteúdo simbólico: é ele quem, desobedecendo às ordens de Deus, confere aos homens o conhecimento, retirando-os assim do estado mítico de inocência em que viviam (simbologia do Paraíso).
O primitivo ántropos, ser hominal, não tinha consciência da sua existência individual. Com a evolução ele passa a homo sapiens e, mais tarde, homo sapiens, sapiens, isto é, o homem que sabe, que sabe. Uma longa caminhada, uma longa etapa da evolução. Mas a evolução é uma pirâmide em cuja base está a grande massa, com baixo nível de consciência. O grosso da humanidade, afirma Rohden, é composta do tipo homo intelligens, ou até do homo sentiens, o homem sensitivo com um leve verniz de intelectualidade. A sapiência ou sabedoria, é algo incomensuravelmente superior à simples inteligência. Esta é analítica, indutiva, silogística – ao passo que aquela é sintética, dedutiva, panorâmica. A inteligência se manifesta muito mais pela capacidade de dissociação de idéias do que pela capacidade de associação. É a dissociação intelectual que permite distinguir a realidade da aparência, desfaz confusões e ilumina aspectos ocultos das coisas. A simples associação de idéias é um processo mecânico, ao passo que a dissociação exige muito mais argúcia, poder de observação e senso dos matizes. A genialidade consiste em certa maneira muito pessoal e desprogramada de estar no mundo, de avizinhar-se do segredo das coisas e das pessoas.
A civilização humana é uma criação da inteligência. O progresso fantástico que o homem conseguiu no mundo material afastou-o do seu mundo interior, da sua ligação com o todo, o universo, Deus. Por isso afirmamos que Lúcifer afastou o homem de Deus. Lúcifer - pensamento, razão, lógica - afastou o homem da vida – instintos, intuição, sentimento, Deus.
O homem, pelo intelecto, criou, à sua imagem e semelhança, um Deus ideal.
Lúcifer, o intelecto, não é bom nem mau. Cabe ao homem tomar consciência e direcioná-lo para adorar a Deus, o Todo, e não a si mesmo.

Evolução cultural e evolução da consciência

No homem, se por um lado, ele, com a sua inteligência, promove o progresso científico e tecnológico, por outro, há o desenvolvimento da consciência. Não há uma relação entre um e outro pois são processos distintos. O desenvolvimento científico é racional, lógico, objetivo enquanto o desenvolvimento da consciência é um processo subjetivo.
Na evolução cultural, afirma Oliver Sacks, qualquer coisa que se invente ou aprenda ou descubra, imediatamente se acumula e é passada adiante, é um poderoso mecanismo cumulativo que não existe na natureza. Na natureza, quando uma espécie desenvolve alguma coisa, não pode transferi-la para mais ninguém; cada espécie é a sua própria entidade singular. Há interação, mas nunca amalgamação, ao passo que na cultura humana você tem essa complexa reticulação. Então é por essas duas razões que a herança cumulativa de conhecimento e tecnologia e sua propriedade reticular de descoberta e invenção, que a evolução cultural é tão rápida.
A evolução da consciência é semelhante à evolução da natureza. Lenta, gradual e individual. O desenvolvimento científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e acabada, ao passo que a consciência é um saber que não pode ser transferido.
De acordo com Carl Gustav Jung, o desenvolvimento da consciência acontece quando há o encontro do consciente com o inconsciente. Este processo é promovido pelo instinto e determinado pelo destino. O homem natural nem suspeita de sua existência até que um dia se vê mergulhado nele. Esse impulso em direção a uma consciência superior e mais ampla tem o objetivo de reconstituir o ser humano na sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente e o inconsciente, ou seja, compor aquele homem primordial, bissexuado, que se basta a si mesmo. A união do consciente ou da personalidade do eu (masculino ou feminino) com o inconsciente personificado pela anima (feminino ou masculino) gera uma nova personalidade que transcende a consciência e por esta razão já não deve ser definida como eu, mas sim como Si-mesmo (Selbst, Self).
A integração do si-mesmo é, no fundo, um problema da segunda metade da vida.
Consciência é percepção, pensamento, sentimento, vontade e intenção. A consciência é relativa porque há toda uma escala de intensidade entre a consciência fragmentada, num nível primitivo e infantil e a totalidade plenamente integrada num estágio superior e que pode continuar em expansão.
Há uma consciência em que predomina o inconsciente, como há uma consciência em que domina a autoconsciência. Tanto numa quanto noutra há níveis de intensidade.
A consciência é formada por idéias fragmentadas que aos poucos vão-se aglutinando. Não podemos ter compromissos com a verdade de hoje e com o passado porque cada fração de tempo pode trazer um novo aprendizado.
Todos nascemos diferentes física e psicologicamente. Desenvolvemos aos poucos as nossas capacidades, e na adolescência e juventude já identificamos as pessoas que têm maior nível de consciência, pois são os líderes natos. São aqueles que destacam-se por ter uma visão maior do conjunto.
Alguns, com o decorrer do tempo, através do seu trabalho, vão ampliando a consciência e começam a ter um ponto de vista privilegiado em relação à multidão que continua na planície. Enquanto o homem de massa não enxerga muito além do seu próprio nariz e identifica a realidade apenas com o seu vizinho e as coisas que lhe estão próximas, o outro, por estar num nível mais elevado, tem uma visão paronâmica.
As montanhas que cercam a planície são apenas obstáculos intransponíveis para o homem comum, mas há aqueles que procuram escalá-las para identificar o que há para além daquela realidade restrita. Ao escalar a montanha e ultrapassá-la, com muitas dificuldades e privações, vão descobrindo e explorando novos mundos e novas realidades inimagináveis para quem ficou na planície. Ao voltar e contar as boas novas, ele é chamado de louco, um alienado, porque dizem eles ninguém consegue ultrapassar estas montanhas; muitos o tentaram e morreram. Isto tudo que contas é fruto da tua imaginação. Queres ter mais saber do que os nossos sacerdotes que tem as verdades reveladas por Deus.
Consciência é perceber e compreender a realidade através da auto-observação. É escalando a montanha e identificando os mundos que se estendem para além da visão do homem comum. Ter consciência não é somente apreciar a paisagem, mas identificar os seus elementos e as suas funções no conjunto. Perceber que a terra, o homem, rios, árvores, animais, pássaros, insetos, montanhas, neve, chuva, sol, lua e estrelas formam um conjunto vivo e interdependente, um Todo. Ter consciência é observar que há uma harmonia universal e que há realidades muito além das observadas pelos nossos sentidos, que há uma alma universal e uma racionalidade até nos objetos inanimados porque cada coisa tem a sua função no Todo.

Vontade de chegar

Na luta entre a multiplicidade de forças de sua natureza animal e humana armazenados por milhares de gerações, está o instinto e o espírito, dois pólos opostos mas que em sua essência são faces da mesma individualidade. O espírito e o instinto são autônomos, cada um segundo sua natureza e os dois limitam em igual medida o campo de aplicação da vontade. Cabe ao eu, pela razão e pela experiência de vida, consciente da lei cósmica da evolução, conciliar os inconciliáveis porque segundo a doutrina esotérica, tudo é dual; tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os antagônicos e os semelhantes são a mesma coisa; os opostos são idênticos em sua natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são semiverdades e todos os paradoxos podem reconciliar-se.
Cada ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver a sua natureza. Este desenvolvimento é natural. O que acontece a uma pessoa é característico dessa pessoa. Uma pessoa representa um modelo onde todas as peças encaixam umas nas outras. Uma a uma, à medida que a vida decorre, ocupam o seu lugar, de acordo com um desígnio predestinado. (Jung.)
Os buscadores não se satisfazem com a fé cega, a crença religiosa ou os argumentos da razão, eles precisam ir além. Hermann Hesse, no seu livro O Lobo da Estepe, faz esse questionamento básico: será que toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da mãe Natureza, ou será que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à imortalidade? Porque o homem - afirma Hesse - não é uma forma fixa e duradoura; é antes um ensaio e uma transição, não é outra coisa senão a estreita e perigosa ponte entre a Natureza e o Espírito. Para o espírito, para Deus, ele é impulsionado por sua vocação mais íntima. Para a natureza , para a mãe, ele é atraído pelo mais íntimo desejo. Sua vida oscila vacilando angustiosamente entre ambos os poderes....O homem não é uma coisa já criada, mas uma exigência do espírito, uma possibilidade longínqua, tão desejada quanto temida, e que o caminho que a isto conduz só vai sendo percorrido em pequenos impulsos e debaixo de terríveis tormentos e sonhos, precisamente por aquelas raras individualidades, para as quais hoje se prepara o patíbulo e amanhã o monumento.
É pela auto-observação que o homem começa a perceber que há outros mundos, outras realidade fora das paredes que construiu ao seu redor. Cada ruído, cada centelha de luz, cada sensação pode conter uma lição pois as verdades não são reveladas por raios e trovões. É nas pequenas coisas que se descobre o infinito. O espírito universal comunica-se conosco, se assim o permitirmos.
A auto-observação nos torna testemunhas e participantes dos processos que se desenvolvem em nossa volta. Os mistérios da vida começam a perder a sua obscuridade para revelarem-se naturais.
Aos poucos desenvolve-se a intuição, uma idéia súbita, uma percepção cognitiva que comprime anos de experiência e aprendizado num clarão instantâneo. Informações conscientes e inconscientes aglutinam-se para formar uma idéia, um conceito, uma solução para dado problema.
O conhecimento está disponível, basta procurá-lo. Nós temos a capacidade de aprender, isto é, de despertar, de tomar consciência. Neste processo usamos os ensinamentos de todos os mestres e sábios que se adaptam à nossa realidade pessoal.
Não elegemos autoridades, não seguimos pessoas, pois o nosso mestre está dentro de nós.
Há aqueles, no entanto, que nada buscam, nada procuram, simplesmente vivem e não sentem essa pulsão interior incapaz de ser contida.
Entretanto, afirma a lei cósmica da evolução que tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora.
Sim, o que nos move é a vontade de chegar. Vontade que não sabemos se é privilégio ou castigo mas que nos arrasta para o infinito desconhecido.


Ascensão


Quando a consciência latente tiver se tornado clara e o Eu tiver pleno conhecimento de si mesmo, o homem terá vencido a morte. Pietro Ubaldi

A evolução da consciência do ser humano está inserida no processo evolutivo do cosmo. São o esforço e o trabalho individuais, através de atos instintivos e de vontade, num jogo de poder em todos os níveis e em todas as áreas, numa luta de superação de obstáculos, que fazem o homem evoluir.
O homem comum, de massa, é dependente do seu grupo. Ele é em grande parte, controlado pelas compulsões inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa... e como tal ele depende, para sua energia e mais ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada. (Rudhyar.) A sua vida está apoiada nos seus amigos, na sua corporação, no seu grupo social, na nação com que se identifica. Ele não é um in-divíduo, na verdadeira acepção do termo, ele é ovelha de um rebanho. Na sua inconsciência acha que todos os homens são iguais. Os pontos de apoio de sua personalidade são a fé cega e a segurança psicológica que o grupo oferece. O homem massificado não tem valor; é uma simples partícula que perdeu a sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade, afirma C. G. Jung.
O homem-massa é movido pelas paixões, amor e ódio, como magnificamente Padre Antônio Vieira sintetiza as paixões humanas. A sua consciência é fragmentada, é um arquipélago, na citação de C. G. Jung, pois identifica cada coisa individual e separadamente, sem perceber o conjunto que, por sua vez, está inserido no todo. A sua percepção é dual e assume uma postura unilateral, determinada e dirigida. Num conceito amplo, ele está mergulhado na confusão porque não compreende as coisas do mundo. Ele está com uma verdade que se confunde com a verdade do seu grupo.
O homem comum segue um guia, um líder, uma autoridade, um mestre, um guru, um salvador. A sua religião exige vontade, disciplina, esforço e sacrifício para atingir a redenção ou a iluminação.
A energia da vontade, entretanto, é naturalmente utilizada e direcionada pelo ego para o seu fortalecimento - querer é poder. A vontade inquebrantável, a disciplina, o esforço e o sacrifício poderão levar o ego à perfeição, mas não levarão o homem à iluminação, à Verdade, a Deus. No entanto, somente aquele que aperfeiçoou o ego pode perdê-lo e assim, encontrar a sua verdade. Este não será um ato de vontade, mas acontecerá, quando menos esperar, por força da Lei que move o universo. A força da vontade passa então para o domínio daquelas forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida (Nietzsche). Neste processo há a assimilação da sombra. A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. ... Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade. ... Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões (Jung).
O processo de assimilação da sombra promove a ascensão, a saída do rebanho, a libertação dos condicionamentos, o início de uma experiência de vida independente e livre, embora relativa - afinal o homem por mais independente que seja, é escravo do ar que respira. Ascender significa elevar-se, aglutinar as ilhas da consciência fragmentada para chegar a percepção do todo.
Ao libertar-se do rebanho o ser humano perceberá que ele é um universo, e é único. Tomar consciência da sua individualidade é acentuar a percepção da sua diferença em relação aos outros e emancipar-se das normas coletivas. As verdades – sempre são subjetivas - dos grandes profetas, gurus, mestres iluminados e de qualquer outro ser humano serão adaptados à sua natureza, à sua individualidade, ao seu tempo e à sua realidade, porque toda verdade é relativa. Enquanto as ovelhas são forçadas a se adaptar à doutrina dos seus guias, o homem que se libertou saberá separar o acessório do principal, as doutrinas de efeitos efêmeros das verdades fundamentais.
A Lei que move o universo não pode ser ensinada porque a sabedoria resulta da experiência direta. A função dos mestres é despertar as pessoas. As verdades dos grandes mestres representam diretrizes. Elas servem como sinalizações, são setas nos caminhos (Rohden) que cada um deve trilhar individualmente, superando obstáculos e dificuldades porque os caminhos são pessoais, não há duas vidas - duas vias - iguais. Assim como cada pessoa tem uma reação individual perante os acontecimentos da vida, cada um tem uma forma de superar as suas dificuldades. Determinado obstáculo pode ser superado com facilidade por uns e ser uma barreira quase intransponível para outros. O mérito, portanto, não reside na superação objetiva mas no esforço subjetivo. Salvadores somente existem na mente de pessoas inconscientes.
O homem que ascendeu está naquele nível de que nos fala Platão: quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante.
Entretanto, consciente ou inconscientemente, cada um tem a sua verdade, com a diferença de que o homem comum apega-se a ela como algo certo e definitivo e o sábio continua com a mente e o coração abertos ao novo.

Cosmoconsciência

Cosmovisão (Weltanschauung) é a compreensão do mundo, pela causa eficiente, formal e material. Cosmoconsciência é a compreensão do mundo pela causa final. Nesse sentido, afirma Rohden: “o homem moral crê em Deus, o homem cosmoconsciente sabe o que é Deus”.
Muitos ainda se apegam às suas verdades imutáveis, consciências cristalizadas, petrificadas, e não conseguem perceber que nós precisamos evoluir junto com o mundo. Porque tudo de significativo que acontece é incorporado em nós e cresce conosco se mantivermos a mente e o coração abertos. O nosso mundo interior é infinito e somente ele é real. Todas as coisas vinculadas ao mundo externo passam.
Nós, no nosso mundo interior, em qualquer idade, ainda somos a criança que quer descobrir o mundo, o adolescente que desperta para uma nova vida e o jovem idealista que quer mudar o mundo. Por que colocar uma bíblia debaixo do braço e pensar que estamos com a verdade? Isto não se refere apenas aos religiosos mas a qualquer ser humano. O homem sábio, por mais genial que seja, não é aquele que sabe a Bíblia de cor, ou conhece todos os ramos da ciência. Sábio é aquele que abre a mente e o coração e permite que a verdade flua para dentro de si. Não procure a Verdade, permita que ela o encontre, diz Rajneesh.
O homem desde que se conhece como sapiens, sapiens, tem procurado encontrar respostas para os mistérios que o cercam.
Nós vivemos numa realidade, num mundo definido, por que não dizer, criado pelos nossos sentidos. Precisamos aceitar, além das vias científicas, a existência de outras vias de conhecimento, como a ampliação da consciência com a absorção de conteúdos inconscientes e a intuição. O Universo é um todo do qual nós percebemos somente uma face. Nós não podemos objetivar completamente os fenômenos, mas apenas falar do “mundo que o homem é capaz de conhecer”.
Sobre a fé, é necessário citar um texto atribuído a Buda:
Não depositem fé em tradições, mesmo que tenham sido aceitas por longas gerações e em muitos países. Não acreditem em algo só porque muitos o repetem. Não aceitem uma coisa só por ter sido afirmada por algum dos sábios antigos, nem com base numa declaração encontrada nos livros. Jamais acreditem em alguma coisa porque as probabilidades lhe são favoráveis. Não acreditem no que vocês mesmos imaginaram, pensando que foram inspirados por um Deus. Não acreditem em nada simplesmente por ter sido afirmado por mestres ou sacerdotes. Após examinarem, acreditem naquilo que testaram pessoalmente e julgaram razoável, que esteja em conformidade com o seu bem-estar e o dos outros.
A mecânica quântica, descoberta há um século, ainda não é compreendida pela maioria dos cientistas, pelo homem religioso, muito menos pelo homem comum. A sua compreensão promove tamanha revolução da visão do mundo, que se iguala, se não supera, o que aconteceu na época em que Galileu afirmou que a Terra não era o centro do universo.
A filosofia de Descartes, diz Heisenberg, fazia clara distinção entre sujeito e objeto. Descartes distingue muito nitidamente: Deus, eu, o mundo. Pode-se decompor este triângulo, por assim dizer, em seus três lados. A tarefa do cientista é tratar de um dos lados: o lado do “mundo objetivo”. E nesse mundo objetivo, pensava Einstein, tudo deve acontecer segundo um determinado programa que pode ser expresso matematicamente. Eu, porém, pertencia a uma geração mais jovem, e desde o início participei das dores de parto, por assim dizer, da teoria dos “quanta”; percebi que a antiga distinção simplesmente não era possível, ainda que o quiséssemos. Por isso inclino-me a dizer a que a ciência da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por conseguinte, nós mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela.
Deus, eu, o mundo é um todo; a causa e o efeito estão interrelacionados.
Devemos ser capazes de assumir a posição do observador, estar fora, separados, olhar de longe e do alto, perceber e sentir as coisas passar; não estar vinculados, apegados, entranhados a nenhuma coisa do mundo; ser essa consciência de desapego, esse estar no mundo, sem ser do mundo; sentir essa realidade desligada do egoísmo do eu; ser o espírito que contempla tudo o que existe, tanquam non, como se não existisse. Esta consciência redireciona as nossas motivações e ações. O nosso pensar e agir passa a ser determinado pela visão panorâmica do espírito, a cosmoconsciência.

Vidas passadas

O ser humano não nasce uma tabula rasa, uma folha em branco, ele é o produto final de uma linha de produção que começou no início dos tempos. As características físicas com a sua forma peculiar e individual, assim como o seu caráter - o conjunto de disposições congênitas que formam o esqueleto mental de um homem – representam um resultado aleatório, imprevisível, que tem como causa a sua herança genética. O homem é, física e mentalmente, o efeito, o resultado final de uma causa gerada por todos os seus antepassados. No seu inconsciente está guardado o espírito da raça, da cultura e da tradição, a memória das experiências de vida dos seus ancestrais. Nessa memória inconsciente parecem estar as “vidas passadas”.
Na multiplicidade de personalidades que essa herança gerou e gera, há a possibilidade de nascer um ser com um potencial para tornar-se plenamente consciente, como também, um gênio. Essa possibilidade é, estatisticamente, um fato raro, assim como é raro que essa potencialidade consiga manifestar-se plenamente. Isto é, na nossa humanidade há as exceções. São exceções não porque se esforçaram ou fizeram sacrifícios, mas porque nasceram com potencialidades incomuns e conseguiram desenvolvê-las. Outros, dependendo de inúmeros fatores não o conseguem. Tem sido chamada de centelha divina ou mônada, afirma Rudhyar, mas talvez seja mais sábio concebê-la como uma semente de Deus, da qual pode se desenvolver uma planta de substância e poder espirituais se for plantada em solo fértil, na estação oportuna e sob condições climáticas adequadas. O solo fértil é a hereditariedade e o ambiente da pessoa real. A estação e o clima oportunos referem-se às condições sociais e cósmicas sob as quais o ser real vive nesta Terra. Mas, como nos ensina Jesus na parábola evangélica, muitas sementes não chegam a alcançar o estágio de plantas plenamente amadurecidas. (Tríptico Astrológico – Dane Rudhyar – Ed. Pensamento – São Paulo, 1995). O destino ou karma é uma herança, uma potencialidade a ser desenvolvida através de escolhas - ações ou omissões - desencadeadas por desejos conscientes e inconscientes. O livre-arbítrio, portanto, está limitado àquilo que somos.
As nossas ações ou omissões devem guiar-se, não só pela razão, mas também pela voz interior do sentimento e da intuição. Desenvolver-se significa evoluir e, neste processo de aprendizagem, as derrotas muitas vêzes são mais importantes do que as vitórias. Como já disse alguém, as derrotas ensinam, as vitórias embriagam. As “vidas passadas”, memória inconsciente transmitida pelos nossos ancestrais, são as linhas mestras da nossa vida. Descobri-las pelo autoconhecimento e guiar-se por elas, significa evoluir conscientemente.

Destino e livre-arbítrio

A realidade tem múltiplas faces das quais observamos uma, duas ou pouco mais, cada um na sua perspectiva, cada um no seu próprio ponto de vista, dependendo de suas experiências de vida. A grande maioria está na planície e apenas consegue ver o que se passa em sua volta; outros subiram a colina e têm uma visão mais ampla; alguns galgaram a montanha e descortinam uma vista panorâmica.
Muitos da planície estão satisfeitos e nada buscam, ou contentam-se em acreditar nas informações dos que subiram a colina e a montanha; muitos dos que estão na colina, e mesmo alguns que subiram a montanha se satisfazem com as suas descobertas. Há, entretanto, aqueles que estão a olhar para o alto; não se satisfazem com as verdades daqueles que dizem que “viram”, buscam êles mesmos descobrir os segredos da colina e da montanha, onde sempre haverá picos mais altos a serem explorados.
Cada um está certo a seu modo, cada um tem a sua verdade: o que está na planície, o que está na colina, aquele que subiu a montanha e aquele que continua na sua jornada. Enquanto há aqueles que nada buscam, aqueles que se satisfazem pela fé, há aqueles que olham para cima, aqueles que anseiam sempre o mais alto, aqueles cuja força instintiva para evoluir não tem limites.
O caráter, conjunto de características congênitas, determina o destino de cada ser humano. Este conjunto representa as forças instintivas da raça, dos valores coletivos - tradição, cultura e religião - do seu grupo social, da nação e da humanidade. O homem não nasce livre. Ele nasce condicionado e a sua liberdade consiste em agir nos limites desse condicionamento. Aqui reside uma grande dificuldade do ser humano: perceber que todos estão condicionados, cada um a seu modo, e que o seu desenvolvimento, a sua evolução dá-se, necessariamente, de acordo com o seu caráter.
O descondicionamento total é impossível. O saber liberta o homem, não do seu condicionamento, mas da ignorância. Ser livre é saber-se escravo da sua humanidade.
Nós nascemos com uma estrutura psíquica, mental e emocional, própria e individual. Por isso o livre-arbítrio é agir em conformidade com o nosso modelo básico e assim sermos livres. Somos livres de selecionar e de escolher até os limites do nosso entendimento. É o ato voluntário em que o indivíduo tem consciência dos meios e das finalidades de sua conduta, isto é, o indivíduo procura atingir um objetivo por ele mesmo proposto, tendo consciência dessa tentativa. Não existe, para o ser humano, a liberdade total, absoluta. Se conceituarmos livre-arbítrio com estas características, então ele não existe. Depois de escolhido, o homem deve aceitar as conseqüências da sua escolha e continuar a partir dela. Somos, portanto, pelo livre-arbítrio, prisioneiros das nossas escolhas passadas e dos nossos desejos. Que paradoxo: usamos a liberdade para nos aprisionarmos. Como pode uma pessoa libertar-se das cadeias forjadas pelo passado a fim de poder outra vez ser livre? Esta liberdade é o objetivo máximo de todas as vias de libertação e técnicas de auto-realização.
O karma pode ser anulado pelo reto-agir, pelo amor.
A idéia de karma (ação e reação, causa e efeito) é evidentemente inseparável da teoria (lei) da reencarnação. Eu entendo, no entanto, que karma e reencarnação são metáforas ou símbolos de um processo cósmico muito mais sutil do que dá a entender a concepção popular destes termos.


Coerência e experiência direta

As pessoas comuns tem uma coerência própria, tem compromissos com as suas idéias e valores o que as coloca numa determinada vertente dentro do seu grupo social.
Fazer parte de um grupo é da natureza do ser humano. Participar de um grupo, seja político (esquerda, centro, direita, etc.), religioso ( católico, protestante, adventista, agnóstico, etc.) ou não gera segurança individual e coletiva. O grupo, de certa forma, quer demonstrar que é possível igualar desiguais a partir de uma idéia, de um ideal.. A coerência é neste caso um valor fundamental. O que é coerência? É adotar determinada postura dentro do seu grupo e manter-se fiel a estes princípios até a morte. Esta coerência gera segurança a si mesmo, ao seu grupo e à sociedade. Qualquer dúvida será solucionada pelo grupo ou seu líder. Viver em grupo e ter alma de grupo. Poucos conseguem imaginar que possa ser diferente. A pessoa não é um indivíduo na verdadeira acepção da palavra. Mas há momentos em que ela precisa ser ela mesma, afinal a sua natureza é diferente, totalmente diferente de qualquer outra pessoa. Então qual é a saída? Usar uma máscara perante o grupo para fugir do seu controle. Ser ela mesma é uma necessidade de liberdade que muda de pessoa para pessoa, porque afinal, todos são diferentes. Ser livre tem o seu preço e é um preço muito alto. Alguns decidem pagá-lo outros não. Tudo isso, no entanto, decorre de acordo com a natureza de cada pessoa. Alguém pode ser um intelectual e ter pesquisado e estudado Psicologia, Filosofia, Religião e outras ciências afins e ser um mestre insuperável em sua área e ampliou a sua consciência. Entretanto somente a vivência, a auto-observação, o auto-conhecimento é que vai dar aquela profundidade que está ligada à experiência de vida. É a diferença daquela pessoa que conhece todas as regras de trânsito, todas as técnicas de como dirigir um automóvel, como engatar uma marcha, como acelerar aos poucos enquanto tira o pé da embreagem mas nunca dirigiu um carro na vida, daquele que, com o seu carro, enfrenta o trânsito diariamente. Todo o cabedal de conhecimentos nada vale sem a experiência.

Visão dual

A visão dual divide, separa e identifica as partes como se elas fossem entidades próprias, autônomas e existissem por si mesmas. Identificamos o mundo que nos cerca pelos seus opostos: bem e mal, certo e errado, noite e dia, etc. Nós somos metade homem, metade mulher, parte consciente, outra inconsciente, razão e instintos. Um ser – segundo Jung - é totalmente inconcebível sem uma polaridade, porque, de outro modo, seria impossível estabelecer sua existência.
A percepção de que a unidade, o universo, o todo é a união dos opostos somente vai acontecer quando tomarmos consciência de que as partes são faces da mesma moeda, são dois aspectos da mesma realidade. Mas para compreender que tudo é dual; tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os antagônicos e os semelhantes são a mesma coisa; os opostos são idênticos em sua natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são semiverdades e todos os paradoxos podem reconciliar-se, segundo a sabedoria esotérica, precisamos ampliar a nossa consciência


Superação

Superar é ultrapassar uma dificuldade, um problema, um obstáculo. A melhor forma de fazê-lo não é combater e vencer, mas compreender. A luta e a violência levam à repressão e à desarmonia. A compreensão leva ao amor. Não devemos lutar contra nós mesmos, contra os nossos instintos, contra o prazer sensual, mas procurar conhecer a nós mesmos, tentar compreender a energia que nos move, que nos direciona.
A vida não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser vivido. A nossa mente quer identificar as causas que geram as nossas angústias e dores. Nunca as encontraremos porque a vida não é racional. Viver é aceitar tudo, totalmente; é entregar-se de corpo e alma ao prazer e à dor; é viver tudo com tanta intensidade que nada sobre para ser vivido.
O ser humano se apega, cria dependências emocionais, e culpa o outro pela sua infelicidade. A mente dual sempre procura uma causa porque ainda é incapaz de perceber o todo, compreender que todas as coisas no universo estão interrelacionadas. Dor e prazer são dois pólos da mesma realidade, a vida.
Os conceitos de Bem e Mal são criações humanas para justificar a ignorância daquilo que é. A maioria dos seres humanos vive mergulhada na confusão, em equívocos criados pela sua mente. Confusão significa escuridão, trevas, ignorância. Bem e Mal são criações da ignorância porque eles não existem por si mesmos. A existência de um está vinculada ao outro. Para existir o céu é necessário que haja o inferno. São criações da mente dual que não consegue compreender o todo. O Bem e o Mal são pesadelos criado pela própria mente. Eles somente existem na mente daqueles que neles acreditam. O ser humano comum é uma máquina de efeitos condicionados que age movida pelo exemplo, pela imitação, por idéias alheias. Tem uma viseira estreita, mal enxerga o chão onde pisa e, se olhar para as estrelas, certamente irá tropeçar e cair.
Mas o homem não é uma obra acabada. É uma potência com possibilidades infinitas. O homem é o ánthropos grego: aquele que olha para cima, aquele que anseia sempre o mais alto.
É preciso despertar desse pesadelo. Acordar. Abrir, arejar a mente e o coração com o novo, o diferente. Permitir que a luz penetre as trevas. Olhar para cima, libertar-se dos apegos, dos condicionamentos psicológicos, VIVER!
O despertar é individual, é uma tomada de consciência, um renascimento para uma nova vida. Acordar é permitir que o espírito (spiritus rector) que está dentro de nós direcione a nossa vida. Não precisamos de autoridades, de pastores, padres ou gurus, porque o verdadeiro mestre e amigo não está fora, ele está dentro de nós.

A redenção

Todas as religiões do mundo admitem redentor ou redentores. O cristianismo é a religião clássica da redenção. Mas o que é redenção? Redenção é resgate, emancipação, libertação, auto-realização. A redenção supõe que o homem seja escravo, cativo, prisioneiro - e assim é de fato. Mas o que prende, o que escraviza o homem? O que escraviza o homem é a sua inconsciência, a sua ignorância. A ampliação da consciência é o processo individual por excelência, que lança a luz nas trevas da sua ignorância.
A redenção é a auto-transformação do homem, o desafio da sua existência.
O homem autoconsciente é um homem redimido. Foi percebida a máscara (persona) usada durante toda a sua vida. Livre e inteiro, em harmonia consigo mesmo e com o universo, é o verdadeiro filho de Deus.

Sonhos

Os nossos limites são os nossos sonhos. Cada um sonha de acordo com a sua estrutura instintiva, emocional e mental. Sonhos são imagens inconscientes que afloram e é nelas que devemos canalizar a vontade de poder, quando então, todo o universo vai conspirar a nosso favor. Não confundamos sonhos com ilusões. Os sonhos fazem parte das nossas possibilidades reais e as ilusões são construídas pelo superego, pelo egoísmo, pela inveja, e, fatalmente se transformarão em fracassos. Não tenhamos ilusões, mas fé em nós mesmos, na capacidade de atingirmos a nossa realização pessoal, de realizar os nossos sonhos. Então encontraremos a paz, a verdadeira felicidade.

Ismos

A igualdade dos homens entre si e a fraternidade que dela deve decorrer (idéia fixa dos cristãos) impregna toda a civilização ocidental. É a moral do rebanho sob o domínio do pastor que é o dono da verdade. O Cristianismo não é diferente dos outros ismos fundamentalistas baseados na negação da liberdade individual, da evolução, das leis cósmicas e da única realidade que é o aqui e o agora. Nele, a realidade está no além, na eternidade, na cidade de Deus. Está baseado na crença, num ter-por-verdadeiro que é um Nada. Assim, de acordo com os seus ensinamentos, viver a vida não tem mais sentido.
É a vontade de Deus, ditada pela corporação eclesiástica, que determina o que o homem tem de fazer e deixar de fazer, baseado em pecado, perdão, culpa, castigo e recompensa; que mede o valor do indivíduo em relação à maior ou menor obediência.
Os membros da casta clerical vivem brandindo a Bíblia (organizada pela própria) e se dizem missionários. Só têm certezas nenhuma dúvida. Não há grande diferença entre as pregações de Santo Isidoro de Sevilla que levou muita gente para as fogueiras da Santa Inquisição e os massacres em massa praticados por ditadores deste século. Estão carregados de preconceitos mas pregam o amor ao próximo.
É uma doutrina antinatural porque, na verdade, todos os seres humanos são diferentes entre si, física e psicologicamente. É algo que está na cara e só não vê quem não quer. A facilidade com que fantasiam realidades é própria de um ser humano que está num nível de consciência em que predomina o inconsciente, uma consciência infantil, fragmentada.
Jesus era um espírito livre que pregou a religião do amor. É inconcebível o amor sem liberdade. Ele pregou a vivência plena porque o reino de Deus está dentro de vós. O único mundo verdadeiro e eterno é o mundo interior e, esta é uma experiência pessoal, individual, que está no coração. Isto é plena consciência e disto está vazio o Cristianismo.
O ser humano evolui individualmente pela ampliação de sua consciência, que não é promovida pelo poder da vontade que comanda o egoísmo. É algo que acontece. Esta evolução incomoda o rebanho porque na consciência de rebanho, todos os homens sempre serão iguais. Ser diferente, mesmo através de um processo natural, vai contra a lógica das verdades clericais. Na verdade é a insegurança individual que faz a pessoa necessitar do grupo para se proteger.
Sempre é bom lembrar, entretanto, que nós precisamos do outro (qualquer pessoa) para evoluir, para ampliar a nossa consciência e que todos os ismos são necessários como obstáculos a serem superados individualmente para permitir a plena consciência.

Juízo, Caráter e Liberdade

O nosso corpo e a nossa alma são heranças genéticas e sobre as quais, conseqüentemente, não tivemos opção. Afinal nem o berço foi escolha nossa. A educação também não foi e não é escolha nossa, pois apenas reagimos ao nosso meio. Na verdade, só iremos começar a fazer escolhas quando criarmos juízo. O que é juízo? É a capacidade de discernir, escolher e julgar. Ter juízo é ter plena consciência, é ter a capacidade de avaliar todas as causas e conseqüências de qualquer decisão. Quem é capaz de? A nossa consciência sempre é parcial e por isso nossos julgamentos não são nem livres, nem justos, nem isentos. Sempre será o nosso universo pessoal que fará a escolha. Por isso devêmo-nos abster de fazer quaisquer julgamentos.
O caráter é o esqueleto da alma. Nele estão impressas as características pessoais e o destino de cada um. O homem pela educação pode dar-lhe um polimento, mas a personalidade é a letra escrita do caráter. Por isso podemos afirmar que a liberdade do homem é relativa, querer é poder, pensamento positivo e as afirmações de Kierkegaard... o homem é o que ele escolhe ser"...a pessoa decide se quer ou não ir adiante...a pessoa pode ou não decidir se dará um salto para um estágio mais elevado... são ilusões.
Na verdade, o homem tem uma cota de liberdade que sempre está condicionada ao seu caráter e ao seu nível de consciência. Há um ditado árabe de plena sabedoria: Se Alá predestinou alguém a morrer num determinado lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá.
A educação e a convivência social tem a função de manter um controle sobre os instintos e auxiliar no desenvolvimento das potencialidades individuais. A educação tem a função de desenvolver a personalidade com dedicação, trabalho e disciplina que impõe limites e mostra caminhos. O autocontrole que é desenvolvido dentro de uma estrutura social hierarquizada, a começar pela família, pela disciplina e pela educação é imprescindível para que a pessoa comece a tomar consciência da sua realidade. A disciplina e a educação são formadas por leis morais e normas de direito a que todo o grupo social se sujeita. Este é o controle que a sociedade mantém para o seu desenvolvimento como um todo e para o desenvolvimento individual. Cada um é julgado por leis que regulam as relações sociais e que, na sua essência, normatizam o grau de liberdade no universo social em que ele vive. As normas, muitas vezes, extrapolam a sua verdadeira finalidade para interferirem na liberdade de ser. Coíbem a manifestação das potencialidades inerentes à natureza individual; proíbem comportamentos que não agridem a convivência social mas são tão somente a negação de valores subjetivos, ou seja, convicções morais e religiosas; propõem reduzir indivíduos totalmente diferentes em sua natureza a um rebanho. Esta violência moral, este julgamento é totalmente condenável.
Tudo o que eu sou capaz de fazer e capaz de afirmar reflete o meu universo e não tem aplicação a outros universos. Eu apenas posso dar o meu testemunho para que os outros universos possam perceber as possibilidades que existem. Apenas isso. Eu construo a minha verdade, assim como cada um constrói a sua.

De Deuses e anjos

As grandes dificuldades, as provações são etapas da vida que cada um supera de uma forma peculiar. Dizem alguns que é pela força da vontade, outros que devemos recorrer a Deus, Jesus, a santos ou a outras entidades espirituais, pois será a fé nestas forças superiores que nos fará superar os momentos de crise.
Fala-se do anjo da guarda. Anjos é um tema atual e os livros dedicados ao assunto são best sellers. Eles, os anjos, têm nomes complicados que lhes dão um charme especial.
De acordo com a sabedoria esotérica, o anjo da guarda não é uma entidade espiritual superior. Ele é o <i>símbolo do conjunto de nossas boas ações, daquilo que de positivo e construtivo fizemos na nossa vida. Esse conjunto personifica-se numa poderosa força interna, capaz de intervir no sentido protetor quando solicitada.</i> Esta força que faz superar as dificuldades da vida não vem de fora, não é uma ajuda de uma entidade superior, esta força está dentro de cada ser humano.
Nós temos o poder, mas o transferimos para símbolos (cruz, estrela, etc.), objetos (estátuas, pés de coelho, etc.) imagens (fotos, pinturas, etc.) e entidades criadas por nós mesmos e que denominamos superiores (anjos, santos, deuses e demônios). Todos estes seres mágicos e infinitamente poderosos e os seus mundos fantásticos (céu e inferno) não estão além das nuvens e das estrelas, eles estão dentro do próprio homem. Nós temos o poder, mas o transferimos também para mestres, gurus e autoridades. Na verdade, nós continuamos titulares do poder, mas achamos que os outros é que estão promovendo os milagres que, na verdade, são nossos.
A fé que nós projetamos no objeto produz os mesmos resultados, mas ao invés de creditarmos o benefício a ele, devemos creditá-lo a nós mesmos, o que faz uma significativa diferença, porque deixamos de nos submeter e atribuir poderes a quem não os tem.


Direito à individualidade
O respeito à individualidade é um valor ético nem sempre compreendido e praticado, principalmente porque, a vontade de poder controlar a vida do seu semelhante é inerente à natureza humana.
O direito à igualdade, embora na prática, seja apenas um ideal, é uma das maiores conquistas da nossa civilização. Este direito, entretanto, que pretende proteger os mais fracos, nega, de certa forma, o direito à individualidade, ou seja, à diferença.
Só podemos dizer que os indivíduos são iguais na medida em que êles são amplamente inconscientes, isto é, inconscientes de suas diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais acentuada se torna sua diferença com relação a outros indivíduos e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum.
As diferenças individuais que se revelam pelo desenvolvimento da consciência não são compreendidas pelo homem comum. A diferença de níveis de consciência dificulta a comunicação. A pessoa, ao adotar valores éticos, em substituição às normas morais vigentes do seu grupo social, torna-se diferente e portanto, passa a ser tratada com preconceito e é marginalizada. Na verdade, para a maioria, a fim de que um ponto de vista seja válido, precisa colher o maior número possível de aplausos, independentemente dos argumentos apresentados em seu favor.
Verdadeiro e válido é aquilo em que a maioria crê, pois confirma a igualdade de todos. Mas para uma consciência diferenciada já não é mais de todo evidente que sua própria concepção se aplique aos outros, e vice-versa.
Saber-se igual aos outros dá segurança psicológica, fortalece o ego, aumenta a auto-estima. O uniforme que a criança usa desde o Jardim de Infância nada mais é do que a obsessão, muitas vêzes inconsciente, de pais e mestres em impor uma igualdade que não existe no ser humano. É com base na igualdade que é identificado o ser humano normal. Ser normal é talvez a coisa mais útil e conveniente com que podemos sonhar; mas a noção de ser humano normal, tal como o conceito de adaptação, implica limitar-se à média. ... Ser normal é o ideal dos que não têm êxito, de todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de adaptação. Mas para as pessoas dotadas de capacidade acima da média, que não encontram qualquer dificuldade em alcançar êxitos e em realizar a sua quota-parte de trabalho no mundo, para estas pessoas a compulsão moral a não serem nada senão normais significa o leito de Procusto: mortal e insuportavelmente fastidioso, um inferno de esterilidade e de desespero. (C. G. Jung.)
Ser normal é ser igual aos demais. É a confirmação da igualdade. Ser diferente é, portanto, anormal, doentio. O diferente precisa ser tratado para que volte a ser igual aos demais. É assim que o ser humano mediano julga o seu semelhante.
Se o direito à igualdade dentro do grupo social tem os seus méritos, ele também gera preconceitos e discriminação contra o diferente, seja pela condição social, convicções, hábitos, preferências sexuais, etc.
O preconceito, por exemplo, levou o Conselho Federal de Psicologia a adotar punições para os profissionais que tratarem o homossexualismo como doença, ou discriminarem homossexuais. Um grande e extraordinário passo.
O preconceito e a discriminação sempre existiram e vão continuar existindo porque a evolução da consciência é um processo lento.
A preferência sexual que é ditada pela natureza individual e, não é portanto, uma opção - mas mesmo que fosse deveria ser respeitada – tem sido motivo dos maiores preconceitos.
Nesta década, entretanto, temos observado que, com a melhoria dos meios de comunicação, as pessoas têm conseguido unir-se e lutar pelo direito à diferença, pelo respeito à individualidade, afinal essa também é uma luta pelos direitos humanos.
Assim como se lutou arduamente, por séculos, pelo direito à igualdade, deve-se combater, agora, num nível superior, pelo direito à diferença. O mesmo orgulho sadio que ostenta aquele que se identifica como homem de massa, deve poder mostrar aquele que é diferente em sua natureza, em sua individualidade.
O direito à individualidade, à diferença, é de certa forma uma utopia, mas não é proibido sonhar. Afinal sonhar é a única liberdade do ser humano.
O homem inconsciente tem uma compulsão em dominar o outro. Mas toda forma de poder é verdadeira inimiga da ordem. Toda ordem ou imposição contraria aquilo que é, por si só, um elemento intrínseco à natureza humana. Por que dominar o outro? É querer formá-lo à nossa imagem e semelhança.
O sonho e o ideal do homem comum é uma sociedade igualitária. O senso comum é essa força que também chamamos de democracia, regime de governo indispensável para organizar uma sociedade de indivíduos inconscientes.
O sonho daqueles que estão acima da média do nível geral de adaptação, daqueles que têm um maior nível de consciência da realidade, daqueles que não sentem a necessidade de governo político e religioso devem conformar-se em ser apenas diferentes.
Uma sociedade fundada na solidariedade e na liberdade ainda é uma utopia.

Amor homoerótico

A sobrevivência física é a primeira das necessidades básicas e instintivas do ser humano a ser satisfeita, a segunda é a afetiva. Lieben und arbeiten, amar e trabalhar (realização afetiva e material) é a fórmula de bem viver, segundo Sigmund Freud.
A Ciência comprova que as diferenças individuais, físicas e psicológicas, tem origem genética. Embora muito se especule sobre o assunto, desconhecemos a causa da atração amorosa e sexual entre pessoas do mesmo sexo. Por fugir à razão e à lógica, este talvez seja um dos motivos do preconceito. Lidar com a diferença é sempre incômodo, porque ela relativiza nossas certezas e valores, aquilo que entendemos como verdade.
O ser humano não escolhe a natureza do seu temperamento, o seu tipo físico, a cor da sua pele, dos seus cabelos ou dos seus olhos; não escolhe ser mais, ou menos inteligente, nem opta em ser hetero ou homossexual. Algum heterossexual recorda-se do dia em que fez a escolha do seu comportamento sexual? Pode alguém afirmar que sim mas se fizer uma análise profunda verá que seguiu o seu instinto natural. Na sexualidade não há liberdade de escolha. O amor homoerótico pode manifestar-se, inclusive, na idade adulta, na absorção da "sombra”, quando é desenvolvido um aspecto da personalidade que foi reprimido.
O direito à igualdade é um ideal da nossa civilização. Entretanto, o ódio do que é diferente se torna tão mais violento quanto mais se afirma essa idéia de paridade entre os homens. Se o ideal é a igualdade, a diferença passa a ser classificada como anormal, doentia.
Nas últimas décadas surgiu um forte movimento pelo direito à diferença em resposta, principalmente, ao preconceito de cor. No comportamento sexual sedimenta-se o princípio do direito de opção. Se for uma escolha, a razão e a lógica estão satisfeitas, mas continua aberto o campo do preconceito. Se é uma opção, por que não ser heterossexual e assim confirmar a igualdade de todos? É nesse sentido que algumas igrejas evangélicas estão se dedicando a orientar a mudança, entre os seus seguidores, do comportamento homossexual para heterossexual. Isto não é impossível. A pessoa deixa de fazer sexo por amor e prazer, para fazê-lo por obrigação, por um ideal.
O homem procura adaptar a natureza humana a ideais. Criou Deus, o pecado, a culpa e o castigo. Escreve livros e os qualifica como sagrados, reveladores da vontade de Deus, elege-os como autoridades absolutas quando são apenas obras suas. Com base em seus ideais quer modificar a natureza humana. Ora a natureza não pode ser modificada, mas sim polida e desenvolvida. A realização pessoal somente é possível quando há liberdade para se expressar o que se é, com base no respeito mútuo.
O sentimento de culpa para quem teve uma educação baseada nos valores morais e religiosos da nossa civilização cristã é uma realidade. A imensa dor moral por essa anomalia, por esse desvio, por esse comportamento anti-natural leva, muitas vezes, ao suicídio.
Por outro lado, é importante verificar que todos aqueles que agridem física e moralmente, ou matam homossexuais, parecem projetar e reconhecer neles, o seu lado homossexual inconsciente. Parece que querem agredir e matar o homossexual que está dentro deles. Alguém que está seguro da sua sexualidade não irá agredir um outro só porque tem um comportamento diferente.
A atração, o amor homoerótico existe onde há seres humanos, independentemente de profissão, estado civil ou nível social.
Precisamos conhecer e amar, integralmente, a nós mesmos, para podermos amar e respeitar a natureza individual do nosso semelhante. Este também é um ideal, mas um ideal baseado no amor.

Ama a ti mesmo

A tão conhecida frase de Jesus ama o teu próximo como a ti mesmo, base de toda a doutrina das igrejas cristãs, é repetida, automaticamente, como a maior verdade de todos os tempos. A frase parte da premissa de que todo homem ama a si mesmo.
Nós somos um todo, corpo físico, mente e instintos. Quem condena e reprime os instintos que são parte essencial de cada indivíduo, quem se castra física ou psicologicamente, quem proíbe o prazer e a liberdade não ama a si mesmo. Estes, entretanto, são os princípios de todas as religiões.
Se observarmos a moral cristã, perfeitamente identificada por Nietzsche, perceberemos que o cristão não ama a si mesmo. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. Esse ódio de tudo que é humano, de tudo o que é “animal” e mais ainda de tudo o que é “matéria”, esse temor dos sentidos ... esses horror da felicidade e da beleza... tudo isso significa vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida.
No entanto, somente pode questionar a moral cristã ou de qualquer outra religião o sábio, o homem cosmoconsciente. Muitos não sabem o que é liberdade e ainda estão na fase do caçador, e portanto, escravos da ignorância. Nas histórias mitológicas, o caçador refere-se àquele que mata as coisas do mundo; se as mata é porque não as ama; se não as ama é porque não as compreende; se não as compreende é porque está mergulhado na confusão.
O homem inconsciente não conhece a si mesmo, não se compreende e, por isso, não se ama. Exatamente porque não se ama, como poderá amar o outro?
Conhecer a si mesmo, inteiro, corpo, mente e coração significa descobrir este universo extremamente complexo que é o ser humano. Só é possível amar aquilo que se conhece. Amando a si mesmo o ser humano é capaz de viver plenamente em comunhão com o todo, e, amar o próximo (seres humanos, animais, plantas, rios, lagos, oceanos, montanhas, etc.) como a si mesmo.

Revolução

Nada de novo, nenhuma idéia original tem sido apresentada para solucionar os problemas e dificuldades que enfrentamos neste final de século. É a roda do tempo que está girando e tudo se repete. O homem sempre precisa encontrar um inimigo para culpá-lo de todas as suas misérias, tanto do seu grupo social e quanto do seu país. O inimigo comum agora é a globalização. Dizem alguns que todos os problemas do país são causados por este inimigo sem raça, cor, exércitos ou pátria. Na política as perspectivas são sombrias, o nosso sistema está falido mas cabe aos beneficiários, os políticos, que, em sua maioria, legislam em causa própria, a função de promover as mudanças. A falta de empregos, de educação, de saúde e de segurança leva-nos novamente a um inimigo comum, o governo. Mas são as pessoas, através do seu voto, que elegem os seus governantes. Por isso cada povo tem o governo que merece.
A evolução consciente do indivíduo e somente ela, pode promover a verdadeira revolução social. É necessário repetir este slogan infinitamente porque as pessoas ouvem, mas não escutam, vêem, mas não enxergam. Toda civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo criativo. Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou fogo de uma pedra. ... Só o indivíduo pode pensar e, pensando, criar novos valores para o mundo. Só o indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o caminho para as gerações futuras. Sem personalidades decisivas pensando e criando de forma independente, o progresso humano é inconcebível. (Albert Einstein, in “Liberty Magazine/BP Singer Features”, USA,1933).
O nosso inimigo somos nós mesmos incapazes de ver que todos os problemas sociais, políticos e econômicos são a projeção do nosso mundo interior caótico, dominado pelo egoísmo. A transformação pessoal começa pela Educação. Educação integral incluindo, principalmente, os valores humanos e éticos. A nossa educação pública e particular, com as exceções de sempre, está direcionada para formar especialistas, máquinas humanas, robôs a serem colocados em linhas de produção. O homem está deixando de ser humano para ser uma máquina. Educação integral que ensine a criança a pensar ( e não o que pensar), a desenvolver as suas próprias potencialidades, a ser um indivíduo, um cidadão. Esta é uma tarefa gigantesca para a qual temos que despertar individualmente. Não esperemos que as elites que detém o poder irão promover mudanças. Deixemos de culpar os outros pelas nossas desgraças e estaremos começando uma verdadeira revolução.

Incertezas

Há momentos na vida em que somos agentes conscientes, e há aqueles em que as coisas simplesmente acontecem, sem que tenhamos qualquer controle sobre elas.
Entregue tudo nas mãos de Deus, mas aja como se tudo dependesse de você não é apenas uma frase de efeito, mas resume uma sabedoria que transcende as nossas convicções ou valores comuns. Podemos substituir a palavra Deus por Sorte, Azar, Destino ou Karma, mas o que observamos é que nas leis da vida não há certezas, não há lógica, não há leis fixas e imutáveis, somente fatos; o que sabemos é que o somatório de determinadas condições faz acontecer, mas quase nunca sabemos as causas que as determinam.
Somos movidos pela vontade de poder que se manifesta como característica individual. Em verdade, não sabemos até que ponto vai o nosso poder mas, penso eu, nós o exercemos de acordo com o nosso caráter que pode ser conceituado como o conjunto de disposições congênitas que formam o esqueleto mental de um ser humano.
A afirmação de que somos capazes de realizar os nossos sonhos é relativa, porque há sonhos que representam reais potencialidades individuais e outros que são apenas ilusões.
Observamos que a vida é movida pela Lei da Incerteza mas o ego busca segurança na certeza de aparência e na fé, que são, tão somente, condicionamentos psicológicos que hipnotizam, incapacitam o ser humano para a percepção de outras realidades, mesmo quando construídas pela aparente harmonia entre razão, coração e experiência.
Acordar é possível porque a insatisfação, como afirma José Saramago, está no coração do próprio Deus. É ela que nos impulsiona, que nos leva a abrir a mente e o coração ao novo, ao diferente, ao desconhecido e, assim, amplia a visão para além do nosso caminho, superando as certezas e a fé, enriquecendo a nossa verdade.

O que é liberdade?

Não tenho ódios porque sou um homem livre. (Carlos Lacerda em pronunciamento na Câmara dos Deputados, em 1957). Será que alguém entendeu o verdadeiro significado da frase daquele que foi um dos maiores tribunos que este país conheceu? O que é Liberdade?
Eu atingi a Libertação, declarou Khrishnamurti, em agosto de 1927. Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará disse Jesus, o Cristo. O que é Liberdade? É a liberdade de ir e vir, de opinião, de pensar, de sentir, de planejar, de desejar, de fazer, do livre-arbítrio, do apego ? O que é Liberdade?
Liberdade é ter o poder absoluto? Se o Rei tem o poder absoluto, ele é totalmente livre? Há algo que condiciona suas escolhas e decisões? O que, ou quem é que governa o Rei? O Rei faz as novas leis, mas as velhas leis fazem o Rei, afirma Dane Rudhyar. As velhas leis são as tradições, os costumes ancestrais, os modelos religiosos e culturais básicos e as imagens primordiais da nação de que ele se originou, como um filho condicionado por treinamento especial para tornar-se Rei - todos estes fatores estruturam a consciência do Rei, e desse modo lhe determinam basicamente, ainda que não exclusivamente (1) os seus atos. Os velhos hábitos tem mais fundamento e poder que o próprio Rei. O que é Liberdade?
Eis-me, pois aqui! É impossível que seja de outra maneira, pois minha consciência moral está presa à palavra de Deus e é perigoso e impossível fazer qualquer coisa contra essa consciência. Não posso, não quero abjurar. Essa teria sido, segundo a tradição, a resposta de Lutero perante o Conselho de Worms (2) .
Sou escravo da minha fé, da minha consciência moral! O que é Liberdade???
Ser livre é saber-se escravo e prisioneiro.
Ser escravo é estar absolutamente sujeito a outrem, é ser dependente sem querer ou poder. Ser prisioneiro é a condição de quem era livre e procura voltar à liberdade.
O espírito é eterno e livre, mas prisioneiro temporário do corpo e, durante a maior parte da vida do ser humano, do eu egoísta. A alma e o corpo são mortais e escravos dos seus condicionamentos, das suas necessidades de sobrevivência, do tempo, espaço e da lei da causalidade.

Condicionamento

Todos nós somos uma máquina de efeitos condicionados. Todos nós temos fé, todos nós temos apegos e cada um tem o cérebro (ou cérebros, como querem alguns) formatado de acordo com a sua herança genética e experiência de vida. A fé num Deus e num Salvador são criações ideais. A fé nos valores morais e religiosos da civilização, transmitida pela tradição, cultura e educação, condiciona o ser humano e dá-lhe segurança psicológica. Este condicionamento, entretanto, torna-o impermeável, fechado, incapaz de perceber e absorver outras realidades.
Mas quem, realmente, compreende essa situação? Quem consegue sair de si mesmo, auto-observar-se de longe e do alto, e perceber que ele é totalmente condicionado? Quem tem consciência de que todas as suas escolhas são condicionadas? Será que tudo aquilo que eu afirmo, escrevo e falo é algo realmente meu, original, ou sou somente um papagaio que vive repetindo tudo o que aprendi pelo exemplo, pela imitação e pela educação? O condicionamento nos dá segurança psicológica, nós precisamos da fé, das nossas certezas, dos nossos certo e errado, sob pena de enlouquecermos. A pessoa comum não tem consciência disto. Ter consciência é saber, é sentir. O conhecimento intelectual só nos dá erudição, não nos dá sabedoria. As pessoas são condicionadas mas pensam que são livres.
A Psicologia e a Psiquiatria tratam da psique, a religião da alma, isto é, da mesma coisa. O ser humano normal é um robô, uma máquina de efeitos condicionados. Quando esta máquina apresenta problemas o psiquiatra dá-lhe alguns lubrificantes, alguns aditivos para consertá-la. O Psicólogo faz uma análise e, a partir daí, auxilia-a a consertar-se a si mesma para voltar a cumprir as suas funções na sociedade de acordo com os valores coletivos por ela estabelecidos. Tanto um, quanto outro, cumprem a função de fazer o robô voltar a funcionar.
As religiões oficiais cumprem o mesmo papel, dando destaque para a vida após a morte. Neste caso o robô, ou melhor, a ovelha do rebanho, precisa ter uma profunda fé na doutrina e nos dogmas da sua religião. Nos casos de crises, em que a ovelha procura fugir do rebanho, sempre haverá outros pastores e rebanhos para acolhê-la.
Assim vive o homem. Magnífica máquina de efeitos condicionados, eficientíssimo robô, até o dia em que começa a despertar, a pensar por si mesmo. Até o dia em que começa a compreender que pode ser livre. Até o dia que percebe que pode dispensar psicólogos, psiquiatras, padres e pastores.
Ter uma profunda compreensão do seu condicionamento torna o homem livre. Livre para olhar para fora de si mesmo, isto é, ultrapassar as muralhas do condicionamento, abrir os olhos para o universo que o cerca. É um renascimento. Significa retirar a venda dos olhos e substituir a fé cega pela fé consciente. Este despertar é o conhecimento de si mesmo, é a resposta para a pergunta quem sou eu.

Quem sabe não perdoa

Perdão é a remissão de uma ofensa, de um pecado. Alguém dá o perdão quando se sentiu ofendido, agredido ou violentado por outrem. Se alguém não se sente agredido não há o que perdoar.
Se alguém chamar outro de feio podem ocorrer três situações: 1) se inconscientemente a imagem que o outro tem de si mesmo se identifica com a palavra, ele vai responder à altura; 2) se a imagem que ele tem de si mesmo é belo a palavra feio não o atinge; 3) se a pessoa o xingar numa língua incompreensível, ele será capaz de sorrir porque não se sentirá ofendido.
A ofensa é um conceito subjetivo. Dar o perdão a uma ofensa ou a um pecado é um ato extremamente egoísta. – EU sou o máximo, você me ofendeu, mas como sou boníssimo, EU vou te perdoar. Mas dar o perdão não irá absolver a pessoa do erro. Porque o erro ou pecado é uma percepção subjetiva. A maioria das pessoas precisa recorrer ao outro, externar o seu arrependimento e depende, portanto, do outro para perdoar-se a si mesma.
Uma pessoa consciente não precisa do perdão, mas de um profundo arrependimento que é uma tomada de consciência, e, portanto, o reconhecimento de um erro e, conseqüentemente, um aprendizado.
Perdão é algo que se dá a si mesmo porque a prática de um erro é fruto da ignorância.
E quando há uma agressão física? As leis do olho por olho, dente por dente e do direito de matar em legítima defesa são promovidas pelo ego. É o ego que tem medo da morte. A agressão física resulta da ignorância do agressor. Que armas usar contra a ignorância da violência? A não-violência, a lei do Amor. Afirma Rohden que há duas formas de acabar com o seu inimigo: matando-o ou amando-o.
Um pessoa que está em outro nível de consciência não se sente agredida seja por um cardo, seja por um animal que ataca instintivamente para se proteger ou para se alimentar, seja por uma pessoa dominada pelas trevas da ignorância.
Quem não se ofende não tem o que perdoar.

O preconceito

Somente há escravos onde há senhores porque é impossível a existência de um sem o outro. Se não houver aquele que se humilha, que é serviçal, que tem o prazer de ser pisado, não haverá o senhor despótico, cruel, dominador.
O homem em geral não simpatiza com o seu diferente. Crime é a agressividade, a violência em nome da diferença. Diferença de raça, cor, religião, país, nação, nível social, econômico, etc. são motivos de preconceito em todos os grupos sociais e em todas as civilizações. O preconceito também existe porque o homem procura um inimigo para culpá-lo das suas dificuldades, e ninguém melhor para representar o inimigo do que o diferente. O respeito pelo nosso semelhante ainda é uma utopia, mas nem porisso devemos deixar de lutar por ela, diuturnamente, com todas as nossas forças.
É uma característica do ser humano não gostar, não simpatizar com a diferença. Simpatizamos com a igualdade. Isto é natural. Faz-se amizade com os semelhantes e não com os diferentes. O preconceito caracteriza-se pelo culto do ódio e da violência contra o diferente. Não simpatizar não significa ter preconceito. Podemos viver em harmonia se tivermos um profundo respeito à individualidade de cada um.


A limitação dos sentidos

Entendo que temos que tomar cuidado com "fatos" que parecem incontestáveis. Os nossos sentidos são limitados e ainda desconhecemos grande parte do funcionamento do nosso cérebro. O Sol, por exemplo, nasce no leste e se põe no oeste. Pelos nossos sentidos é o Sol que gira. Mas acreditamos nos cientistas que afirmam que o movimento giratório é da Terra. Esse simples fato nos mostra como podemos viver iludidos pelos nossos sentidos. Sabemos um pouco da força da mente, conhecemos muito pouco do funcionamento do cérebro. Não podemos esquecer, por exemplo, que a miragem do deserto pode ser fotografada. Então, eu entendo que fatos inexplicáveis devem ser aceitos como "fatos inexplicáveis" porque com o tempo nós teremos explicações científicas para os mesmos. Nem todos, é verdade, pois os que pertencem ao mundo interior somente podem ser explicados pelo autoconhecimento.
A visão ou sonho de um fato futuro é algo totalmente irracional mas acontece.
Há sonhos que são visões do futuro mas, quase sempre, somente iremos identificá-las depois que o fato sonhado acontece. A interpretação dos sonhos é tão complexa que, arrisco-me a afirmar, muitas vezes são apenas jogos da mente sem qualquer significado maior. Não conheço qualquer "vidente" que saiba prever o futuro. Suas "profecias", quando acontecem, estão dentro de probabilidades estatísticas.
As previsões somente assustam aqueles que nelas acreditam. O medo do desconhecido apavora aqueles que têm pouco consciência da realidade em que vivem. Com o conhecimento científico e a ampliação da consciência esse medo desaparece.

Livre arbítrio

Eu entendo que o livre arbítrio é relativo. Pensamos que somos livres porque desconhecemos as causas que movem as nossas ações. Somos livres para escolher superficialidades mas não para determinar o destino das nossas vidas. Cada um desenvolve a sua individualidade de acordo com a sua herança genética que não foi uma escolha sua. Afirmo isto porque entendo que devemos guiar- nos pelo "saber" e não pela crença. Entendo que a vida é o desenvolvimento das potencialidades inerentes a cada indivíduo. Só podemos ser aquilo que já somos e não aquilo que queremos ser; a vida não é um tornar-se, mas, simplesmente, ser.

Consciência

Consciência é um saber em amplitude e profundidade, horizontal e vertical. Eu afirmo que a evolução dos níveis de consciência não acontece por um ato de vontade consciente. Isto é, não é porque "eu quero" tonar-me um ser iluminado que serei iluminado; não é porque eu vou usar a força de vontade em técnicas de meditação, abster-me de prazeres físicos e fazer sacrifícios que irei evoluir espiritualmente. Estou fazendo afirmações que agridem o senso comum e a doutrina das escolas esotéricas e das religiões? Sim, é verdade. O "querer" pertence ao mundo do ego. O ato de vontade aperfeiçoa o ego e promove o egoísmo. O mundo do ego é o mundo do "ter", o do espírito é o "ser" (Jesus: "O meu reino não é deste mundo".) A evolução da consciência está no mundo do "ser", do espírito. Por isso o "abandonar as coisas do mundo" ("dá tudo o que tens aos pobres e segue-me", "possuí como se não possuísseis"). O desapego, entretanto, não desaparece com a doação dos bens materiais porque ele é um sentimento. O desapego não é alcançado por um ato de vontade mas somente por uma tomada de consciência. Tomada de consciência é um "insight", uma "iluminação" que brota espontaneamente do fundo da alma. Não é um querer.

Evolução ética da humanidade

Entretanto, pelo meu ponto de vista não há uma evolução Ética (1) da humanidade. Parece-me que a violência e o egoísmo continuam tão fortes quanto o eram há dois ou cinco milênios. Não podemos afirmar que depois de duas guerras mundiais e genocídios que vimos neste século, matando dezenas de milhões de pessoas, o homem tenha aprendido, isto é, tenha evoluído. As guerras continuam e, principalmente, a violência urbana está cada vez mais assustadora. Se observarmos a história da humanidade perceberemos que os ciclos de paz e guerra se repetem. Por isso, eu entendo, que "realizar o céu na Terra" não será possível em nível coletivo. Eu entendo que não há uma redenção coletiva mas que ela somente acontece individualmente. A "iluminação", ou seja, a tomada de consciência da Verdade é uma experiência individual que não pode ser transferida. É um "insight" que brota do fundo da alma, é algo que simplesmente acontece. Não é um ato de vontade. O céu ou paraíso, e o inferno são percepções pessoais. São sentimentos que independem de como está o coletivo. O país é rico, sem desemprego, com alto nível de vida em todos as áreas, mas as pessoas estão suicidando-se. Por que? Porque felicidade é um sentimento pessoal que está no nível do espírito (alma, psique).

A perfeição do ego

Sobre a vontade, afirmo eu, na mensagem "Eros e Logos": "A subjugação dos instintos é feita pelo eu racional e egoísta canalizando energia instintiva reprimida que irá constituir-se em força de vontade. A vontade de poder atrai naturalmente o ego (2). A luta é basicamente o caminho da vontade. Quanto maior a repressão maior é o ego. Ele quer atingir a perfeição. Quanto mais inatingível o fim, maior perfeição do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto. Conseguir a perfeição do ego é tornar-se o centro do universo."
Sim, instinto e espírito são dois pólos da mesma energia. Na verdade, o ego precisa atingir a perfeição para poder ser perdido. Somente pode-se perder aquilo que se tem. O ego promove o progresso da civilização. Ele precisa tornar-se mestre "no domínio da matéria", para encerrar o segundo ciclo evolutivo. A mudança do ciclo do ego para o ciclo do Amor e da Sabedoria (terceiro ciclo) é promovida pela Lei cósmica. Não é um ato de vontade, um querer, mas uma determinação da Lei. A morte do ego (egoísmo) representa uma crise existencial extremamente dolorosa ("paixão da alma" como a define C. G. Jung).
(1) Uso a palavra Ética para conceituar os valores do espírito que são permanentes: Amor, Liberdade, Harmonia e Sabedoria. Moral são os códigos de valores que mudam de tempo e lugar de acordo com as civilizações, nações e grupos sociais.
(2) Ego é um aspecto da personalidade que Freud chama de superego. O "eu" não será perdido, mas sim o egoísmo. Uso ego porque é a palavra utilizada pelos mestres esotéricos.

Avatares são faróis

Eu entendo que cada Avatar, cada Mestre mostra um caminho que é o seu caminho. Buda, por exemplo, disse que o caminho é a experiência direta; Jesus, ao contrário, disse que o caminho é a fé. Entretanto, se você seguir alguém, você não será você mesmo. Para mim os grandes guias espirituais são faróis na escuridão, são setas nos caminhos para nós caminhantes. Nós temos o potencial, a partícula divina para nos tornarmos mestres iluminados. Nossos caminhos são orientados pelos Guias até que a nossa luz interior, a mônada, se desenvolva. Aí, então, também seremos estrelas com a capacidade de iluminar o nosso próprio caminho e servir de farol para guiar os passos dos nossos irmãos inconscientes.

O universo, o homem e Deus

Dizem que o Universo está em expansão infinita. Na verdade, sabemos que tudo passa, tudo tem início meio e fim, no mundo que somos capazes de observar. Tudo nasce, se desenvolve, atinge a maturidade, declina e morre. O Sol desaparecerá com o seu sistema e a Terra se desintegrará. A Terra já teve outros habitantes que a dominaram durante centenas de milhões de anos e desapareceram tão misteriosamente como surgiram, os dinossauros. O homem de neandertal foi uma espécie que também não sobreviveu, além de muitas outras. O homo sapiens, sapiens é um habitante recente deste Planeta. O desenvolvimento da sua inteligência é algo fantástico. O uso da inteligência e da razão está permitindo a construção de uma civilização inimaginável. O homem também nasce, cresce, atinge a maturidade, envelhece e morre. O homem não é eterno. Mas ele descobriu que a energia é eterna porque ela se transforma, e que ele também é energia. Descobriu pela mecânica quântica, embora os sábios orientais já o houvessem intuído há milênios, que o Universo é um todo, que há uma "alma", um "oceano" que o permeia e se esconde sob as aparências. Esta "alma", este "oceano" é Tao, o Todo, o Uno, O Nada, Puro Nada. Na minha concepção o Uno é Deus. Deus não está separado, fora, em outro mundo, Deus é o Universo, a Lei, o Todo. Eu não sou Deus, mas sou um em Deus. Tudo nasce desse "oceano" e a ele retorna.
O homem sabe, portanto, que ele não é somente um corpo físico que morre, mas sendo também energia (alma, psique, espírito, vida), esta irá sobreviver. O que ele não sabe, mas somente especula, é se a sua memória se perpetuará. Parece haver quase um consenso de que a memória morre com o corpo e a consciência sobrevive. Aqueles, então, que despertaram, atingiram a iluminação, a plena consciência, serão imortais e eternos?. Os demais seres humanos são eternos, mas retornam inconscientes, ao "oceano" cósmico?
Nós conhecemos somente o nosso mundo, mas sabemos que muitos outros mundos há que estão além da percepção dos nossos sentidos. A humanidade "mora" no Planeta Terra. Aqui os seres humanos estão em níveis que vão da inconsciência à plena consciência. Tenho a sensação de que no Planeta Terra sempre foi e sempre será assim. Desconhecemos as outras dimensões do Universo. Especular ou acreditar em seres e mundos fantásticos somente nos desviará do principal: a única realidade é o aqui, agora. Viver este momento é a suprema realização.
O homem é a medida de todas as coisas

Lembrando a famosa frase "o homem é a medida de todas as coisas", ocorre-me que o "eu" sempre é a medida de todas as coisas. Analiso, separo, comparo, julgo o mundo que me cerca de acordo com o meu "eu". Sim, eu sou o centro do universo, não no sentido de ser o dono da verdade ou ser um ego perfeito, mas porque a partir do "eu", percebo o mundo à minha volta. Ver a realidade sem as ilusões da fé e da crença, sem estar seguindo guias ou "autoridades", é ser consciente e livre. Cada ser humano tem o seu caminho particular. Nisto está a beleza e o prazer. Se eu vejo o mundo a partir da consciência egoísta, racional e lógica, eu não vou compreender aquele que a vê a partir do sentimento, da intuição e do saber. Entre estes dois pontos de vista há um abismo embora o segundo compreenda o primeiro.
A verdade está dentro de cada um

Em cada ser humano há uma centelha, uma partícula do Uno, do Todo que interage com Ele. A Verdade está dentro de cada um e não fora. Dizem que lá foi colocada pelos deuses porque seria o último lugar a ser procurado pelo homem. Despertar é lançar luz sobre as trevas do inconsciente, ou, como prefere C. G. Jung, é o processo de transferência de conteúdos do inconsciente para a consciência. Deus, Diabo, céu, inferno e todas as entidades criados pela mente humana estão dentro do homem, porque se lá não estivessem impossível seria criá-los.
Qual é o sentido da vida?

Há uma questão básica a partir da qual desenvolve-se a nossa vida, a compreensão da nossa existência: “Qual é o sentido da vida?” Esta questão fundamental não encontra respostas na Filosofia e na Ciência. As Religiões dizem ter a resposta. Esta, entretanto, baseia-se em crenças e idéias. W. C. Heisenberg afirma: ‘Cada um dá à sua vida o seu próprio sentido, de acordo com o mundo que é capaz de conhecer”. Cada ser humano é um universo que se desenvolve impulsionado por forças instintivas de acordo com um “modelo”, um “esqueleto mental” que faz parte da sua herança genética. A natureza individual dá o sentido, o “rumo” da sua existência. O sentido da vida é viver a sua vida, desenvolvendo potencialidades inatas; viver é experimentar; experimentar é aprender e compreender. Muitos aprendem mas não compreendem e por isto precisam passar por tantas lições quantas forem necessárias à sua compreensão. A compreensão demanda conhecimento teórico sobre as causas e os efeitos da experiência. Não nos iludamos, entretanto, sobre o valor do conhecimento intelectual pois ele somente tem valor quando é aliado à prática.

O meu caminho

É.. o meu caminho e o seu são totalmente diferentes. O meu caminho é o autoconhecimento e o seu é servir. A sua luta é contra o inimigo externo, contra as injustiças, contra o mal... Eu luto contra o inimigo interno, as ilusões. A minha vida se realiza olhando para dentro de mim, a sua se realiza olhando para fora.

Deísmo


Deísmo – sistema dos que, com rejeitar toda espécie de revelação divina, acreditam todavia em “Deus”, mas um “Deus” destituído de atributos morais e intelectuais, e considerado apenas como a força infinita, causa cega de todos os fenômenos do Universo.

Poeta filósofo

Confessava Goethe não possuir um “órgão apropriado para a filosofia”. Mas esse reconhecimento se refere à incapacidade e ao desagrado que ele nutria por reflexões e exposições sistemáticas, abstratas. Goethe é um exemplo de “poeta-filósofo”, cujo pensamento não se expressa em conceitos abstratos, mas em forma imediata, intuitiva, sensorial, reivindicando do leitor uma disposição similar. Pascal (1623-1662), por sua vez afirmou: “aqueles acostumados a julgar pelo sentimento nada entendem das coisas do raciocínio... outros, ao contrário, acostumados a raciocinar por princípios, nada entendem das coisas do sentimento.”
Sem dúvida não são muitos os que tem a capacidade de usar a razão para compreender em profundidade as coisas do coração. Razão e sentimento não se excluem mas se completam quando direcionados para a tomada de consciência, para o “saber”.


Incapaz de pensar

O homem em geral tem uma profunda aversão a conhecer-se a si mesmo. Por que? Eu vejo a questão da seguinte perspectiva:

  1. Quem é escravo, numa cultura escrava, com antepassados escravos, quer ser livre? Incapaz de pensar.

  1. Quem está condicionado, prisioneiro de comportamentos repetitivos, quer ser livre? Incapaz de pensar.

Apego e amor

A palavra apego, no seu sentido popular, é sinônimo de amor. Apego é uma inclinação afetuosa para com uma idéia, um objeto, um animal ou uma pessoa. É a satisfação de uma necessidade instintiva. Sentir-se cheio, saciado, satisfeito é a sensação de preenchimento desse vazio que sempre é temporária, pois como afirma Saramago, a insatisfação reside no coração do próprio Deus.
Caracteriza-se o apego ou amor, pelo controle, posse e domínio daquilo que lhe “pertence”. O ser humano apega-se aos pais, irmãos, família, namorada (o), amigos, cachorro, casa, jóias, carro, dinheiro e poder. Mesmo aquele que pouco tem, gruda-se àquele pouco, seja uma roupa usada, uma faca velha, uma bijuteria barata ou uma imagem de sua devoção. Mas há, também, o apego às suas “verdades”, à sua fé, ao seu Deus. A fé é sentimento, apego, amor.
Dizem os gurus, profetas e avatares que a libertação só é possível com o total desapego. É possível ao ser humano, viver sem apegos, sem amor? É possível amar sem apego? É possível viver “tanquam non”, como se esses objetos de apego não existissem? Não será o desapego somente um ideal ou é possível ao ser humano experimentá-lo?
"Querer é poder" e a "força do pensamento positivo" parecem ser verdades absolutas na nossa cultura. Quando não trazem os resultados esperados fala-se em fatalidade mas não se questionam os princípios.
Mas, individualmente, só uma fatalidade convencerá o homem de que há uma força superior ao seu "pensamento positivo" e ao "querer é poder". Enquanto a vida corre em altos e baixos, dentro de variações estatísticas consideradas normais, em que os fracassos e sucessos são atribuídos à inteligência, à esperteza ou à sorte, por que questionar o tão propalado "poder" do ser humano? É necessário que aconteça uma tragédia pessoal para que o homem perceba que ele não é “Deus”. Só uma "desgraça" pode acordá-lo. Só um acontecimento funesto pode destronar o ego e só ele é capaz de fazer o homem se desapegar das suas riquezas e poderes.
O desapego total, a libertação acontece, sim, mas é um processo lento, uma tomada de consciência que envolve muita dor e sofrimento. Só a dor ensina. Só uma doença incurável com muita dor, que incapacite para atividades laborais, afetivas e sociais, muitas vezes, é capaz de promover a revolução, mudar o enfoque, a visão que a pessoa tem da sua realidade. Só uma tragédia pessoal fará o homem despertar e compreender que "querer é poder" e "pensamento positivo" são verdades egoístas.
Só a revolução na mente do ser humano provocada pelo destino irá libertá-lo. A libertação, portanto, não resulta de um querer, de um ato de vontade do ego; não é alcançada por meio de orações, técnicas de meditação, missas ou cerimônias; não é dando esmolas aos pobres, promovendo o amor egoísta ou altruísta, ou decorando a Bíblia; a libertação acontece àquele que nasce com as qualificações e reúne durante a sua vida as condições para libertar-se.
O amor-apego, posse, domínio e paixão; a crença, a fé em "deuses e astronautas", anjos e santos; o apego às riquezas e ao poder pertencem ao mundo do ego. O desapego total, a libertação do jugo do ego, a ascensão leva ao Amor-alegria-liberdade-harmonia, estado superior de ser. É alcançado um outro nível de consciência em que o homem percebe que o ego alimenta-se de vaidades, de valores passageiros que somente trazem insatisfação e sofrimento. O homem liberta-se ao entregar-se ao fluxo da vida, parar de resistir e de querer traçar o seu próprio destino, deixar-se levar, passivamente ativo.

Autoconhecimento

A auto-observação é a base para o autoconhecimento. Depois de um longo período de tempo de auto-observação, a pessoa começa a perceber a sua diferença com relação aos outros seres humanos. C. G. Jung observou esse fenômeno e escreveu: Só podemos dizer que os indivíduos são iguais na medida em que êles são amplamente inconscientes, isto é, inconscientes de suas diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais acentuada se torna sua diferença com relação a outros indivíduos e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum. Esta visão diferente do seu mundo e da sua realidade cria dificuldades no relacionamento pessoal. Mesmo procurando pensar de acordo com o nível do outro, a realidade às vezes está tão clara que a pessoa não consegue entender porque o outro não a está percebendo. Nestes casos, muitas vezes, a arte e a poesia são os melhores canais de expressão.
As pessoas falam muito de ego e egoísmo mas uma coisa é ter a informação e outra é saber. É impossível transmitir o saber (sapere, o gosto, o sabor, a experiência) e, por isso, há dificuldades de comunicação. É necessário um autoconhecimento profundo para compreender as motivações e ações que movem a personalidade e identificar o id, ego e superego (Freud). De forma resumida: ego para os esotéricos, é o superego de Freud; o id representa as forças instintivas e dentre elas identificamos o espírito; o eu (ego de Freud) representa o centro do campo de consciência, formado pela razão, memória e emoções; o superego (ego dos esotéricos) é formado pelos condicionamentos, pelas máscaras que usamos para viver em sociedade. O eu é naturalmente dominado pelo superego (ego). Afirmamos que perdeu o ego a personalidade em que o eu passa a ser dominado pelas forças do id.
O que é intuição? Segundo C. G. Jung, o processo intuitivo não é uma percepção sensorial nem um pensamento, nem também um sentimento. Intuição é um processo de sentir, ou seja, a percepção das possibilidades inerentes a uma dada situação. A intuição decorre de um processo inconsciente, dado que o seu resultado é uma idéia súbita, a irrupção de um conteúdo inconsciente na consciência. A intuição é, portanto, um processo de percepção, mas, ao contrário da atividade consciente dos sentidos e da introspecção, é uma percepção inconsciente. Intuição é uma percepção cognitiva que comprime anos de experiência e aprendizado num clarão instantâneo. O saber não resulta de um insight, um raio de luz que vem do céu e cai na cabeça do escolhido por Deus. Não é uma iluminação feita uma língua de fogo que vem das alturas e faz a pessoa falar diversas línguas e a conhecer os segredos do universo. O saber resulta de esforços pessoais, estudos, pesquisas e as mais diversas experiências de vidaConhece-te a ti mesmo, verdade desprezada pela nossa civilização ainda é a base para a descoberta dos segredos do Universo.

A vida é um círculo

A vida, quando não interrompida por um acidente de percurso, é um círculo que se inicia no nascimento e se fecha com a morte. Feliz é aquele, diz Goethe, que consegue estabelecer uma ligação entre o fim de sua vida e o começo. O sonho de criança vai realizar-se na idade adulta, para então, o homem voltar a ser adolescente e, no final da vida criança, se o ego não se cristalizar na meia-idade. A criança ainda não desenvolveu o egoísmo, e o ancião o perdeu, se o espírito evoluiu. Fecha-se o círculo quando se reencontram a inocência, a pureza, a naturalidade, a liberdade, a harmonia e o amor. Este homem realizou-se.

A violência

Touradas, torneios crioulos, “farra do boi”, brigas de galo, boxe, assaltos, seqüestros, assassinatos, guerrilhas, guerras religiosas, políticas, econômicas etc., parece que a violência do ser humano não tem fim.
O homem simplesmente está exteriorizando a violência que habita a sua alma. Usa a violência para combater a violência, e, assim vive e assim morre. Há uma lenda no Guias do Velho Testamento, sob o rótulo “Corrupção da Humanidade”, em que se lê a propósito da maldade dos homens: “O Senhor arrependeu-Se de ter criado o homem na Terra, e o Seu coração sofreu amargamente”.
A violência e o ódio, a paz e o amor caminham juntos porque o homem inconsciente divide a realidade entre certo e errado, de acordo com as suas verdades.
Todos querem extirpar a violência que está nas ruas, nas cidades e no campo esquecendo que a origem, a causa da violência que está lá fora é somente o reflexo da violência que está dentro de cada um, e que se manifesta inicialmente, na sua casa, no seu trabalho, no seu clube, contra as pessoas do seu relacionamento. Dar um basta na violência verbal, física e psicológica contra o(a) namorado(a), mulher, marido, pai, mãe, filho, irmão, vizinho, companheiro, amigo é o primeiro passo. O primeiro passo é o mais difícil porque representa a tomada de consciência de que a violência está dentro de nós. Ninguém pode amar o próximo se não ama a si mesmo. Só é possível amar o que se conhece. Conhecer-se a si mesmo para ser capaz de se amar, e então, amar a namorada, os vizinhos, o irmão, plantas, animais, rios, montes, a mãe-Terra, o pai-Sol e a Deus como quer que você o conceba.
A violência quer se esteja lutando contra ou a favor é a mesma. Superar a ignorância - a ilusão – é a base para o reinado do Amor.

Crenças

O debate intelectual é estéril. Não produz frutos. O debate sobre crenças é estéril, pois a sua base é a imaginação. O ser humano continua uma incógnita e por isso apega-se a crenças por mais absurdas que sejam. Alguns canalizam tanta energia na sua crença que a imagem criada torna-se real para aquele que nela acredita. O homem sente grande atração por dogmas e mistérios e, quanto mais irracionais e ilógicos, maior atração eles exercem. A ilusão – maya - e a ignorância – avidya -, segundo os mestres hindus, é a mesma coisa. “Quando dedicamos nossa mente, nossa energia e nossos recursos a acreditar no que não existe, isso parece existir e é “maya”"(1).
A crença cria um apego. Na nossa ignorância, na nossa insegurança, nos “agarramos” à ilusão como uma tábua de salvação. Lutamos com todas as nossas forças contra aquele que nos quer tirá-la, somos capazes de matar, porque sem ela, pensamos: "estamos perdidos".
Mesmo com o desenvolvimento da Ciência, o homem continua apegado às ilusões porque, ou não tem acesso às informações, ou prefere viver na comodidade da ignorância.
O canal de televisão por assinatura, Discovery, está apresentado um documentário sobre as experiências de quase morte, viagem astral, seres de luz, etc. Os cientistas apresentam resultados que desmistificam estas experiências e crenças.
Muitos acreditam na reencarnação e há, inclusive, psicólogos que fazem “terapias de vidas passadas”. Ora se temos uma memória inconsciente, ela pode resultar da herança genética transmitida pelos nossos antepassados, e, neste caso, são experiências vividas pelos ancestrais da pessoa analisada, ou de transmissão de pensamentos, ou quem sabe, nada disso.
Depois de todos os estudos, pesquisas, experiências e crenças, parece que o poeta “Circunda-te de rosas, ama, bebe, E cala. O mais é nada” e o filósofo “Todo o meu saber consiste em saber que nada sei” têm razão.

(1) Swami Ajaya - Vivendo com os Mestres do Himalaia, Ed. Pensamento.
Prisioneiro do medo

O homem é prisioneiro de si mesmo, uma máquina de efeitos condicionados, um robô que cumpre tarefas determinadas pelo seu instinto e pelo código de convivência social.
A capacidade de despertar e libertar-se é uma potencialidade inerente a cada ser humano, mas o desconhecimento e o medo da Lei que move o universo o imobilizam. A forma mais fácil é andar em grupo, seguindo um cincerro, protegendo-se mutuamente, porque, se um cair no abismo, todos cairão juntos. Já é um consolo. É muito mais fácil criar deuses protetores e acreditar neles. É muito mais fácil não pensar e deixar para os outros esta tarefa tão desconfortável. É muito mais cômodo ser prisioneiro, reclamar da prisão e da comida do que serrar grades, pular muros e enfrentar o desconhecido.
Para ser livre é necessário ter a audácia e a coragem de ser si mesmo.
O medo é a base de todos os problemas da existência humana e a ignorância a causa de todos os medos.

Evolução cultural e da consciência

A evolução cultural da humanidade no último século foi algo assombroso se observarmos que o homem levou aproximadamente um milhão de anos entre controlar o fogo e desenvolver uma linguagem. A evolução da consciência, já amplamente aceita antes de Darwin não tem relação, entretanto, com o desenvolvimento cultural. A evolução da consciência é individual, lenta e gradual. O desenvolvimento científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e acabada. A consciência, entretanto, é uma experiência de vida que não pode ser transferida pois, no campo do espírito, o homem não tem a capacidade de ensinar e nem aprender com a experiência dos outros.
Em todos os tempos da história da humanidade encontramos registros de pessoas plenamente conscientes, alguns famosos como Moisés, Lao Tse, Buda, Jesus Cristo, outros nem tanto. Pessoas deste nível de consciência continuam a existir entre nós, entretanto, sempre são exceções na história da humanidade.
Na escala de evolução da consciência do ser humano observamos três estágios característicos e progressivos que num gráfico podem ser representadas por uma linha ascendente:
  1. inconsciência – nível do “caçador”; mata as coisas do mundo porque não as ama; não as ama porque não as compreende; não as compreende porque está mergulhado na confusão; dominado pelos instintos.
  2. consciência egoísta – nível do ego, da razão, do saber intelectual, da religião organizada, da ciência e da tecnologia; dominado pela razão;
  3. consciência cósmica – nível da sabedoria, plena consciência e do Amor; a poesia e a imaginação triunfaram sobre a filosofia e a razão; dominado pelo espírito.

A evolução cultural é promovida pela inteligência e pela vontade de poder; a evolução da consciência tem como causa a lei cósmica de evolução e foge, portanto, ao controle da vontade consciente.

Eros e logos

A evolução do ser humano é individual, ele é um universo único. Ele não nasce uma tabula rasa, uma folha em branco, mas é o produto final de uma linha de produção que começou no início dos tempos. As características físicas com a sua forma peculiar e individual, assim como o seu caráter - o conjunto de disposições congênitas que formam o esqueleto mental – representam um resultado aleatório, imprevisível, que tem como causa a sua herança genética. O homem é, física e mentalmente, o efeito, o resultado final de uma causa gerada por todos os seus antepassados. No seu inconsciente está guardado o espírito da raça, da cultura e da tradição, a memória das experiências de vida dos seus ancestrais.
A busca de Deus e da Verdade é o caminho da descoberta de si mesmo. Muitos nada buscam porque pensam que os encontraram ou porque não sentem essa angústia, essa necessidade interior que leva o homem a se perguntar “quem sou, de onde vim e para onde vou”. A minha angústia não surge de um desejo consciente ou de uma vontade especulativa, mas de uma ansiedade que se instalou na alma e para a qual a razão não tem respostas. Ela, portanto, tem uma causa irracional, instintiva e inconsciente.
A civilização desenvolve-se na permanente subjugação dos instintos regidos pelo princípio do prazer. O homem primitivo, em conflito com o meio natural e humano chega à compreensão de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível. Começa, então, a desenvolver a função da razão: aprende a examinar a realidade, a distinguir entre bom e mau, verdadeiro e falso, útil e prejudicial. Adquire as faculdades de atenção, memória e discernimento; sacrificando a libido direciona esta energia a atividades e expressões socialmente úteis. A felicidade fica subordinada à disciplina da reprodução monogâmica, ao sistema estabelecido de lei e ordem. O homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo, substituindo-o pelo prazer restringido; adiado, muitas vezes pela religião, para uma vida futura depois da morte.
A civilização e a religião são produtos da razão, baseados na repressão aos instintos e ao princípio do prazer. Nesse desenvolvimento, Logos - a Razão, é elevado à categoria de Deus. A luta interna, que permeia a alma do ser humano, é, portanto, o conflito entre os instintos – Eros (também chamado de Diabo, pelas religiões) e a Razão – Logos (também chamado de Deus).
Para a plena satisfação das suas necessidades instintivas e inconscientes que significam prazer e felicidade, o homem precisa de liberdade. Esta, entretanto, é incompatível com os princípios da civilização.
Os instintos podem ser conceituados como aquelas forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida. Sob o ponto de vista psíquico tanto o animal como o homem estão sob o domínio inconsciente dos instintos. Constituem-se de energia vital e das experiências acumuladas durante todo o processo de evolução.
A subjugação dos instintos é feita pelo eu racional e egoísta canalizando energia instintiva reprimida que irá constituir-se em força de vontade. A vontade de poder atrai naturalmente o ego. A luta é basicamente o caminho da vontade. Quanto maior a repressão maior é o ego. Ele quer atingir a perfeição. Quanto mais inatingível o fim, maior perfeição do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto. Conseguir a perfeição do ego é tornar-se o centro do universo.
O ego ao pensar-se perfeito entra em declínio. Encerra-se um grande ciclo de evolução daquele ser humano que o experimenta. Agora, Eros que foi violentamente reprimido, promoverá uma profunda crise na personalidade. A angústia é o sintoma da força instintiva reprimida que exige liberdade. A conquista da liberdade é um novo ciclo de evolução que exige a crucificação e morte do ego para que nasça a Consciência cósmica. Se a construção da civilização exigiu sacrifícios, a morte do ego é a passagem pelos infernos e a purificação pelo fogo.
O homem primitivo, instintivo, inconsciente e inocente que vivia no paraíso foi despertando aos poucos, iluminado pela razão, abandonando o princípio do prazer, construiu a civilização. Construída a civilização, a força evolutiva leva-o a reintegrar-se, a fazer as pazes consigo mesmo, a conciliar Eros e Logos, promovendo a harmonia e a unidade originais, com uma única e substancial diferença: o nível de consciência. Se primitivamente, morava inconscientemente no paraíso que foi perdido pelo despertar da razão, agora retorna ao paraíso plenamente consciente. É o retorno à casa do Pai.
Todo ser humano tem, potencialmente, os talentos para realizar esta odisséia que se realiza no tempo presente, no aqui e agora, embora digam os avatares que muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.
Livre-arbítrio

O livre arbítrio é um tema polêmico. Na nossa civilização há o endeusamento da razão, do intelecto, do ego e do “querer é poder”.
As igrejas cristãs enfatizam a existência do livre arbítrio porque sem ele não haveria pecado, culpa, castigo e recompensa. O homem teria o livre arbítrio para escolher entre o Bem e o Mal.
Não podemos negar que a nossa vida é feita de escolhas. Mas, “quem” escolhe? Por que eu penso o que penso, por que eu faço o que faço? Quem é o “eu”? Na verdade, eu não escolho, a minha natureza escolhe por mim. Eu não escolhi a minha natureza, o meu tipo físico, intelectual emocional e mental. Por isso o meu livre arbítrio é condicionado. Spinoza tem um pensamento sábio: “Os homens se enganam quando acreditam que são livres; e o motivo desta opinião é que têm consciência de suas ações, porém ignoram as causas que as determinam; por conseguinte o que constitui a própria idéia de liberdade é o fato de desconhecerem a causa de suas ações”. Há um ditado árabe que mostra de forma sutil o nosso livre arbítrio. "Se Alá predestinou alguém a morrer num determinado lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá."
Eu entendo, pelo exposto, que não há o “querer é poder” na forma simplista como é colocada, assim como não há a escolha entre o bem e o mal. A evolução é um processo de aprendizagem empírica. Quando estamos aprendendo ensaiamos, erramos, tornamos a ensaiar até conseguir uma seqüência certa de respostas. Aprendemos pela dor - outra afirmação polêmica, mas a experiência me mostra que é assim.
O nosso intelecto irrequieto quer explicações racionais, lógicas para tudo. Mas a vida não é lógica. Ora a evolução se processa na superação de obstáculos e, para mim, a doença é uma dificuldade, um obstáculo a ser vencido, donde resultará um aprendizado. A morte é um mistério, mas infelizmente, fomos condicionados a pensar que temos o poder de adiá-la e “morrer de velho”. E por causa dessa crença o ego procura culpados.
Concluindo, não quero passar a idéia de passividade perante a vida e culpar o destino por todas as nossas mazelas. Precisamos ser ativos mas também conscientes das leis que movem a vida e que pode traduzir-se numa frase: “Entregue tudo nas mãos de Deus mas aja como se tudo dependesse de você. “
Há uma oração muito sábia utilizada nos grupos de auto-ajuda que vocês devem conhecer: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.”

Aprender a pensar

Somos uma máquina de efeitos condicionados. Como libertar-nos dessa servidão? Questionando tudo e todos. Abandonando todas as nossas crenças, todos os nossos valores morais, espirituais, tudo o que julgamos certo e errado e, tal qual crianças, recomeçando a descobrir a nós mesmos e o mundo que nos cerca. Isto é extremamente difícil porque as nossas crenças e valores nos dão segurança psicológica. Cada pessoa precisa saber que está certa. Esta certeza é que dá segurança, esta certeza é que dá auto-estima.
No nosso condicionamento agimos por imitação, e por isso, a vida, ao invés de ser passa a ter um objetivo: tornar-se. Esta percepção é fundamental e precisa ser sentida. Nascemos geneticamente condicionados e toda a nossa vida é um processo de condicionamento até que começamos a despertar. Levamos 20, 30, 50, 60 anos reforçando o nosso condicionamento, o nosso eu egoísta. O grande problema é que quando despertamos para esse processo queremos revertê-lo mas, na maioria das vezes, essa reversão é um novo condicionamento. Pensamos que nos libertamos mas tão somente mudamos de condicionamento. Pelo autoconhecimento, com a ampliação da consciência, começamos a perceber a amplitude desse condicionamento e tomamos consciência que é impossível descondicionar totalmente essa máquina. Continuamos uma máquina de efeitos condicionados, mas agora conscientes. Agora somos porque sabemos quem somos. O verbo tornar-se deixa de ser conjugado.
Afirma Gurdjieff que "...Por causa dos fatores que operam contra todos nós, o indivíduo pode ter certeza de que seu desenvolvimento interior não será fácil; ao contrario, exigirá grande compreensão e trabalho hábil, e este trabalho só pode ter início quando percebemos a verdade acerca da condição humana". A verdade acerca da condição humana é o verdadeiro autoconhecimento que exige auto-observação. A experiência de vida é fundamental. Quanto mais caminhos trilhamos maior a nossa sapiência. Não basta ficar lendo, estudando e pesquisando. É necessário ir a campo, caminhar, sentir, ver, ouvir, tocar, saborear. A sabedoria tem vida, cor, movimento e imagens de diversos ângulos e dimensões. Olhar para dentro de si mesmo é uma caminhada infinita.
Qualquer livro, qualquer autor, qualquer autoridade deve ser questionada. Precisamos aprender a pensar. Este é um dos grandes desafios: aprender a pensar. “A inteligência se manifesta muito mais pela capacidade de dissociação de idéias do que pela capacidade de associação. É a dissociação intelectual que permite distinguir a realidade da aparência, desfaz confusões e ilumina aspectos ocultos das coisas. A simples associação de idéias é um processo mecânico, ao passo que a dissociação exige muito mais argúcia, poder de observação e senso dos matizes. .. A genialidade consiste em certa maneira muito pessoal e desprogramada de estar no mundo, de avizinhar-se do segredo das coisas e das pessoas.” Concordo que se adote um livro para servir de guia para o desenvolvimento do autoconhecimento. Esse autor, entretanto, precisa ser questionado. É no questionamento que aprendemos a pensar, a ter idéias próprias, a sermos nós mesmos.
É muito mais cômodo não pensar, deixar que os outros pensem e nos apresentem verdades prontas e acabadas. É muito mais cômodo viver numa cela, recebendo a comida dada pelo Senhor do que aventurar-se para além das grades e dos muros da prisão. É muito mais cômodo ser um servo, colocar uma viseira e seguir um guia. É muito mais cômodo.... Mas tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora. De repente, sem avisos, o Destino bate à sua porta. É preciso despertar!

Paz e luz

Paz e luz!”. Bonita mensagem. Ela me faz refletir. “Paz” é o oposto de “guerra”, “luz” de “escuridão”. São pólos opostos de uma mesma realidade. A paz somente é possível depois da guerra e a luz surge da escuridão; só conhecemos a escuridão porque a comparamos com luz; quem só conhece a escuridão ou a luz, não sabe o que é escuridão nem luz. A paz é o período entre guerras. Assim como a guerra, a paz também “cansa” pois o universo está em evolução. Felicidade eterna e sofrimento eterno são ficções criadas pela mente. O desejo humano do descanso eterno... Descansar sim, mas o descanso eterno não existe. Tudo está em constante desenvolvimento, em evolução. Guerra e paz, luz e sombras, prazer e dor, nascer e morrer... A morte é um período de descanso para um novo nascer, a paz para a guerra, a luz para a escuridão. Como não sabemos de onde viemos, também desconhecemos para onde vamos. Esta é a verdade, o restante é especulação. A frase de Sócrates traduz a realidade do ser humano: “Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.” Eu, o meu mundo, o aqui e o agora, esta vida, este momento é a única realidade. Muitos não querem o prazer, a felicidade possível, agora, pensando na felicidade eterna depois de morte. Querem uma compensação eterna por suas dificuldades temporárias. Deixam de realizar-se como seres humanos para esperar recompensas de um ente superior por eles mesmos criado. Vivem da crença em suas fantasias. Isto não é fantástico?

Sexo

Sexo na nossa civilização cristã ocidental está relacionado com sujeira, impureza, bestialidade.
Apesar de toda a liberdade sexual que se propaga, ela certamente, é do mesmo tamanho da liberdade dos nossos antepassados, dependendo do grupo social analisado.
No final do segundo milênio depois de Cristo, o corpo nu de um ser humano ainda é uma agressão a muitas mentes.
Certamente, se os teólogos cristãos tivessem poderes, mudariam a reprodução sexuada, por uma assexuada, mais “pura”, mais “limpa” e, principalmente, bem mais eficiente segundo modelos que já existem há milhões de anos na natureza. Como Deus não erra, certamente o sexo deve ser uma criação do diabo. Por isso ameaçam de danação eterna aquele que não fizer sexo somente para fins de reprodução. Vejam que Jesus, o Seu filho, nasceu – segundo eles - de mulher virgem, concebida por fecundação astral, sem contato físico, bioplasmaticamente. Afina sexo – dizem os teólogos - é um resquício de animalidade de que ainda é portador o ser humano. Esta condenação do sexo manteve e mantém o rebanho na ignorância. Sexo é tabu. Assunto discutido apenas por teólogos que dizem ser os portadores da verdade.
Numa época que se situa milhares de anos antes de Cristo, os hindus perceberam que o ser humano é uma unidade energética que interage com o cosmo. A base dessa energia é sexual. Descobriram, também, que através da relação sexual pode-se chegar à iluminação – Tantra-Yoga.
Energia sexual é energia vital. Quanto maior a energia sexual de uma pessoa, maior é a sua energia vital. Pessoas com grande energia sexual superam a mediocridade tornando-se líderes, santos ou grandes “pecadores’. Polarizada em masculina ou feminina, um homem pode ter energia feminina e uma mulher energia masculina. São os pólos energéticos opostos que se atraem e não os corpos físicos·anatomicamente diferentes. A falta de percepção dessa realidade tem levado a julgamentos equivocados”.
Sabe-se, por experiência direta, sem a necessidade de filósofos, teólogos, psicólogos ou cientistas, que higidez física e mental é efeito, principalmente, de um relacionamento sexual satisfatório e sem culpas. Culpas que são incutidas na alma humana por normas morais e religiosas baseadas na ignorância.
Sexo é energia, sexo é vida. O relacionamento sexual, a troca de energias entre dois corpos e duas almas, é fonte de vida (reprodução), equilíbrio energético e de prazer, uma das necessidades básicas de cada ser humano sadio.

A lei do amor

A Lei que move o Cosmo é a da mais absoluta justiça. No nível em que se move o ser humano, a vida é uma experiência contínua regida pela lei de causa e efeito, semelhante à lei mecânica de Newton que estabelece: “toda a ação desencadeia uma reação igual e oposta”.
A vontade do homem, movida pelo desejo, é a causa que eventualmente dará frutos: os efeitos. Os acontecimentos da nossa vida são efeitos das escolhas que fizemos no passado e as opções do tempo presente determinam o futuro. Se analisarmos a nossa vida em profundidade, verificaremos que raramente agimos de forma consciente, isto é, sabendo o efeito das nossas ações. Consciente ou inconscientemente, colhemos o que semeamos, pois a Lei não concede ao homem o benefício da ignorância. Somente é possível aprender pelo próprio erro e não pelo erro dos outros. Toda ação tem efeitos imediatos e futuros e, uma vez desencadeada, o agente sofrerá os efeitos. Nem sempre temos consciência desse resultado e, muitas vezes, atribuímos a outros a culpa dos nossos fracassos. Entretanto, iremos ensaiando, entre o prazer e a dor, tantas vezes quantas forem necessárias ao aprendizado. Cada um, individualmente, paga pelo que faz; cada um, individualmente, colhe o que semeia. O arrependimento e o perdão não alteram os ditames da Lei.
O homem vive na escuridão da inconsciência. Como livrar-se dos desejos? Como libertar-se da lei de causa e efeito? Afastando-se do convívio social, enclausurando-se num mosteiro? vivendo num local ermo, meditando numa gruta ou debaixo de uma árvore? Como agir corretamente para não acumular débitos perante a Lei? Quem abandona o mundo está fugindo da realidade. Abandonar o mundo não é a solução pois o aprendizado somente é possível na convivência com o outro e nas oportunidades que o mundo oferece. A opção é abandonar todas as teorias, credos e idéias alheias. Lutar para vencer o estado hipnótico e de ilusões em que se vive, e, aos poucos, perceber que a lei de causa e efeito rege a consciência egoísta e dual. É necessário despertar para perceber que há uma Lei superior à Lei de causa e efeito: a Lei do Amor. Não o amor paixão, apego, domínio e posse, mas o Amor alegria, liberdade e harmonia: sentimento de união com o Todo.
O mundo está dentro de nós. Analisamos o mundo de acordo com a consciência que temos dele. Estamos condicionados a ver o mundo dividido entre Bem e Mal, certo e errado, belo e feio, etc. pois o nosso intelecto analisa, divide e separa as coisas. Por isso nos posicionamos no lado “certo” e lutamos contra o lado “errado”. Esta luta produz sofrimento. A Lei do Amor está em outro nível de consciência pois supera as diferenças e unifica o que o intelecto separa. Por exemplo, há duas formas de acabar com o inimigo: matando-o ( “olho por olho, dente por dente”- agindo de acordo com a lei da causalidade) ou amando-o (lei do Amor). São níveis de consciência, “pontos de vista” de quem está na planície ou está no alto da montanha: há aquele que somente consegue enxergar as partes e há aquele que consegue ver o todo.
Pelo exposto, verificamos que todos estão sujeitos à mesma lei e à mais absoluta justiça. A diferença consiste em:
  1. dividir a realidade, tomar partido e lutar contra o lado oposto, sujeitando-nos à lei de causa e efeito;
  2. perceber a unidade do cosmo. Esta compreensão nos levará a amar as diversidades que compõem o todo; amar o inimigo e “apresentar a outra face” para aquele que nos feriu. Conseqüentemente, não havendo uma ação “contra”, não haverá “reação igual e oposta” e assim superamos a lei da causalidade.
O tempo é uma idéia. Ele também está ligado à lei da causalidade. Pelos sentidos temos a percepção da duração (tempo) e da dimensão (espaço) e só temos noção de "causa e efeito" porque acontecem no tempo e espaço. Observemos a ênfase que é dada pelas doutrinas orientais no "aqui e agora". O universo é um "agora" em evolução. É difícil para o intelecto compreender o "aqui e agora" desvinculado do passado e futuro porque ele está condicionado. Podemos afirmar, então, que o tempo é um condicionamento da mente. Com a ampliação da consciência começamos a perceber "o eterno tempo presente": no meu mundo, o passado é "presente" e o futuro são possibilidades do "presente". O "eterno tempo presente" está no "sentir" e não no "pensar". A Lei do Amor acontece no aqui e agora.
Ver o mundo como um todo e agir de acordo com a Lei do Amor significa ser um agente ativo, acompanhando a lei da evolução. Há aqueles que se isolam pensando em neutralizar as leis da vida esquecendo-se que, pela lei da evolução, não agir no momento oportuno, cria um débito com a Lei. Como agir corretamente, na hora certa, empregando os meios adequados, sem agir "contra", e ativar a lei da casualidade? Fazer o bem sem olhar a quem, é agir corretamente? Depende, pois até nas ações mais simples e, racionalmente corretas, escondem-se segredos. A legião de egos que habitam a nossa alma nos levam, muitas vezes, a agir com a melhor das intenções mas, por ignorância, obtendo efeito contrário. O faminto precisar aprender a "pescar", isto é, evoluir. Como irá fazê-lo se o seu semelhante satisfaz as suas necessidades? Como irá evoluir se, sentado na calçada, pedindo e recolhendo esmolas suprirá as suas necessidades básicas? Quem dá a esmola, por acaso, não estará agindo contra a lei da evolução?
A sabedoria é um longo caminho, um longo aprendizado. Agir corretamente é extremamente complexo. Tanto a ação "contra" quanto a não-ação no momento certo, criam débitos com a Lei. Como saberemos dos meios e do momento adequados? Diz a sabedoria que tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora.
Como sabê-lo ? Quem sabe o que é Amor? Pensamos que o intelecto, a inteligência e a razão, nos dão as respostas. Se a razão nos desse as respostas não haveria egoísmo, violência, pobreza e riqueza. A resposta não encontra-se na razão, ela está no coração. Descubra-a!

A busca da verdade

A busca da verdade é uma caminhada infinita. Muitos nada buscam porque pensam que a encontraram ou porque não sentem essa angústia, essa necessidade interior que leva o homem a se perguntar “quem sou, de onde vim e para onde vou”. A minha angústia não surge de um desejo consciente ou de uma vontade especulativa, mas de uma crise existencial que não tem uma causa aparente. É uma ansiedade que se instalou na alma (psique) para a qual o intelecto não tem respostas. Ela, portanto, tem uma causa irracional, instintiva e inconsciente.
O ser humano tem como base de sua segurança psicológica a razão e a fé, através das quais, forma as suas certezas. Mesmo sendo pólos opostos, são complementares pois representam o lado objetivo e o lado subjetivo da mente. A razão, também chamo de consciência, ou seja, a faculdade que o homem tem de saber que sabe. A fé é, igualmente, um sentimento próprio do ser humano. Todos tem fé, pois a não-fé também é uma forma de fé.
A segurança psicológica, portanto, repousa na razão e na fé. As causas instintivas são irracionais. Os instintos podem ser conceituados como aquelas forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida. A educação de um modo geral e a educação religiosa, em particular, condicionam o homem a reprimir os instintos. Eles, entretanto, são mais poderosos do que a razão porque representam as forças da vida e as experiências da raça humana.
A angústia é o sintoma da força instintiva reprimida. O verdadeiro crescimento interior acontece com a liberação progressiva dessa energia. Esta libertação faz-se através da experiência direta, com a mudança de valores e de comportamento individuais. A força instintiva acompanha a lei cósmica da evolução.
A busca da verdade é, neste caso, uma necessidade instintiva. Incerta e dolorosa porque coloca em cheque todas as nossas verdades e certezas. Deste processo de auto-transformação vai nascer um novo homem, um homem renascido pelo “espírito” (instinto).
Saber e realidade

O monismo cósmico afirma que o Universo é um Todo, uma Unidade.
O intelecto analisa, separa e divide as coisas em certo e errado, belo e feio, Bem e Mal, quente e frio (ver o texto de Huberto Rohden, encaminhado em 25/02/00) . Entretanto, o “quente” somente é percebido quando comparado com “frio”, o “Mal” com o “Bem”, o “belo” com o “feio” porque eles não existem por si mesmos. Um somente existe em função do outro. Deus e o Diabo fazem parte dessa concepção, dessa compreensão dual do Universo. Esta percepção está relacionada com um nível de consciência. Na evolução da consciência o homem, aos poucos, passa a perceber que essa dualidade é uma ilusão da mente.
O que eu estou afirmando não é uma teoria, mas um “saber”. Há uma diferença substancial entre o saber teórico e o empírico. Exemplos: 1. se você é ou foi um militar disciplinado, você “sabe” o que é uma “ordem”. “Cumprir uma ordem” faz parte da sua experiência de vida como militar. Aquele que não foi, nem é militar pode ter a experiência em outras áreas, mas ele não “sabe” o que significa cumprir uma “ordem” no regime militar. 2. Aquele motorista que estudou todas as leis e regras de trânsito pode tirar uma nota dez em conhecimentos teóricos mas é incapaz de dirigir um carro no trânsito de uma cidade. O motorista teórico será um “desastre”. Ele vai “saber” dirigir depois de muita prática. 3. O homem pode ter todas as informações sobre uma gravidez, mas nunca “saberá” o que é estar grávida porque esta experiência é uma exclusividade da mulher.
O “saber” está em outro nível de consciência, ele é um “sentir”, um saborear (“sapere”).
Para quem “sabe”, o mundo real é o mundo individual, subjetivo, formado pela experiência de vida, pela consciência. Cada um vive no “seu” mundo. O mundo objetivo é relativo. “Inclino-me a dizer – afirma W. C. Heisenberg (Prêmio Nobel de Física de 1932 e um dos fundadores da mecânica quântica) – que a ciência da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por conseguinte, nós mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela”. Isto é, há uma inter-relação entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo em que o observador faz parte essencial do fenômeno observado.
Há diferenças entre o sábio e o erudito: o sábio vê o mundo com os seus olhos, o erudito com os olhos dos outros; o sábio vive de acordo com as suas idéias, o erudito de acordo com idéias alheias; o sábio vive só, o erudito em rebanho; o sábio despertou, o erudito continua dormindo.
Sobre Tomás de Aquino, dizia o Padre Antônio Vieira, no Sermão da Sexta-feira da Quaresma, de 1662, em plena Capela Real, numa velada crítica ao Doutor Angélico: "porque até entre os anjos pode haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas as contrárias". Este Sermão é todo vazado em termos de aprovação da verdade, e contrário ao culto da autoridade, não importando quem fala, mas a verdade do que é dito. E no Sermão de São Pedro, de 1644, adverte: "Ora, desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores".(Cobra, Rubem Q. - Vieira. Página de Filosofia Moderna, Geocities, Internet, 1997.
www.geocities.com/Athens/7880/rc-vieira.html)
Há um abismo entre aquele que “pensa” e aquele que “sente” o mundo. O mundo das idéias, das palavras e o mundo do sentimento, do coração estão em campos opostos, mas são complementares. Em termos de valor, observe, mais vale um olhar, um sorriso, um abraço (um sentimento) do que mil palavras.

O Cristo


É necessário separar Cristo, de Jesus. São duas palavras com significados totalmente diferentes. Jesus foi o nome de uma pessoa, filho bastardo de um oficial romano com Maria e morreu crucificado em Jerusalém segundo os registros do Templo. (Se este Jesus histórico foi um Cristo, não se sabe.) Na verdade o Novo Testamento é um “arranjo” que inclui a Bíblia, doutrinas esotéricas, mitologia e filosofia gregas.
Cristo é a "monada", a "luz interior", a "centelha divina", a “semente de Deus” de que todo ser humano é portador. Com o desenvolvimento dessa "luz" nasce o "Cristo". Por isto diz-se: Jesus, o Cristo!
Todas as religiões podem ser chamadas de "cristãs" porque foram seres iluminados que lançaram as mensagens que foram deturpadas pelos homens ditos religiosos ou seja, sacerdotes que organizaram igrejas.

Ser iluminado

O ser é "iluminado" pela sua "luz" interior, isto é, ele toma consciência de que há algo maior do que o "eu". Esta é a "iluminação". Mas ele não é um iluminador. Ele pode servir como um farol de orientação para aqueles que buscam a verdade. A "transcendência" é uma experiência pessoal que não pode ser ensinada. Ninguém pode iluminar o caminho de outro, mas tão somente, dar indicações, porque cada caminho é individual e a "iluminação" acontece durante a caminhada.

Consciência

A vida é um imenso quebra-cabeças cujas peças, aos poucos, são colocadas no seu devido lugar. Quem as coloca não sei, mas eu sei que não sou eu.
Homo sapiens, sapiens”. O homem sábio, consciente. Este está no vértice da pirâmide humana. Na inconsciência, a base da pirâmide, está o grosso da humanidade. Consciência não é algo que pode ser obtido pelo poder da vontade ou pelo conhecimento intelectual. O desenvolvimento da consciência humana está dentro do processo de evolução da vida no cosmo.
Cientistas dizem que “assim como tivemos a revolução de Galileu há quatrocentos anos, talvez precisemos agora de uma nova revolução comparável, para produzir uma ciência do subjetivo, do único e individual, e uma ciência da consciência”(Oliver Sacks). A consciência, entretanto, não pode ser medida, comprovada e testada porque é um sentimento.
Consciência é o conhecimento de si mesmo. Só compreenderemos o outro e o mundo que nos cerca quando conhecermos a nós mesmos. O homem consciente sabe que não pode julgar seu semelhante. Cada pessoa é um universo individual complexo e diferente de qualquer outro ser humano. Decorre daí que o verdadeiro “amor ao próximo” é o respeito à sua individualidade.
A prática sexual é uma obsessão das religiões ditas cristãs. São incapazes de ver o ser humano na sua total individualidade que necessita expressar-se com liberdade.
A inconsciência leva à necessidade de seguir guias, autoridades, livros “sagrados”, e a formar rebanhos; a inconsciência faz o homem querer tornar igual o que é desigual em sua natureza.
Já disse alguém que “estamos estruturados espiritualmente pela nossa sexualidade”. O que sabem os “seguidores” de espírito e de sexo? Numa demonstração de inconsciência só sabem repetir o que está escrito em seus livros e o que dizem as suas autoridades.

Pensar e sentir o mundo

É muito mais fácil, para o ser humano, avaliar os outros, o mundo que o cerca, externo, objetivo e as suas qualidades, do que a si mesmo. O "eu" é um perfeito juiz dos outros e, quase sempre, somente deles. Autoconhecimento é um processo raro e, geralmente, superficial. O homem projeta nos outros aquilo que ele é, mas dificilmente identifica como seu, o conteúdo projetado.
Cada pessoa, na verdade, tem uma forma peculiar de perceber a realidade, que passa a ser a "sua" verdade. O condicionamento cultural nos leva a pensar que somos iguais. Quanto mais inconscientes, mais essa ilusão de igualdade se impõe. E por força dessa inconsciência, o homem cria leis para definir o que é "ser normal". A Educação, a Psicologia, muitas vezes, e a Religião, quase sempre, são os agentes da sociedade que procuram promover a igualdade do que, na sua natureza, é desigual.
Essa desigualdade já está presente na formação da consciência. Há duas formas gerais e inatas de perceber a realidade e que mudam de graus de acordo com cada indivíduo: "pensar" e "sentir" o mundo.
"Pensar o mundo" é vê-lo através da razão, da lógica e da coerência. É uma forma abstrata composta por idéias e conceitos objetivos. As experiências de vida são orientadas pelos fenômenos objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais.
"Sentir o mundo" é recolher os fatos apenas como evidência para suas próprias hipóteses e não em benefício dos próprios fatos. O modelo vem de dentro, da experiência de vida, da intuição (inconsciente) e é, portanto, puramente subjetivo. Predomina a profundidade em detrimento da amplitude.
Em sua maioria, os filósofos e os cientistas "pensam" o mundo, os poetas e os artistas "sentem" o mundo.
Entre o "puro pensar" e o "puro sentir" há um abismo quase intransponível: a razão não compreende o sentimento e este, não compreende a razão. No desenvolvimento da consciência o "pensar" alia-se ao "sentir" para formar o "saber". Entretanto, só o sentimento é capaz de promover essa união.
Finalizo com três pensamentos:
" Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela." Fernando Pessoa.
" ... só a arte, no que diz respeito à manifestação das essências, é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na vida." Gilles Deleuze.
"O racionalismo puro é estéril, o irracionalismo simples é regressivo. O pensamento surge no "entre"". Peter Sloterdijk.

Faça o que você pensa!

O que é melhor, e o que é pior? O que é Justiça, Bem, Belo? O que é Liberdade? O que é ilusão e o que é realidade?
O pensamento desvinculado da ação não tem valor. Não é importante o que você pensa. Importa o que você faz. Faça o que você pensa, faça o que você sente. Mas, faça! Não foram os filósofos, os sábios, os iluminados, os avatares que transformaram o mundo, mas aqueles homens que tiveram a coragem de agir. É a ação que faz o mundo evoluir.
São os “bons”, os “certos”, os acomodados, os portadores de verdades prontas e acabadas que constróem muralhas mentais para proteger-se da renovação. Preferem o mal velho, testado e vivido, à experiência inovadora. Eles tem medo. Medo de descobrir que o seu deus tem pés de barro.
Todo dia é um novo dia

Todo dia é um dia histórico. Todo dia é um dia diferente. Todo dia é um novo dia.
A sensação de uma nova chegada.
Assim como todos os dias, todas as chegadas são diferentes. Nunca volta-se ao mesmo lugar. Impossível. O ar já não é o mesmo, o chão já não é o mesmo, as árvores já não são as mesmas, o mar já não é o mesmo, a praia já não é a mesma, o sol já não é o mesmo, e, principalmente, eu já não sou o mesmo.
Esta sensação da diferença... Foi outra pessoa que passou por aqui, dezenas, centenas, talvez milhares de vezes, e cada vez que passava ela pensava que era a mesma. Mas não era. Sinto isso agora ao ver toda a minha “caminhada” desde o nascimento. Sim, é interessante. Sinto-me hoje (o “hoje” não é o “dia de hoje”, mas algo maior ou talvez menor, é um tempo com medição indefinida) como se o tempo não existisse, sinto-me como uma existência que começou há muitos anos e que voltou ao seu ponto de origem. Vejo o meu nascimento físico como o ponto de partido para realizar uma grande tarefa: descobrir o mundo e a mim mesmo. Caminhando inconsciente, sendo levado, conduzido, pensando que eu me conduzia. Um grande aventura em que pensava ser agente ativo. A minha natureza me indicava os caminhos a serem seguidos e eu os seguia, muitas vezes errando, mas aprendendo; aprendendo com muita dificuldade, é verdade.
Parece-me que o círculo da minha vida se fechou e que cheguei a um novo ponto de partida, num outro nível dentro do círculo. Estou um pouco assustado, com um pouco de medo também, porque há a sensação de morte. Algo morreu dentro de mim e algo está nascendo. Estranha, muito estranha essa sensação. Não é de dor, não é de tristeza, de melancolia, mas também não o é de euforia. É de uma expectativa serena. Vejo o “filme” da minha vida, todas as máscaras, todos os nicknames, cada um representando aspectos diferentes do mesmo eu. Todas as máscaras e apelidos serviram para externar muitos egos que, aos poucos, foram abandonados. Eram somente camuflagens do verdadeiro eu. Eram apegos a valores - no seu sentido mais amplo. Desapegar-se é tornar-se liberto. O desapego é a verdadeira liberdade, o verdadeiro encontro consigo mesmo. Ele só pode acontecer ao conhecer-se a si mesmo, e perceber que, “ser” é o que importa e não “tornar-se”.
Esta é a minha experiência, a minha história, a minha vida... Muitos caminhantes cruzaram o meu caminho. Às vezes caminhamos juntos para aprender e transferir algum aprendizado, mais tempo, menos tempo, ou apenas um olhar, um contato rápido, mas esta foi a jornada que concluí. Com muitos continuarei caminhando, com muitos outros cruzarei, mas agora com outros olhos, com outra percepção, mais consciente, mais eu.

As máscaras


Eu sempre fui o que sou. Eu não mudei, minhas máscaras, estou descobrindo; as muitas máscaras de que a natureza me dotou para viver neste mundo. Elas nasceram comigo, eu somente aprendi a usá-las. Até à exaustão. E, então, por uma necessidade interior, elas vão sendo identificadas. Elas fazem parte de mim, da minha natureza, e, somente posso identificá-las na solidão, na auto-observação.
Perante o mundo preciso continuar usando as principais, aquelas que me fazem parecer igual aos demais. Mas é um uso forçado, elas me sufocam, angustiam, deprimem. Mas arrancá-las seria como, arrancar a própria face.
Por isso gosto de pessoas que ainda estão aprendendo a usá-las, os jovens anjos idealistas. Entristece-me vê-los amadurecendo, identificando-se com as suas máscaras.

Somos bestas metidas a deuses

A existência é a realidade percebida pelos nossos limitados sentidos. Através deles percebemos como se nasce, se vive, se morre; como vive e se transforma o nosso mundo e o nosso universo. Tudo tem início, meio e fim. Toda vida é o desenvolvimento de uma semente que em si contém todo o código do ser que lhe deu origem. A semente não perpetua a espécie, mas somente transmite o potencial que poderá sobreviver sob determinadas condições. Se estas se alterarem e ela não tiver capacidade de se adaptar será o seu fim. Nesse desenvolvimento novas formas de vida surgirão que também terão o seu ciclo. O planeta Terra com todos os seus habitantes, o Sol, a Galáxia e o Universo tem nascimento, desenvolvimento e morte. Mais alguns bilhões de anos e a Terra se transformará num deserto árido e sem vida; bilhões de anos esfriarão o Sol, o deus do nosso Planeta; outros trilhões ou mais acabarão com o universo, porque tudo o que tem começo tem fim.
Tudo o que nos é permitido perceber e compreender é a nossa limitação e a finitude da nossa existência. Criamos céus e infernos onde queremos perpetuar a nossa existência. Somos bestas metidas a deuses. Ou será que não?
Feliz existência, enquanto ela durar!

Infinito vazio

O processo do renascimento, do vir-a-ser, da individuação, da auto-transformação, é uma mudança acompanhada pela dor do desmantelamento da máquina de efeitos condicionados a que o homem está reduzido, a reprogramação desse robô em que está transformado.
Neste despertar, entretanto, a força do eu egoísta substitui a programação por outra de igual valor. A tradição, a fé, os valores morais, as verdades e as certezas do homem-máquina são substituídas por novas certezas e verdades de tal forma que a dor dessa transformação passa a ser percebida como um verdadeiro despertar. Esta mudança, entretanto, significa tão somente a troca de Senhores pois a escravidão continua. Um condicionamento é substituído por outro. Ele deixa de seguir o rebanho de um Pastor, para seguir o rebanho dos homens diferentes que conseguem encontrar valores comuns em muitas autoridades, e por isto, podem afirmar que seguem nenhuma autoridade em particular. Ele pensa e propaga que é livre! O eu egoísta está cada vez mais forte e autodenomina-se de eu-superior, eu-verdadeiro, mônada, o verdadeiro filho de Deus. O apego às suas certezas e verdades é total, pois antes ele estava errado, agora está certo. O homem diz que despertou, mas em verdade, continua andando em círculos, permanece uma máquina de efeitos condicionados, um robô, prisioneiro e escravo do seu eu egoísta
É necessária muita dor - a paixão da alma - para despertá-lo desse círculo vicioso.
Quando o homem percebe que os seus valores atuais, os seus modelos, a reconstrução sobre os escombros dos valores renegados do passado e a experiência de todas as alternativas se mostram vãs, inúteis e insatisfatórias; quando o eu egoísta torna-se um saco sem fundo, um buraco negro onde tudo o que é absorvido desaparece; quando o homem toma consciência de que tudo passa, de que não há certezas nem verdades, ele dá um grande passo: compreende que a vacuidade, o vazio é o verdadeiro estado do Ser.
No vazio desaparece o apego por falta de algo a que se apegar, desaparece o medo porque não há do que se amedrontar.
O vazio, o vácuo, a fonte do profundo silêncio, onde palpita o Espírito Universal, morada do Belo, da Arte e do Amor.

Despertando

Lembre-se que aquilo que você escreve está endereçado a você mesmo. Todas as suas opiniões revelam o que você é. Quando você julga, você pensa que está julgando o outro, mas você está julgando a si mesmo. Você só pode ver no outro aquilo que você tem dentro de si: “a beleza não está na flor mas naquele que a vê.”
Se você tem o “conhecimento”, você percebe quando o outro também o tem porque há uma identificação.

O Profeta

Neste belo país, deitado eternamente em berço esplêndido, em algumas regiões, "profeta" era chamado o acendedor de lampiões, antes da chegada da luz elétrica. O "profeta" iluminava as trevas da cidade. Este Profeta pretende ajudar a iluminar as trevas das almas de pessoas de boa vontade.
Sei que falo para surdos, tento iluminar caminhos para cegos, mas que posso fazer? Este é meu destino.

Jesus, que Jesus?

Aqui, parece que todos precisam de Jesus, de um Senhor, de um Salvador, de uma "autoridade", de um Ser Superior para seguir, para adorar, para se prostrar, esperando recompensas ou castigos! Raça de escravos imbecis e ignorantes! Quando despertareis?

O que é religião?

Não confundam Religião com igrejas e seitas, com a crença em Deus e Diabo, com a fé num Salvador porque esses seres são criados pela mente do homem que vive nas trevas da ignorância. Um homem pode ser profundamente religioso sem estar filiado a nenhuma religião oficial, a nenhum credo, a nenhuma seita, a nenhuma escola. O significado de "religião" precisa ser desvinculado de sistemas solidários de práticas e crenças que formam uma mesma comunidade moral, para a concepção ampla da busca da transcendência do ser humano, que não precisa estar necessariamente vinculada a um Deus e a um Diabo, mas a uma "divindade" que reside no próprio homem. Ciência e Religião (no sentido da evolução do ser humano para o “divino”) estão interrelacionadas, elas se complementam, porque a Ciência, aos poucos, confirma o saber intuitivo. A Ciência serve de base para que o homem compreenda a si mesmo e o Universo substituindo a fé cega daqueles que vivem na ignorância daquilo que é.

Homens de muita fé, despertai!
O homem somente terá valor quando a sua luz iluminar o seu caminho. Ao invés de ficar repetindo idéias alheias, ele deve procurar as respostas para os mistérios da vida dentro de si mesmo.
Cada ser humano é um universo próprio, individual, interligado ao Todo, ao Uno. Por isso não há seres humanos superiores ou inferiores, mais adiantados ou mais atrasados, em baixo ou em cima. Nós caminhamos juntos, o que nos diferencia é o nosso nível de consciência da realidade. A evolução da consciência é um processo em que a luz interior vai iluminando os labirintos da alma através da experiência direta, da intuição e da erudição. É um despertar progressivo. Isto somente é possível quando abandonamos todas as nossas verdades, certezas e crenças que nos transformaram numa máquina de efeitos condicionados.
A verdadeira autoridade, o verdadeiro mestre está dentro de cada um de nós. Permitamos que ele se manifeste!

Você não escolhe!

Você não escolhe, a sua natureza escolhe por você. A sua natureza é o seu verdadeiro caráter (conjunto de disposições congênitas que formam o esqueleto mental de um homem”(Renné Le Senne). O caráter pode ser comparado a uma máquina de escrever e a personalidade à letra escrita.) Este é o mistério do “quem sou eu?” porque o seu caráter não foi uma escolha sua e ele fará as escolhas por você. Muitas opções, tanto no campo afetivo como profissional, entretanto, são feitas pelo ego dentre ideais coletivos, da tradição e cultura desprezando a sua natureza individual o que ocasiona conflitos internos e crises existenciais.
A sua natureza não vai curvar-se aos seus ideais, aos ideais de sua família ou do seu grupo social. Você precisa ser você mesmo. Viver não é tornar-se algo, mas ser o que se é. Isto não é uma escolha, mas somente a percepção da verdade.

Encontre o seu mestre

Dê-se o direito de dispor de um tempo, diariamente, semanalmente, para estar consigo mesmo. Faça uma reflexão profunda, procure entrar em contato com o mais íntimo do seu ser. Isto levará algum tempo e não será fácil. O ego obstrui esse contato, desvia os seus pensamentos, produz muitas ilusões, mas não desista.. Na parte mais profunda do seu ser mora o seu mestre. Ele não será encontrado através de um ato de vontade, de um querer. Ele se manifestará quando você menos esperar. Será uma luz, uma iluminação, e você o identificará. Mas da mesma forma como ele se manifesta ele desaparece. Depois da primeira experiência você sentirá que não mais está só. Você fez contato com a consciência superior que direciona a sua vida. Mas não se iluda, o ego, o intelecto – “lúcifer”- vão continuar dificultando a sua vida. É a luta entre Lúcifer e Logos. É nessa luta que a consciência se amplia e se ilumina.
Mas, lembre-se sempre, tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora. Não tenha pressa, deixe acontecer.

Re: Você não escolhe

A erudição é indispensável. Na verdade, sempre estamos repetindo o que alguém em algum tempo e lugar falou ou escreveu. Normalmente, citam-se autores não só para dar maior "autoridade" ao que se escreve, mas também, para realçar um ponto de vista divergente ou convergente. O autor, neste caso, é citado porque o exemplo parece ser original e há uma identificação entre ele e este que vos escreve.
Pobres mortais todos somos.

Re: Homens de muita fé, despertai!

Ao aderir a determinada religião, credo, escola, método, sistema, corrente doutrinária ou filosófica o ser humano se limita. Eles são uma camisa-de-força. O ser humano precisa ser livre para seguir seu próprio caminho, determinado pela sua natureza. Ser si mesmo, sem nenhuma concessão. Nisto está a redenção.

Teístas e ateus

Teísta é aquele que crê em Deus; ateu aquele que não crê. Mas quem ou que é Deus? Cada Religião dá uma definição racional, lógica e objetiva mas exige a fé. Por que? Porque Deus não pode ser compreendido pela razão.
Tanto teístas quanto ateus usam estes rótulos que, muitas vezes, nem eles compreendem. Muitos imaginam que o teísta precisa seguir uma religião oficial e o ateu religião alguma. Li uma afirmação típica: “o ateu não crê na imortalidade da alma”. Mas o que é alma? Cada religião também dá uma definição mas exige a fé. Por que? Porque alma, espírito e vida também estão além da compreensão racional.
Ser teísta ou ateu resume-se, então, numa fé cega. Tanto num caso como no outro. Uns têm fé em Deus, outros não têm fé em Deus e sob esses rótulos vivem-se digladiando.
Considerando-se que Deus, a vida e o Universo não podem ser compreendidos pela razão e pela Ciência, precisamos explorar o nosso lado irracional, a outra “dimensão”, o inconsciente. Mas para isto é preciso despertar. As “armas” da razão e da inteligência precisam ficar em segundo plano.
Entretanto, é muito mais fácil e cômodo seguir doutrinas prontas e acabadas ou simplesmente negá-las, não é mesmo? Ir além é o grande desafio.

Re: Teístas e ateus

É necessário observar, para uma melhor compreensão do que exponho, que o teísta e o ateu, com fé ou sem fé, estão no mesmo nível de consciência. Êles não conseguem compreender que pode existir uma realidade além dessa percepção. Êles não conseguem perceber que pode existir uma compreensão, uma consciência que supera o teísmo e o ateísmo, uma saber que não é um credo.

A luz do mundo

O nosso Mestre interior é a “luz do mundo”. Essa “luz” está encoberta pelo nosso egoísmo e pelos nossos condicionamentos. Progressivamente, enquanto o egoísmo e os condicionamentos forem sendo removidos, essa luz vai-se manifestando, aumentando de intensidade e iluminando a nossa consciência. Superaremos a fé ou a não-fé, o teísmo ou o ateísmo, porque compreenderemos, então, aquilo que “é por si”; o Sem-Nome e Sem-Forma; o Indefinível; O Todo em Tudo, mas também, o Absoluto Nada; O Infinito Vazio, A Fonte do Profundo Silêncio.

Florianópolis, Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2000.


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