Há sete anos reuni o que havia escrito em fóruns e fiz este pequeno livro. Não o revisei, pois certamente hoje o meu pensamento evoluiu em alguns aspectos, mas no essencial continua o mesmo.
ESPÍRITO LIVRE
Reflexões
APRESENTAÇÃO
Para
que os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem
chegar ao inferno. Máxima
alquímica Medieval.
Cada
ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver as
suas potencialidades congênitas.
O
homem, entretanto, está jogado no mundo - conjunto de condições
geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa
está imersa - sem que a sua vontade tenha participado disso.
Aos
poucos ele desperta e sente uma necessidade instintiva, que se
apresenta como uma angústia indefinida que o leva a questionar quem
é, de onde vem e para onde vai. Com o decorrer dos anos essa
angústia transforma-se num sofrimento intenso ao qual Carl Gustav
Jung denomina de passio
animi (paixão
da alma). Este despertar é um processo de auto-transformação, de
evolução que leva a um nível superior de consciência.
Darwin
desenvolveu uma teoria científica da evolução biológica. Antes
dele, já era amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que
havia uma evolução da consciência humana. Essa idéia
desenvolveu-se e um dos seus maiores expoentes foi Carl Gustav Jung.
Enquanto aquela pode ser comprovada cientificamente, esta é um
processo subjetivo, é uma experiência, um saber que não pode ser
pesado, medido, testado porque é autoconhecimento. Observa-se que
além da evolução biológica há no homem um processo de evolução
de consciência que não pode ser confundido com erudição que é um
saber essencialmente intelectual.
O
desenvolvimento ou evolução da consciência processa-se a partir da
experiência direta, da observação, do desenvolvimento da
sensibilidade e da intuição.
LIÇÕES
DOS GRANDES SÁBIOS
O
espírito é livre
O
espírito dentro do homem não é escravo de nenhum senhor; nem mesmo
da vida, do amor, nem de nenhum deus invocado pelo eterno desejo
humano de ter um Pai celestial sobre quem lançar o ônus da guia ou
libertação do mundo. O espírito no interior de todo homem é
intrinsecamente livre. Não conhece deterioração. Não conhece dor.
Os fluxos e refluxos de Universos e ciclos se sucedem uns aos outros
ao longo do aro da roda do tempo infindo. Todas as coisas tornam ao
seu ponto de origem. Todos os começos já são mortes dissimuladas.
Mas bem ao centro de todas as experiências humanas está aquela
quietude e aquela paz que se podem sentir onde todo sentimento cessa,
que se podem conhecer na ausência de todo conhecimento. Ser essa
própria quietude e essa paz - é esta a única salvação; esta é a
única liberdade. Busca-a com diligência, incessantemente - porém
... sem pressa, serenamente, sem desejar-lhe os dons. Esforça-te em
buscá-la; até já não haver necessidade de esforço; até já não
haver necessidade alguma; até já não haver nada.
Dane
Rudhyar
Possuí
como se não possuísseis
Sabiamente
falou quem disse que a perfeição não consiste nos verbos, senão
nos advérbios: não em que as nossas obras sejam honestas e boas,
senão em que sejam bem feitas. E para que esta condicional tão
importante se estendesse também às coisas naturais e indiferentes,
inventou o apóstolo S. Paulo um notável advérbio. E qual foi?
Tanquam non, como senão: Ut Qui habent uxores, tanquam non habentes
sint: et qui flent, tanquam non flentes: et qui gaudent, tanquam nan
gaudentes: et qui emunt, tanquam non possidentes: et qui utuntur hoc
mundo, tanquam non utantur. Sois casado? (diz o apóstolo) pois
empregai todo o vosso cuidado em Deus, como se o não fôreis. Tendes
ocasiões de tristezas? pois chorai, como se não choráreis. Não
são de tristeza, senão de gosto? pois alegrai-vos, como se não vos
alegráreis. Comprastes o que havíeis mister, ou desejáveis? pois
possuí-o, como se não possuíreis. Finalmente usais de alguma outra
coisa deste mundo? pois usai dela, como se não usáreis. De sorte
que quanto há, ou pode haver neste mundo, por mais que nos toque no
amor, na utilidade, no gosto, a tudo quer S. Paulo que acrescentemos
um, como se não, tanquam non. Como se não houvera tal coisa, como
se não fora nossa, como se não nos pertencera. E por quê? Vede a
razão: Præterit enim figura hujus mundi . Porque nenhuma coisa
deste mundo pára, ou permanece; todas passam. E como todas passam e
são como se não foram, assim é bem que nós usemos delas, como se
não usáramos: Tanquam non utantur. Por isso a essas mesmas coisas
não lhes chamou o oráculo do terceiro céu coisas, senão
aparências, e ao mundo não lhe chamou mundo, senão figura do
mundo: Præterit enim figura hujus mundi.
Padre
Antônio Vieira
Bhagavad
Gita
Segundo
a concepção cósmica da filosofia oriental, toda a atividade do
homem profano é fundamentalmente trágica, eivada de culpa, ou
karma, porque quem age é o ego, e esse ego é uma ilusão funesta e
tudo que o ego ilusório faz é necessariamente negativo, contaminado
de culpa e maldade.
Se
tal é toda e qualquer atividade do homem profano, então estamos
diante de um dilema inevitável: ou agir e onerar-se de culpa – ou
não agir e assim preservar-se de culpa.
Grande
parte da filosofia oriental optou pela segunda alternativa do dilema:
não agir, entregar-se a uma total inatividade, abismar-se numa
eterna meditação passiva, a fim de não aumentar o débito negativo
do karma.
A
Bhagavad Gita, porém, não recomenda nenhuma dessas duas
alternativas: nem o não-agir e preservar-se de culpa, nem o agir e
cobrir-se de culpa. A Gita descobriu um terceiro caminho: o de agir
sem culpa ou karma.
A
Bhagavad Gita recomenda o caminho do reto-agir, eqüidistante do
falso-agir e do não-agir.
Como
pode o homem agir sem se onerar de culpa?
O
falso-agir é um agir por amor ao ego; mas o reto-agir age por amor
ao Eu, embora através do ego, e assim a sua atividade não é
culpada.
O
reto-agir, por amor ao Eu verdadeiro, não só não cria uma nova
culpabilidade, no presente e no futuro, mas neutraliza também o
karma do falso-agir do passado, libertando assim o homem de todos os
seus débitos.
É
nisto que consiste a suprema sabedoria da Bhagavad Gita. Mas para que
o homem possa agir assim, por amor ao Eu verdadeiro, deve ele
conhecer esse Eu, deve conhecer a verdade sobre si mesmo.
É
o que Krishna explica a seu discípulo Arjuna através dos 18
capítulos que perfazem o diálogo deste poema metafísico;
autoconhecimento para tornar possível a auto-realização pelo
reto-agir.
A
quintessência da Gita é, pois, um convite para o reto-agir, porque
o homem não se realiza nem pelo não-agir, nem pelo falso-agir.
A
alma da Bhagavad Gita é um poema de auto-redenção pela
auto-realização baseada em autoconhecimento.
Homem,
conhece-te a ti mesmo!
Homem,
realiza-te!
Huberto
Rohden
MESTRES
DO HIMALAIA
Solidão
Nunca
estou só. Só está a pessoa que não se adverte da completa
plenitude interior. Quando vos tornardes dependentes de alguma coisa
externa, sem ter consciência da realidade que existe dentro de vós,
por certo estareis só. Toda a busca da iluminação consiste em
procurar no próprio interior, no dar-vos conta de que sois completo
em vós mesmo. Sois perfeito. Não precisais de nenhuma
exterioridade. Aconteça o que acontecer, em qualquer situação,
nunca precisais estar só.
-
Por favor, senhor, posso ver o vosso mestre?
Levei-o
para dentro da caverna, onde meu mestre estava calmamente sentado.
Desejando ser cortês e mostrar seus modos e sua educação
ocidental, disse o príncipe:
-
Senhor, pareceis solitário
-
Sim, porque viestes, conveio meu mestre. Antes da vossa chegada eu
gozava da companhia do meu Amigo interior. Agora que viestes, estou
só.
O
mais elevado de todos os companheirismos, na verdade, é a companhia
do verdadeiro Eu. Os que aprendem a deleitar-se com o verdadeiro Eu
interior nunca estão sós. Quem nos faz solitários? Os que
proclamam conhecer-nos e amar-nos, ou os que amamos, criam solidão e
nos tornam dependentes. Esquecemos o eterno Amigo interior. Quando
aprendemos a conhecer o nosso verdadeiro Eu não dependemos de
exterioridades. A dependência de relações externas é ignorância
que precisa ser dissipada. Relações e vida são sinônimos e
inseparáveis. Os que conhecem o Amigo interior amam a todos e não
são dependentes. Nunca estão sós. A solidão é uma doença. Estar
só e feliz é gozar da constante companhia – da constante
percepção – da Realidade.
Só
a experiência direta é o meio
Um
dia, meu mestre ordenou que me sentasse. E perguntou:
-
És um rapaz ilustrado?
-
Claro que sou ilustrado, repliquei.
-
Que aprendeste e quem te ensinou? Perguntou ele.
-
Explica-mo!
-
Nossa mãe é nossa primeira mestra, depois nosso pai, depois nossos
irmãos e irmãs. Mais tarde aprendemos com os companheiros de
folguedos, com os professores da escola e com os autores de livros.
Seja o que for que tenhas aprendido, não aprendeste uma única coisa
independentemente de outros. Até agora, o que aprendeste foi uma
contribuição de terceiros. E com quem aprenderam êles? Também
aprenderam com outros. No entanto, como resultado de tudo isso,
julgas-te ilustrado. Tenho pena de ti porque nada aprendeste
independentemente. Pelo visto, chegaste à conclusão de que nada
existe no mundo que se pareça com o aprendizado independente. Tuas
idéias são idéias alheias.
-
Esperai um minuto, deixai-me pensar, disse eu.
Era
chocante dar-me conta de que nada do que eu aprendera me pertencia.
Se vos puserdes em meu lugar, é muito provável que experimenteis o
mesmo sentimento. O conhecimento de que dependeis não vos pertence
de modo algum. Eis porque não é satisfatório, por maior que seja a
quantidade dele assimilada por vós. Ainda que tenhais dominado uma
biblioteca inteira, ele nunca vos satisfará.
-
Neste caso, como posso ser iluminado? Perguntei.
-
Fazendo experiências com o conhecimento que
adquiriste de fora, respondeu ele.
Descobre por ti mesmo, com a ajuda da tua experiência direta.
Chegarás, por fim, a uma fase decisiva e proveitosa da tua
experiência direta. Está visto que o conhecimento indireto é
informativo, mas não é satisfatório. Todas as pessoas sábias, no
correr da história, realizaram ingentes esforços para conhecer a
verdade diretamente. Não se satisfaziam com as simples opiniões dos
outros. Não se deixavam amedrontar nem desviar dessa investigação
pelos defensores da ortodoxia e do dogma, que as perseguiam e, às
vezes, executavam porque suas conclusões eram diferentes.
Desde
essa ocasião tenho tentado seguir-lhe o conselho. Descobri que a
experiência direta é a prova final da validade do conhecimento.
Quando se conhece a verdade diretamente, tem-se o melhor tipo de
confirmação. A maioria de vós procura os amigos e expõe o seu
ponto de vista. Está procurando confirmação nas opiniões deles.
Seja o que for que pensais, quereis que outros o confirmem
concordando convosco e digam: “- Sim, o que pensais está certo.”
Mas a opinião de um terceiro não constitui prova da verdade. Quando
conheceis a verdade diretamente, não precisais interrogar os
vizinhos nem o professor. Não precisais procurar a confirmação nos
livros. A verdade espiritual não necessita de uma testemunha
externa. Enquanto duvidardes, a própria dúvida será indicação de
que ainda precisais conhecer. Palmilhai o caminho da experiência
direta até atingir o estado em que tudo é claro, até que todas as
vossas dúvidas estejam esclarecidas. Só a experiência direta tem
acesso à fonte do verdadeiro conhecimento.
O
diabo
O
que chamamos de diabo faz parte de nós. O mito do diabo e do mal nos
é imposto pela nossa ignorância. A mente humana é um grande
prodígio e um grande mágico. Tanto pode assumir a forma de um
demônio quanto a de um ser divino, a qualquer momento que o desejar.
Pode ser um grande inimigo ou um grande amigo nosso, criando o
inferno ou o céu para nós. Há inúmeras tendências ocultas na
mente inconsciente, que precisam ser desveladas, enfrentadas e
transcendidas antes que tencionemos palmilhar o caminho da
iluminação.
Uma
corda no escuro pode ser tomado por uma cobra. Uma miragem à
distância pode ser tomada por água. A falta de luz é a causa
principal dessa visão. O diabo existe? Se há apenas uma existência
onipresente e onisciente, não haverá lugar para a existência do
diabo. Os religiosamente enfermos acreditam na existência do diabo
esquecendo a existência de Deus (o Todo¹). A mente negativa é o
maior demônio que pode residir no interior do ser humano. A
transformação da negatividade conduz a visões positivas ou
angélicas. A própria mente cria o inferno e o céu. O medo do diabo
é uma fobia que precisa ser erradicada da mente humana.
¹
Observação minha.
Swami
Ajaya - “Vivendo com os Mestres do Himalaia”. Ed. Pensamento.
EVOLUÇÃO
DA CONSCIÊNCIA
O
Universo
Mundo
não é somente o conjunto de condições geográficas, históricas,
sociais e econômicas em que cada pessoa está imersa. A Física
Quântica apenas confirma a sabedoria oriental: o homem está
inserido em algo muito maior, ele é filho do universo.
Constituído
de energia em diferentes manifestações, o que existe como real é
condensação de vibrações. A matéria é, portanto, o resfriamento
da energia, enquanto essa é a descontinuidade da matéria.
O
homem é parte do Todo, manifesta-se numa determinada dimensão,
evolui e retorna. O nascimento e a morte não são um início ou um
fim, mas um aparecer e
um desaparecer, num
determinado plano.
O
ser humano não gera vida e, por isso, não tem a capacidade de
tirá-la. Vida e morte, gerar vida e matar, não são atos de poder
ou capacidades individuais, mas manifestações da natureza inerente
ao próprio cosmo - vida original.
Superficialmente
o homem interage com o mundo que está à sua volta, mas está
ligado, umbilicamente, com o espírito da terra, do sol, da galáxia
e do universo. Esta aparente relação superficial é dada pelos
sentidos que são limitados. Esta percepção dá o conhecimento de
verdades parciais, limitadas pelo tempo, espaço e pela lei da
causalidade. Imerso nesse mundo, a causa aparente leva-o, muitas
vezes, a uma visão deformada da realidade. Os sentidos limitam a
percepção mas não a interação que existe com o mundo em que o
homem vive. Até os nossos pensamentos e
atitudes influenciam os outros e, por nossa vez, somos influenciados
pelos incontáveis pensamentos e atitudes dos outros. Então, nossas
mentes não são ilhadas e separadas da maneira que muitas pessoas
modernas gostam de imaginar; são muito mais permeáveis umas às
outras, afirma Rupert Sheldrake. Há uma
estreita relação com o seu semelhante cujo círculo se amplia para
abranger os animais, as plantas, as águas, o solo, enfim, todo o
planeta Terra. O homem está interligado com todos os seres visíveis
e invisíveis, perceptíveis e imperceptíveis, imagináveis e
inimagináveis que vivem neste Planeta. Nós somos parte do espírito
da Terra e através dele nos comunicamos com
o Universo.
A
terra é nossa mãe porque dela nascemos, e o sol o nosso pai porque
ele nos dá a vida.
Caso
perguntem, escreve Goethe, se
me agrada cultuar reverentemente o Cristo, responderei: Sempre!
Curvo-me diante dele, tomando-o pela divina
revelação do princípio de moralidade mais alto. Caso me perguntem
se me agrada cultuar o sol, tornarei a responder: Sempre!
Pois também ele é a revelação da coisa
mais alta e mais poderosa que já foi dada a nós, mortais,
contemplar. Nele eu cultuo a luz e o poder criativo de Deus; apenas
graças a ele podemos viver, avançar, existir, e conosco todas as
plantas e animais.
A
tomada de consciência dessa relação do homem com o seu mundo, com
a terra, com o universo, com o todo, está relacionada com a evolução
de sua própria consciência.
Uma
Unidade, dois mundos, muitas realidades
O
mundo material, objetivo e racional é regido pela lei da
causalidade. Nada acontece sem uma causa correspondente, nenhum
efeito é maior do que a sua causa. Tudo que está sujeito à lei da
causalidade acontece no tempo e no espaço, que não são objetos,
mais sim modos ou atributos de percepção sensitiva e concepção
intelectual. A ciência, a técnica e a arte, isto é, a cultura e a
civilização assentam alicerces na lei da causalidade, que é o
objeto específico da inteligência. Existem, entretanto, fenômenos
de causas desconhecidas e que o homem comum chama de casualidade.
O
mundo que não pode ser explicado pela lei da causalidade nem pelos
sentidos e pelo intelecto é o mundo dos instintos, da emoção, do
sentimento, o reino do eterno, do infinito, do absoluto. Este é o
mundo do Ser.
O
ser humano interage com esses dois mundos.
A
distinção entre dois mundos, segundo Nietzsche apareceu claramente
com Sócrates, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro
e falso, inteligível e sensível, fazendo da vida aquilo que deve
ser julgado, medido, limitado; foi criado o homem
teórico, racional e lógico, separando o
pensamento e a vida. Enquanto em todos os
homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a
consciência uma força crítica e negativa,
em Sócrates o instinto torna-se crítico e a
consciência criadora.
Todos
os fenômenos conhecidos e desconhecidos estão interrelacionados.
Não há dois mundos separados, estanques. Não há um vale
de lágrimas aqui no mundo do ego e um céu
ou inferno em outro mundo, em outra dimensão. O ser humano move-se
dentro de um todo e cabe a cada um, individualmente, tomar
consciência dessa realidade.
Quando
toda a nossa motivação e ação, toda a nossa energia e interesses
estão canalizados para o mundo do ego somos incapazes de perceber o
Todo.
Ao
nos afastarmos do mundo sensível e desenvolvermos apenas o
intelecto, nós nos separamos da Unidade. Ao desenvolvermos somente a
capacidade intelectual nós nos afastamos da nossa essência, nós
nos incapacitamos, nos aleijamos, desenvolvemos apenas uma parte,
deixamos de viver pelas leis da natureza, do nosso mundo interior. O
homem teórico de que
nos fala Nietzsche afastou-se de sua humanidade e, pela inteligência,
criou Deus.
O
homem criou Deus e, agora, busca desesperadamente, provas da sua
existência. Não é fantástico? Tudo é extremamente simples, mas o
homem quer uma explicação lógica, racional, científica!
Desviou-se, separou-se, pela força da vontade, do seu mundo interior
que faz a ligação com o Todo e agora, busca, freneticamente,
respostas racionais para a sua existência. Mas o seu Deus racional,
objetivo não existe porque é uma criação sua, e, portanto, uma
ilusão.
O
homem primitivo vive instintivamente; o homem intelectual vive
racionalmente; o homem superior promove a paz entre os instintos e o
intelecto e, assim, interage com o todo, o eterno e o infinito.
Nestes
dois mundos, entretanto, cada ser humano percebe apenas a face
que está voltada para a sua individualidade. Dentre as infinitas
multiplicidades destes mundos, cada indivíduo cria,
constrói, o seu mundo, a sua verdade, a sua
realidade.
Quem
é Deus?
O
homem moral crê em Deus, o homem cosmoconsciente sabe o que é Deus.
Huberto Rohden
O
filósofo e o cientista procuram Deus através da razão e da lógica,
mas Ele somente é encontrado pela intuição e pelo sentimento. O
Deus dos filósofos não é o Deus da fé: não é Deus;
afirma Blaise Pascal, e continua: o coração
tem razões que a razão desconhece.
É
necessário romper o círculo vicioso da razão, da lógica e
permitir que a intuição e o sentimento abram o caminho para a
descoberta dos mistérios do cosmo.
A
consciência que o homem tem de Deus determina a sua compreensão do
Universo. Para alguns Deus é um ditador
celeste, uma pessoa, que vigia os homens de longe e registra os seus
créditos e débitos, premiando-os ou castigando-os depois da morte,
mandando os bons para um céu eterno e os maus para um inferno
eterno. Para outros Deus é a realidade Una e Única, o grande Uno da
Essência, que sempre de novo se revela através da pluralidade das
existências da criação (monismo cósmico).
(Huberto Rohden.)
Deus
sempre é uma experiência pessoal, isto é, um saber subjetivo,
interno, quer seja um Deus antropomórfico ou um Deus percebido como
o monismo cósmico.
O
conceito de um Deus antropomórfico inclui a presença do Diabo, isto
é, Deus divide com o Diabo os domínios do Universo. É uma visão
dual da realidade. No conceito do monismo cósmico Deus é o Todo, o
Uno, a união dos opostos (complexio
oppositorum).
No
desenvolvimento da consciência, a compreensão de Deus vai-se
modificando de acordo com a sua evolução.
São
as relações de Senhor, Criador e Pai que as religiões formais
afirmam existir entre Deus e os homens. A relação que estas
pessoas, através de suas religiões, têm ou procuram ter com Deus
estabelece-se, então, de acordo com este nível de relação.
Ao
ultrapassar esta etapa da evolução, aos poucos, o homem toma
consciência de que Deus não é um ser externo a ele; ele não é
escravo, nem criatura, nem filho de Deus; ele não é Deus, mas está
n’Ele, formando uma Unidade. O homem é um ponto energético que
vibra dentro da Alma Universal, o Todo, o Inominável, a Fonte do
Profundo Silêncio (Tao). Deus, então, não é mais um ser em que se
acredita, Deus passa a ser um saber.
Lúcifer,
o portador da luz
A
inteligência que formula o pensamento, uma associação dinâmica de
imagens acumuladas, e o raciocínio, uma forma de pensar por meio dos
qual ensaiamos simbolicamente soluções para um ou vários
problemas, ou seja, o intelecto, é representado esotericamente pela
imagem de Lúcifer.
No
sentido etimológico Lúcifer, do latim luci-feros, significa o
portador da luz. Para certas escolas esotéricas, como a teosofia, a
figura de Lúcifer está revestida de complexo e importante conteúdo
simbólico: é ele quem, desobedecendo às ordens de Deus, confere
aos homens o conhecimento, retirando-os assim do estado mítico de
inocência em que viviam (simbologia do Paraíso).
O
primitivo ántropos, ser hominal, não tinha consciência da sua
existência individual. Com a evolução ele passa a homo sapiens e,
mais tarde, homo sapiens, sapiens, isto é, o homem que sabe, que
sabe. Uma longa caminhada, uma longa etapa da evolução. Mas a
evolução é uma pirâmide em cuja base está a grande massa, com
baixo nível de consciência. O grosso da
humanidade, afirma Rohden, é
composta do tipo homo intelligens, ou até do homo sentiens, o homem
sensitivo com um leve verniz de intelectualidade. A sapiência ou
sabedoria, é algo incomensuravelmente superior à simples
inteligência. Esta é analítica, indutiva, silogística – ao
passo que aquela é sintética, dedutiva, panorâmica.
A inteligência se manifesta muito mais pela capacidade de
dissociação de idéias do que pela capacidade de associação. É a
dissociação intelectual que permite distinguir a realidade da
aparência, desfaz confusões e ilumina aspectos ocultos das coisas.
A simples associação de idéias é um processo mecânico, ao passo
que a dissociação exige muito mais argúcia, poder de observação
e senso dos matizes. A genialidade consiste em certa maneira muito
pessoal e desprogramada de estar no mundo,
de avizinhar-se do segredo das coisas e das pessoas.
A
civilização humana é uma criação da inteligência. O progresso
fantástico que o homem conseguiu no mundo material afastou-o do seu
mundo interior, da sua ligação com o todo, o universo, Deus. Por
isso afirmamos que Lúcifer afastou o homem de Deus. Lúcifer -
pensamento, razão, lógica - afastou o homem da vida – instintos,
intuição, sentimento, Deus.
O
homem, pelo intelecto, criou, à sua imagem e semelhança, um Deus
ideal.
Lúcifer,
o intelecto, não é bom nem mau. Cabe ao homem tomar consciência e
direcioná-lo para adorar a Deus, o Todo, e não a si mesmo.
Evolução
cultural e evolução da consciência
No
homem, se por um lado, ele, com a sua inteligência, promove o
progresso científico e tecnológico, por outro, há o
desenvolvimento da consciência. Não há uma relação entre um e
outro pois são processos distintos. O desenvolvimento científico é
racional, lógico, objetivo enquanto o desenvolvimento da consciência
é um processo subjetivo.
Na
evolução cultural, afirma Oliver Sacks,
qualquer coisa que se invente ou aprenda ou descubra, imediatamente
se acumula e é passada adiante, é um poderoso mecanismo cumulativo
que não existe na natureza. Na natureza, quando uma espécie
desenvolve alguma coisa, não pode transferi-la para mais ninguém;
cada espécie é a sua própria entidade singular. Há interação,
mas nunca amalgamação, ao passo que na cultura humana você tem
essa complexa reticulação. Então é por essas duas razões que a
herança cumulativa de conhecimento e tecnologia e sua propriedade
reticular de descoberta e invenção, que a evolução cultural é
tão rápida.
A
evolução da consciência é semelhante à evolução da natureza.
Lenta, gradual e individual. O desenvolvimento científico e
tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é
veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para
toda a humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e
acabada, ao passo que a consciência é um saber que não pode ser
transferido.
De
acordo com Carl Gustav Jung, o desenvolvimento da consciência
acontece quando há o encontro do consciente com o inconsciente.
Este processo é promovido pelo instinto e determinado pelo destino.
O homem natural nem suspeita de sua existência até que um dia se vê
mergulhado nele. Esse impulso em direção a uma consciência
superior e mais ampla tem o objetivo de reconstituir o ser humano na
sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente
e o inconsciente, ou seja, compor aquele homem primordial,
bissexuado, que se basta a si mesmo. A união do consciente ou da
personalidade do eu (masculino ou feminino) com o inconsciente
personificado pela anima (feminino ou masculino) gera uma nova
personalidade que transcende a consciência e por esta razão já não
deve ser definida como eu, mas sim como Si-mesmo (Selbst, Self).
A
integração do si-mesmo é, no fundo, um problema da segunda metade
da vida.
Consciência
é percepção, pensamento, sentimento, vontade e intenção. A
consciência é relativa porque há toda uma escala de intensidade
entre a consciência fragmentada, num nível primitivo e infantil e a
totalidade plenamente integrada num estágio superior e que pode
continuar em expansão.
Há
uma consciência em que predomina o inconsciente, como há uma
consciência em que domina a autoconsciência. Tanto numa quanto
noutra há níveis de intensidade.
A
consciência é formada por idéias fragmentadas que aos poucos
vão-se aglutinando. Não podemos ter compromissos com a verdade de
hoje e com o passado porque cada fração de tempo pode trazer um
novo aprendizado.
Todos
nascemos diferentes física e psicologicamente. Desenvolvemos aos
poucos as nossas capacidades, e na adolescência e juventude já
identificamos as pessoas que têm maior nível de consciência, pois
são os líderes natos. São aqueles que destacam-se por ter uma
visão maior do conjunto.
Alguns,
com o decorrer do tempo, através do seu trabalho, vão ampliando a
consciência e começam a ter um ponto de
vista privilegiado em relação à multidão
que continua na planície. Enquanto o homem de massa não enxerga
muito além do seu próprio nariz e identifica a realidade apenas
com o seu vizinho e as coisas que lhe estão próximas, o outro, por
estar num nível mais elevado, tem uma visão paronâmica.
As
montanhas que cercam a planície são apenas obstáculos
intransponíveis para o homem comum, mas há aqueles que procuram
escalá-las para identificar o que há para além daquela realidade
restrita. Ao escalar a montanha e ultrapassá-la, com muitas
dificuldades e privações, vão descobrindo e explorando novos
mundos e novas realidades inimagináveis para quem ficou na planície.
Ao voltar e contar as boas novas, ele é chamado de louco, um
alienado, porque dizem eles ninguém consegue
ultrapassar estas montanhas; muitos o tentaram e morreram. Isto tudo
que contas é fruto da tua imaginação. Queres ter mais saber do que
os nossos sacerdotes que tem as verdades reveladas por Deus.
Consciência
é perceber e compreender a realidade através da auto-observação.
É escalando a montanha e identificando os mundos que se estendem
para além da visão do homem comum. Ter consciência não é somente
apreciar a paisagem, mas identificar os seus elementos e as suas
funções no conjunto. Perceber que a terra, o homem, rios, árvores,
animais, pássaros, insetos, montanhas, neve, chuva, sol, lua e
estrelas formam um conjunto vivo e interdependente, um Todo. Ter
consciência é observar que há uma harmonia universal e que há
realidades muito além das observadas pelos nossos sentidos, que há
uma alma universal e uma racionalidade até
nos objetos inanimados porque cada coisa tem a sua função no Todo.
Vontade
de chegar
Na
luta entre a multiplicidade de forças de sua natureza animal e
humana armazenados por milhares de gerações, está o instinto e o
espírito, dois pólos opostos mas que em sua essência são faces da
mesma individualidade. O espírito e o instinto são autônomos, cada
um segundo sua natureza e os dois limitam em igual medida o campo de
aplicação da vontade. Cabe ao eu, pela razão e pela experiência
de vida, consciente da lei cósmica da evolução, conciliar os
inconciliáveis porque segundo a doutrina esotérica, tudo é dual;
tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os antagônicos e
os semelhantes são a mesma coisa; os opostos são idênticos em sua
natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as
verdades são semiverdades e todos os paradoxos podem reconciliar-se.
Cada
ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver a sua
natureza. Este desenvolvimento é natural. O que acontece a uma
pessoa é característico dessa pessoa. Uma pessoa representa um
modelo onde todas as peças encaixam umas nas outras. Uma a uma, à
medida que a vida decorre, ocupam o seu lugar, de acordo com um
desígnio predestinado. (Jung.)
Os
buscadores não se satisfazem com a fé cega, a crença religiosa ou
os argumentos da razão, eles precisam ir além. Hermann Hesse, no
seu livro O Lobo da Estepe, faz esse questionamento básico: será
que toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um
aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado
da mãe Natureza, ou
será que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão,
mas o filho de Deus destinado à imortalidade? Porque
o homem - afirma Hesse
- não é uma forma fixa e duradoura; é antes um ensaio e uma
transição, não é outra coisa senão a estreita e perigosa ponte
entre a Natureza e o Espírito. Para o espírito, para Deus, ele é
impulsionado por sua vocação mais íntima. Para a natureza , para a
mãe, ele é atraído pelo mais íntimo desejo. Sua vida oscila
vacilando angustiosamente entre ambos os poderes....O homem não é
uma coisa já criada, mas uma exigência do espírito, uma
possibilidade longínqua, tão desejada quanto temida, e que o
caminho que a isto conduz só vai sendo percorrido em pequenos
impulsos e debaixo de terríveis tormentos e sonhos, precisamente por
aquelas raras individualidades, para as quais hoje se prepara o
patíbulo e amanhã o monumento.
É
pela auto-observação que o homem começa a perceber que há outros
mundos, outras realidade fora das paredes que construiu ao seu redor.
Cada ruído, cada centelha de luz, cada sensação pode conter uma
lição pois as verdades não são reveladas por raios e trovões. É
nas pequenas coisas que se descobre o infinito. O espírito universal
comunica-se conosco, se assim o permitirmos.
A
auto-observação nos torna testemunhas e participantes dos processos
que se desenvolvem em nossa volta. Os mistérios da vida começam a
perder a sua obscuridade para revelarem-se naturais.
Aos
poucos desenvolve-se a intuição, uma idéia súbita, uma percepção
cognitiva que comprime anos de experiência e aprendizado num clarão
instantâneo. Informações conscientes e inconscientes aglutinam-se
para formar uma idéia, um conceito, uma solução para dado
problema.
O
conhecimento está disponível, basta procurá-lo. Nós temos a
capacidade de aprender, isto é, de despertar, de tomar consciência.
Neste processo usamos os ensinamentos de todos os mestres e sábios
que se adaptam à nossa realidade pessoal.
Não
elegemos autoridades, não seguimos pessoas, pois o nosso mestre está
dentro de nós.
Há
aqueles, no entanto, que nada buscam, nada procuram, simplesmente
vivem e não sentem essa pulsão interior incapaz de ser contida.
Entretanto,
afirma a lei cósmica da evolução que tudo tem o seu tempo e cada
coisa a sua hora.
Sim,
o que nos move é a vontade de chegar. Vontade que não sabemos se é
privilégio ou castigo mas que nos arrasta para o infinito
desconhecido.
Ascensão
Quando
a consciência latente tiver se tornado clara e o Eu tiver pleno
conhecimento de si mesmo, o homem terá vencido a morte.
Pietro Ubaldi
A
evolução da consciência do ser humano está inserida no processo
evolutivo do cosmo. São o esforço e o trabalho individuais, através
de atos instintivos e de vontade, num jogo de poder em todos os
níveis e em todas as áreas, numa luta de superação de obstáculos,
que fazem o homem evoluir.
O
homem comum, de massa, é dependente do seu grupo. Ele é em
grande parte, controlado pelas compulsões inconscientes dos
instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções
de massa... e como tal ele depende, para sua energia e mais ainda
para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da
coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada.
(Rudhyar.) A sua vida
está apoiada nos seus amigos, na sua corporação, no seu grupo
social, na nação com que se identifica. Ele não é um in-divíduo,
na verdadeira acepção do termo, ele é ovelha
de um rebanho. Na sua inconsciência acha que
todos os homens são iguais. Os
pontos de apoio de sua personalidade são a fé cega e a segurança
psicológica que o grupo oferece. O homem
massificado não tem valor; é uma simples partícula que perdeu a
sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade,
afirma C. G. Jung.
O
homem-massa é movido pelas paixões, amor e
ódio, como magnificamente Padre Antônio
Vieira sintetiza as paixões humanas. A sua consciência é
fragmentada, é um arquipélago,
na citação de C. G. Jung, pois identifica cada coisa individual e
separadamente, sem perceber o conjunto que, por sua vez, está
inserido no todo. A sua percepção é dual e assume uma postura
unilateral, determinada e dirigida. Num conceito amplo, ele está
mergulhado na confusão porque
não compreende as coisas do mundo. Ele está com uma verdade que se
confunde com a verdade do seu
grupo.
O
homem comum segue um guia, um líder, uma autoridade, um mestre, um
guru, um salvador. A sua religião exige vontade, disciplina, esforço
e sacrifício para atingir a redenção ou a iluminação.
A
energia da vontade, entretanto, é naturalmente utilizada e
direcionada pelo ego para o seu fortalecimento - querer é poder. A
vontade inquebrantável, a disciplina, o esforço e o sacrifício
poderão levar o ego à perfeição, mas não levarão o homem à
iluminação, à Verdade, a Deus. No entanto, somente aquele que
aperfeiçoou o ego pode perdê-lo e assim, encontrar a sua verdade.
Este não será um ato de vontade, mas acontecerá, quando menos
esperar, por força da Lei que move o universo. A força da vontade
passa então para o domínio daquelas forças profundas, naturais e
involuntárias que governam a vida (Nietzsche). Neste processo há a
assimilação da sombra.
A sombra representa,
na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada
indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. ... Em
geral, tomar consciência da sombra
provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os
laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da
consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo
que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que
perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade. ... Pela
assimilação da sombra,
o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da
consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a
psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir
por meio de ficções e ilusões (Jung).
O
processo de assimilação da sombra
promove a ascensão, a
saída do rebanho, a
libertação dos condicionamentos, o início de uma experiência de
vida independente e livre, embora relativa - afinal o homem por mais
independente que seja, é escravo do ar que respira. Ascender
significa elevar-se, aglutinar
as ilhas da
consciência fragmentada para chegar a percepção do todo.
Ao
libertar-se do rebanho o ser humano perceberá que ele é um
universo, e é único. Tomar consciência da sua individualidade é
acentuar a percepção da sua diferença em relação aos outros e
emancipar-se das normas coletivas. As verdades – sempre são
subjetivas - dos grandes profetas, gurus, mestres iluminados e de
qualquer outro ser humano serão adaptados à sua natureza, à sua
individualidade, ao seu tempo e à sua realidade, porque toda verdade
é relativa. Enquanto as ovelhas
são forçadas a se adaptar à doutrina dos seus guias, o homem que
se libertou saberá separar o acessório do principal, as doutrinas
de efeitos efêmeros das verdades fundamentais.
A
Lei que move o universo não pode ser ensinada porque a sabedoria
resulta da experiência direta. A função dos mestres é despertar
as pessoas. As verdades dos grandes mestres representam diretrizes.
Elas servem como sinalizações, são setas
nos caminhos
(Rohden) que cada um deve trilhar individualmente, superando
obstáculos e dificuldades porque os caminhos
são pessoais, não há duas vidas - duas
vias - iguais. Assim
como cada pessoa tem uma reação individual perante os
acontecimentos da vida, cada um tem uma forma de superar as suas
dificuldades. Determinado obstáculo pode ser superado com facilidade
por uns e ser uma barreira quase intransponível para outros. O
mérito, portanto, não reside na superação objetiva mas no esforço
subjetivo. Salvadores somente existem na mente de pessoas
inconscientes.
O
homem que ascendeu está
naquele nível de que nos fala Platão: quem
faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui
para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se
modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de
fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do
termo, corajoso e temperante.
Entretanto,
consciente ou inconscientemente, cada um tem a sua verdade, com a
diferença de que o homem comum apega-se a ela como algo certo e
definitivo e o sábio continua com a mente e o coração abertos ao
novo.
Cosmoconsciência
Cosmovisão
(Weltanschauung) é a compreensão do mundo, pela causa eficiente,
formal e material. Cosmoconsciência é a compreensão do mundo pela
causa final. Nesse sentido, afirma Rohden: “o homem moral crê em
Deus, o homem cosmoconsciente sabe o que é Deus”.
Muitos
ainda se apegam às suas verdades imutáveis, consciências
cristalizadas, petrificadas, e não conseguem perceber que nós
precisamos evoluir junto com o mundo. Porque tudo de significativo
que acontece é incorporado em nós e cresce conosco se mantivermos a
mente e o coração abertos. O nosso mundo interior é infinito e
somente ele é real. Todas as coisas vinculadas ao mundo externo
passam.
Nós,
no nosso mundo interior, em qualquer idade, ainda somos a criança
que quer descobrir o mundo, o adolescente que desperta para uma nova
vida e o jovem idealista que quer mudar o mundo. Por que colocar uma
bíblia debaixo do
braço e pensar que estamos com a verdade? Isto não se refere apenas
aos religiosos mas a qualquer ser humano. O homem sábio, por mais
genial que seja, não é aquele que sabe a Bíblia de cor, ou conhece
todos os ramos da ciência. Sábio é aquele que abre a mente e o
coração e permite que a verdade flua para dentro de si. Não
procure a Verdade, permita que ela o encontre,
diz Rajneesh.
O
homem desde que se conhece como sapiens, sapiens, tem procurado
encontrar respostas para os mistérios que o cercam.
Nós
vivemos numa realidade, num mundo definido, por que não dizer,
criado pelos nossos sentidos. Precisamos aceitar, além das vias
científicas, a existência de outras vias de conhecimento, como a
ampliação da consciência com a absorção de conteúdos
inconscientes e a intuição. O Universo é um todo do qual nós
percebemos somente uma face. Nós não podemos objetivar
completamente os fenômenos, mas apenas falar do “mundo que o homem
é capaz de conhecer”.
Sobre
a fé, é necessário citar um texto atribuído a Buda:
Não
depositem fé em tradições, mesmo que tenham sido aceitas por
longas gerações e em muitos países. Não acreditem em algo só
porque muitos o repetem. Não aceitem uma coisa só por ter sido
afirmada por algum dos sábios antigos, nem com base numa declaração
encontrada nos livros. Jamais acreditem em alguma coisa porque as
probabilidades lhe são favoráveis. Não acreditem no que vocês
mesmos imaginaram, pensando que foram inspirados por um Deus. Não
acreditem em nada simplesmente por ter sido afirmado por mestres ou
sacerdotes. Após examinarem, acreditem naquilo que testaram
pessoalmente e julgaram razoável, que esteja em conformidade com o
seu bem-estar e o dos outros.
A
mecânica quântica, descoberta há um século, ainda não é
compreendida pela maioria dos cientistas, pelo homem religioso, muito
menos pelo homem comum. A sua compreensão promove tamanha revolução
da visão do mundo, que se iguala, se não supera, o que aconteceu na
época em que Galileu afirmou que a Terra não era o centro do
universo.
A
filosofia de Descartes, diz Heisenberg, fazia
clara distinção entre sujeito e objeto. Descartes distingue muito
nitidamente: Deus, eu, o mundo. Pode-se decompor este triângulo, por
assim dizer, em seus três lados. A tarefa do cientista é tratar de
um dos lados: o lado do “mundo objetivo”. E nesse mundo objetivo,
pensava Einstein, tudo deve acontecer segundo um determinado programa
que pode ser expresso matematicamente. Eu, porém, pertencia a uma
geração mais jovem, e desde o início participei das dores de
parto, por assim dizer, da teoria dos “quanta”; percebi que a
antiga distinção simplesmente não era possível, ainda que o
quiséssemos. Por isso inclino-me a dizer a que a ciência da
natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte
do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também
uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por
conseguinte, nós mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela.
Deus,
eu, o mundo
é um todo; a causa e o efeito estão interrelacionados.
Devemos
ser capazes de assumir a posição do observador, estar fora,
separados, olhar de longe e do alto, perceber e sentir as coisas
passar; não estar vinculados, apegados, entranhados a nenhuma coisa
do mundo; ser essa consciência de desapego, esse estar no mundo, sem
ser do mundo; sentir essa realidade desligada do egoísmo do eu; ser
o espírito que contempla tudo o que existe, tanquam
non, como se não existisse. Esta consciência
redireciona as nossas motivações e ações. O nosso pensar e agir
passa a ser determinado pela visão panorâmica do espírito, a
cosmoconsciência.
Vidas
passadas
O ser
humano não nasce uma tabula rasa, uma folha em branco, ele é o
produto final de uma linha de produção que começou no início dos
tempos. As características físicas com a sua forma peculiar e
individual, assim como o seu caráter - o conjunto de disposições
congênitas que formam o esqueleto mental de um homem – representam
um resultado aleatório, imprevisível, que tem como causa a sua
herança genética. O homem é, física e mentalmente, o efeito, o
resultado final de uma causa gerada por todos os seus antepassados.
No seu inconsciente está guardado o espírito da raça, da cultura e
da tradição, a memória das experiências de vida dos seus
ancestrais. Nessa memória inconsciente parecem estar as “vidas
passadas”.
Na multiplicidade de personalidades que essa herança gerou e gera, há a possibilidade de nascer um ser com um potencial para tornar-se plenamente consciente, como também, um gênio. Essa possibilidade é, estatisticamente, um fato raro, assim como é raro que essa potencialidade consiga manifestar-se plenamente. Isto é, na nossa humanidade há as exceções. São exceções não porque se esforçaram ou fizeram sacrifícios, mas porque nasceram com potencialidades incomuns e conseguiram desenvolvê-las. Outros, dependendo de inúmeros fatores não o conseguem. Tem sido chamada de centelha divina ou mônada, afirma Rudhyar, mas talvez seja mais sábio concebê-la como uma semente de Deus, da qual pode se desenvolver uma planta de substância e poder espirituais se for plantada em solo fértil, na estação oportuna e sob condições climáticas adequadas. O solo fértil é a hereditariedade e o ambiente da pessoa real. A estação e o clima oportunos referem-se às condições sociais e cósmicas sob as quais o ser real vive nesta Terra. Mas, como nos ensina Jesus na parábola evangélica, muitas sementes não chegam a alcançar o estágio de plantas plenamente amadurecidas. (Tríptico Astrológico – Dane Rudhyar – Ed. Pensamento – São Paulo, 1995). O destino ou karma é uma herança, uma potencialidade a ser desenvolvida através de escolhas - ações ou omissões - desencadeadas por desejos conscientes e inconscientes. O livre-arbítrio, portanto, está limitado àquilo que somos.
As nossas ações ou omissões devem guiar-se, não só pela razão, mas também pela voz interior do sentimento e da intuição. Desenvolver-se significa evoluir e, neste processo de aprendizagem, as derrotas muitas vêzes são mais importantes do que as vitórias. Como já disse alguém, as derrotas ensinam, as vitórias embriagam. As “vidas passadas”, memória inconsciente transmitida pelos nossos ancestrais, são as linhas mestras da nossa vida. Descobri-las pelo autoconhecimento e guiar-se por elas, significa evoluir conscientemente.
Na multiplicidade de personalidades que essa herança gerou e gera, há a possibilidade de nascer um ser com um potencial para tornar-se plenamente consciente, como também, um gênio. Essa possibilidade é, estatisticamente, um fato raro, assim como é raro que essa potencialidade consiga manifestar-se plenamente. Isto é, na nossa humanidade há as exceções. São exceções não porque se esforçaram ou fizeram sacrifícios, mas porque nasceram com potencialidades incomuns e conseguiram desenvolvê-las. Outros, dependendo de inúmeros fatores não o conseguem. Tem sido chamada de centelha divina ou mônada, afirma Rudhyar, mas talvez seja mais sábio concebê-la como uma semente de Deus, da qual pode se desenvolver uma planta de substância e poder espirituais se for plantada em solo fértil, na estação oportuna e sob condições climáticas adequadas. O solo fértil é a hereditariedade e o ambiente da pessoa real. A estação e o clima oportunos referem-se às condições sociais e cósmicas sob as quais o ser real vive nesta Terra. Mas, como nos ensina Jesus na parábola evangélica, muitas sementes não chegam a alcançar o estágio de plantas plenamente amadurecidas. (Tríptico Astrológico – Dane Rudhyar – Ed. Pensamento – São Paulo, 1995). O destino ou karma é uma herança, uma potencialidade a ser desenvolvida através de escolhas - ações ou omissões - desencadeadas por desejos conscientes e inconscientes. O livre-arbítrio, portanto, está limitado àquilo que somos.
As nossas ações ou omissões devem guiar-se, não só pela razão, mas também pela voz interior do sentimento e da intuição. Desenvolver-se significa evoluir e, neste processo de aprendizagem, as derrotas muitas vêzes são mais importantes do que as vitórias. Como já disse alguém, as derrotas ensinam, as vitórias embriagam. As “vidas passadas”, memória inconsciente transmitida pelos nossos ancestrais, são as linhas mestras da nossa vida. Descobri-las pelo autoconhecimento e guiar-se por elas, significa evoluir conscientemente.
Destino
e livre-arbítrio
A
realidade tem múltiplas faces das quais observamos uma, duas ou
pouco mais, cada um na sua perspectiva, cada um no seu próprio ponto
de vista, dependendo de suas experiências de vida. A grande maioria
está na planície e apenas consegue ver o que se passa em sua volta;
outros subiram a colina e têm uma visão mais ampla; alguns galgaram
a montanha e descortinam uma vista panorâmica.
Muitos
da planície estão satisfeitos e nada buscam, ou contentam-se em
acreditar nas informações dos que subiram a colina e a montanha;
muitos dos que estão na colina, e mesmo alguns que subiram a
montanha se satisfazem com as suas descobertas. Há, entretanto,
aqueles que estão a olhar para o alto; não se satisfazem com as
verdades daqueles que dizem que “viram”, buscam êles mesmos
descobrir os segredos da colina e da montanha, onde sempre haverá
picos mais altos a serem explorados.
Cada
um está certo a seu modo, cada um tem a sua verdade: o que está na
planície, o que está na colina, aquele que subiu a montanha e
aquele que continua na sua jornada. Enquanto há aqueles que nada
buscam, aqueles que se satisfazem pela fé, há aqueles que olham
para cima, aqueles que anseiam sempre o mais alto, aqueles cuja força
instintiva para evoluir não tem limites.
O
caráter, conjunto de características congênitas, determina o
destino de cada ser humano. Este conjunto representa as forças
instintivas da raça, dos valores coletivos - tradição, cultura e
religião - do seu grupo social, da nação e da humanidade. O homem
não nasce livre. Ele nasce condicionado e a sua liberdade consiste
em agir nos limites desse condicionamento. Aqui reside uma grande
dificuldade do ser humano: perceber que todos estão condicionados,
cada um a seu modo, e que o seu desenvolvimento, a sua evolução
dá-se, necessariamente, de acordo com o seu caráter.
O
descondicionamento total é impossível. O saber liberta o homem, não
do seu condicionamento, mas da ignorância. Ser livre é saber-se
escravo da sua humanidade.
Nós
nascemos com uma estrutura psíquica, mental e emocional, própria e
individual. Por isso o livre-arbítrio é agir em conformidade com o
nosso modelo básico e assim sermos livres. Somos livres de
selecionar e de escolher até os limites do nosso entendimento. É o
ato voluntário em que o indivíduo tem consciência dos meios e das
finalidades de sua conduta, isto é, o indivíduo procura atingir um
objetivo por ele mesmo proposto, tendo consciência dessa tentativa.
Não existe, para o ser humano, a liberdade total, absoluta. Se
conceituarmos livre-arbítrio com estas características, então ele
não existe. Depois
de escolhido, o homem deve aceitar as conseqüências da sua escolha
e continuar a partir dela. Somos, portanto, pelo livre-arbítrio,
prisioneiros das nossas escolhas passadas e dos nossos desejos. Que
paradoxo: usamos a liberdade para nos aprisionarmos. Como pode uma
pessoa libertar-se das cadeias forjadas pelo passado a fim de poder
outra vez ser livre? Esta liberdade é o objetivo máximo de todas as
vias de libertação e técnicas de auto-realização.
O
karma pode ser anulado pelo reto-agir, pelo amor.
A
idéia de karma (ação e reação, causa e efeito) é evidentemente
inseparável da teoria (lei) da reencarnação. Eu entendo, no
entanto, que karma e reencarnação são metáforas ou símbolos de
um processo cósmico muito mais sutil do que dá a entender a
concepção popular destes termos.
Coerência
e experiência direta
As
pessoas comuns tem uma coerência própria, tem compromissos com as
suas idéias e valores o que as coloca numa determinada vertente
dentro do seu grupo social.
Fazer
parte de um grupo é da natureza do ser humano. Participar de um
grupo, seja político (esquerda, centro, direita, etc.), religioso (
católico, protestante, adventista, agnóstico, etc.) ou não gera
segurança individual e coletiva. O grupo, de certa forma, quer
demonstrar que é possível igualar desiguais a partir de uma idéia,
de um ideal.. A coerência é neste caso um valor fundamental. O que
é coerência? É adotar determinada postura dentro do seu grupo e
manter-se fiel a estes princípios até a morte. Esta coerência gera
segurança a si mesmo, ao seu grupo e à sociedade. Qualquer dúvida
será solucionada pelo grupo ou seu líder. Viver em grupo e ter alma
de grupo. Poucos conseguem imaginar que possa ser diferente. A pessoa
não é um indivíduo na verdadeira acepção da palavra. Mas há
momentos em que ela precisa ser ela mesma, afinal a sua natureza é
diferente, totalmente diferente de qualquer outra pessoa. Então qual
é a saída? Usar uma máscara perante o grupo para fugir do seu
controle. Ser ela mesma é uma necessidade de liberdade que muda de
pessoa para pessoa, porque afinal, todos são diferentes. Ser livre
tem o seu preço e é um preço muito alto. Alguns decidem pagá-lo
outros não. Tudo isso, no entanto, decorre de acordo com a natureza
de cada pessoa. Alguém pode ser um intelectual e ter pesquisado e
estudado Psicologia, Filosofia, Religião e outras ciências afins e
ser um mestre insuperável em sua área e ampliou a sua consciência.
Entretanto somente a vivência, a auto-observação, o
auto-conhecimento é que vai dar aquela profundidade que está ligada
à experiência de vida. É a diferença daquela pessoa que conhece
todas as regras de trânsito, todas as técnicas de como dirigir um
automóvel, como engatar uma marcha, como acelerar aos poucos
enquanto tira o pé da embreagem mas nunca dirigiu um carro na vida,
daquele que, com o seu carro, enfrenta o trânsito diariamente. Todo
o cabedal de conhecimentos nada vale sem a experiência.
Visão
dual
A
visão dual divide, separa e identifica as partes como se elas fossem
entidades próprias, autônomas e existissem por si mesmas.
Identificamos o mundo que nos cerca pelos seus opostos: bem e mal,
certo e errado, noite e dia, etc. Nós somos metade homem, metade
mulher, parte consciente, outra inconsciente, razão e instintos. Um
ser
– segundo Jung - é
totalmente inconcebível sem uma polaridade, porque, de outro modo,
seria impossível estabelecer sua existência.
A
percepção de que a unidade, o universo, o todo é a união dos
opostos somente vai acontecer quando tomarmos consciência de que as
partes são faces da mesma moeda, são dois aspectos da mesma
realidade. Mas para compreender que tudo
é dual; tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os
antagônicos e os semelhantes são a mesma coisa; os opostos são
idênticos em sua natureza, mas diferentes em grau; os extremos se
tocam; todas as verdades são semiverdades e todos os paradoxos podem
reconciliar-se,
segundo a sabedoria esotérica, precisamos ampliar a nossa
consciência
Superação
Superar
é ultrapassar uma dificuldade, um problema, um obstáculo. A melhor
forma de fazê-lo não é combater e vencer, mas compreender. A luta
e a violência levam à repressão e à desarmonia. A compreensão
leva ao amor. Não devemos lutar contra nós mesmos, contra os nossos
instintos, contra o prazer sensual, mas procurar conhecer a nós
mesmos, tentar compreender a energia que nos move, que nos direciona.
A
vida não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser
vivido. A nossa mente quer identificar as causas que geram as nossas
angústias e dores. Nunca as encontraremos porque a vida não é
racional. Viver é aceitar tudo, totalmente; é entregar-se de corpo
e alma ao prazer e à dor; é viver tudo com tanta intensidade que
nada sobre para ser vivido.
O
ser humano se apega, cria dependências emocionais, e culpa o outro
pela sua infelicidade. A mente dual sempre procura uma causa porque
ainda é incapaz de perceber o todo, compreender que todas as coisas
no universo estão interrelacionadas. Dor e prazer são dois pólos
da mesma realidade, a vida.
Os
conceitos de Bem e Mal são criações humanas para justificar a
ignorância daquilo que é. A maioria dos seres humanos vive
mergulhada na confusão, em equívocos criados pela sua mente.
Confusão significa escuridão, trevas, ignorância. Bem e Mal são
criações da ignorância porque eles não existem por si mesmos. A
existência de um está vinculada ao outro. Para existir o céu é
necessário que haja o inferno. São criações da mente dual que não
consegue compreender o todo. O Bem e o Mal são pesadelos criado pela
própria mente. Eles somente existem na mente daqueles que neles
acreditam. O ser humano comum é uma máquina de efeitos
condicionados que age movida pelo exemplo, pela imitação, por
idéias alheias. Tem uma viseira estreita, mal enxerga o chão onde
pisa e, se olhar para as estrelas, certamente irá tropeçar e cair.
Mas
o homem não é uma obra acabada. É uma potência com possibilidades
infinitas. O homem é o ánthropos grego:
aquele que olha para cima, aquele que anseia
sempre o mais alto.
É
preciso despertar desse pesadelo. Acordar. Abrir, arejar a mente e o
coração com o novo, o diferente. Permitir que a luz penetre as
trevas. Olhar para cima, libertar-se dos apegos, dos condicionamentos
psicológicos, VIVER!
O
despertar é individual, é uma tomada de consciência, um
renascimento para uma nova vida. Acordar é permitir que o espírito
(spiritus rector) que
está dentro de nós direcione a nossa vida. Não precisamos de
autoridades, de pastores, padres ou gurus, porque o verdadeiro mestre
e amigo não está fora, ele está dentro de nós.
A
redenção
Todas
as religiões do mundo admitem redentor ou redentores. O cristianismo
é a religião clássica da redenção. Mas o que é redenção?
Redenção é resgate, emancipação, libertação, auto-realização.
A redenção supõe que o homem seja escravo, cativo, prisioneiro - e
assim é de fato. Mas o que prende, o que escraviza o homem? O que
escraviza o homem é a sua inconsciência, a sua ignorância. A
ampliação da consciência é o processo individual por excelência,
que lança a luz nas trevas da sua ignorância.
A
redenção é a auto-transformação do homem, o desafio da sua
existência.
O
homem autoconsciente é um homem redimido. Foi percebida a máscara
(persona) usada
durante toda a sua vida. Livre e inteiro, em harmonia consigo mesmo
e com o universo, é o verdadeiro filho de
Deus.
Sonhos
Os
nossos limites são os nossos sonhos. Cada um sonha de acordo com a
sua estrutura instintiva, emocional e mental. Sonhos são imagens
inconscientes que afloram e é nelas que devemos canalizar a vontade
de poder, quando então, todo o universo vai conspirar a nosso favor.
Não confundamos sonhos com ilusões. Os sonhos fazem parte das
nossas possibilidades reais e as ilusões são construídas pelo
superego, pelo egoísmo, pela inveja, e, fatalmente se transformarão
em fracassos. Não tenhamos ilusões, mas fé em nós mesmos, na
capacidade de atingirmos a nossa realização pessoal, de realizar os
nossos sonhos. Então encontraremos a paz, a verdadeira felicidade.
Ismos
A
igualdade dos homens entre si e a fraternidade que dela deve decorrer
(idéia fixa dos cristãos) impregna toda a civilização ocidental.
É a moral do rebanho sob o domínio do pastor que é o dono da
verdade. O Cristianismo não é diferente dos outros ismos
fundamentalistas baseados na negação da
liberdade individual, da evolução, das leis cósmicas e da única
realidade que é o aqui e o agora. Nele, a realidade está no além,
na eternidade, na
cidade de Deus. Está
baseado na crença, num ter-por-verdadeiro que é um Nada. Assim, de
acordo com os seus ensinamentos, viver a vida não tem mais sentido.
É
a vontade de Deus,
ditada pela corporação eclesiástica, que determina o que o homem
tem de fazer e deixar de fazer, baseado em pecado, perdão, culpa,
castigo e recompensa; que mede o valor do indivíduo em relação à
maior ou menor obediência.
Os
membros da casta clerical vivem brandindo a Bíblia (organizada pela
própria) e se dizem missionários.
Só têm certezas nenhuma dúvida. Não há grande diferença entre
as pregações de Santo Isidoro de Sevilla que levou muita gente para
as fogueiras da Santa Inquisição e os massacres em massa praticados
por ditadores deste século. Estão carregados de preconceitos mas
pregam o amor ao próximo.
É
uma doutrina antinatural porque, na verdade, todos os seres humanos
são diferentes entre si, física e psicologicamente. É algo que
está na cara e só
não vê quem não quer. A facilidade com que fantasiam realidades é
própria de um ser humano que está num nível de consciência em que
predomina o inconsciente, uma consciência infantil, fragmentada.
Jesus
era um espírito livre que pregou a religião do amor. É
inconcebível o amor sem liberdade. Ele pregou a vivência plena
porque o reino de Deus está dentro de vós.
O único mundo verdadeiro e eterno é o mundo interior e, esta é uma
experiência pessoal, individual, que está no coração.
Isto é plena consciência e disto está vazio o Cristianismo.
O
ser humano evolui individualmente pela ampliação de sua
consciência, que não é promovida pelo poder da vontade que comanda
o egoísmo. É algo que acontece. Esta evolução incomoda o rebanho
porque na consciência de rebanho, todos os homens sempre serão
iguais. Ser diferente, mesmo através de um processo natural, vai
contra a lógica das verdades clericais. Na verdade é a insegurança
individual que faz a pessoa necessitar do grupo para se proteger.
Sempre
é bom lembrar, entretanto, que nós precisamos do outro (qualquer
pessoa) para evoluir, para ampliar a nossa consciência e que todos
os ismos são
necessários como obstáculos a serem superados individualmente para
permitir a plena consciência.
Juízo,
Caráter e Liberdade
O
nosso corpo e a nossa alma são heranças genéticas e sobre as
quais, conseqüentemente, não tivemos opção. Afinal nem o berço
foi escolha nossa. A educação também não foi e não é escolha
nossa, pois apenas reagimos ao nosso meio. Na verdade, só iremos
começar a fazer escolhas quando criarmos juízo. O que é juízo? É
a capacidade de discernir, escolher e julgar. Ter juízo é ter
plena consciência, é ter a capacidade de avaliar todas as causas e
conseqüências de qualquer decisão. Quem é capaz de? A nossa
consciência sempre é parcial e por isso nossos julgamentos não são
nem livres, nem justos, nem isentos. Sempre será o nosso universo
pessoal que fará a escolha. Por isso devêmo-nos abster de fazer
quaisquer julgamentos.
O
caráter é o esqueleto da alma. Nele estão impressas as
características pessoais e o destino de cada um. O homem pela
educação pode dar-lhe um polimento,
mas a personalidade é a letra escrita do caráter. Por isso podemos
afirmar que a liberdade do homem é relativa, querer
é poder, pensamento
positivo e as afirmações de Kierkegaard...
o homem é o que ele escolhe ser"...a pessoa decide se quer ou
não ir adiante...a pessoa pode ou não decidir se dará um salto
para um estágio mais elevado... são
ilusões.
Na
verdade, o homem tem uma cota de liberdade que sempre está
condicionada ao seu caráter e ao seu nível de consciência. Há um
ditado árabe de plena sabedoria: Se Alá
predestinou alguém a morrer num determinado lugar, suscitará nele o
desejo de viajar até lá.
A
educação e a convivência social tem a função de manter um
controle sobre os instintos e auxiliar no desenvolvimento das
potencialidades individuais. A educação tem a função de
desenvolver a personalidade com dedicação, trabalho e disciplina
que impõe limites e mostra caminhos. O autocontrole que é
desenvolvido dentro de uma estrutura social hierarquizada, a começar
pela família, pela disciplina e pela educação é imprescindível
para que a pessoa comece a tomar consciência da sua realidade. A
disciplina e a educação são formadas por leis morais e normas de
direito a que todo o grupo social se sujeita. Este é o controle que
a sociedade mantém para o seu desenvolvimento como um todo e para o
desenvolvimento individual. Cada um é julgado por leis que regulam
as relações sociais e que, na sua essência, normatizam o grau de
liberdade no universo social em que ele vive. As normas, muitas
vezes, extrapolam a sua verdadeira finalidade para interferirem na
liberdade de ser. Coíbem a manifestação das potencialidades
inerentes à natureza individual; proíbem comportamentos que não
agridem a convivência social mas são tão somente a negação de
valores subjetivos, ou seja, convicções morais e religiosas;
propõem reduzir indivíduos totalmente diferentes em sua natureza a
um rebanho. Esta violência moral, este julgamento é totalmente
condenável.
Tudo
o que eu sou capaz de fazer e capaz de afirmar reflete o meu universo
e não tem aplicação a outros universos.
Eu apenas posso dar o meu testemunho para que os outros universos
possam perceber as possibilidades que existem. Apenas isso. Eu
construo a minha verdade, assim como cada um constrói a sua.
De
Deuses e anjos
As
grandes dificuldades, as provações são
etapas da vida que cada um supera de uma forma peculiar. Dizem alguns
que é pela força da vontade, outros que devemos recorrer a Deus,
Jesus, a santos ou a outras entidades espirituais, pois será a fé
nestas forças superiores que nos fará superar os momentos de crise.
Fala-se
do anjo da guarda. Anjos é um tema atual e os livros dedicados ao
assunto são best sellers. Eles, os anjos, têm nomes complicados que
lhes dão um charme especial.
De
acordo com a sabedoria esotérica, o anjo da guarda não é uma
entidade espiritual superior. Ele é o <i>símbolo
do conjunto de nossas boas ações, daquilo que de positivo e
construtivo fizemos na nossa vida. Esse conjunto personifica-se numa
poderosa força interna, capaz de intervir no sentido protetor quando
solicitada.</i> Esta força que faz
superar as dificuldades da vida não vem de fora, não é uma ajuda
de uma entidade superior, esta força está dentro de cada ser
humano.
Nós
temos o poder, mas o
transferimos para símbolos (cruz, estrela, etc.), objetos (estátuas,
pés de coelho, etc.) imagens (fotos, pinturas, etc.) e entidades
criadas por nós mesmos e que denominamos superiores (anjos, santos,
deuses e demônios). Todos estes seres mágicos e infinitamente
poderosos e os seus mundos fantásticos (céu e inferno) não estão
além das nuvens e das estrelas, eles estão dentro do próprio
homem. Nós temos o poder,
mas o transferimos também para mestres, gurus
e autoridades. Na verdade, nós continuamos
titulares do poder,
mas achamos que os outros é que estão promovendo os milagres
que, na verdade, são nossos.
A
fé que nós projetamos no objeto produz os mesmos resultados, mas ao
invés de creditarmos o benefício a ele, devemos creditá-lo a nós
mesmos, o que faz uma significativa diferença, porque deixamos de
nos submeter e atribuir poderes a quem não os tem.
Direito
à individualidade
O
respeito à individualidade é um valor ético nem sempre
compreendido e praticado, principalmente porque, a vontade de poder
controlar a vida do seu semelhante é inerente à natureza humana.
O
direito à igualdade, embora na prática, seja apenas um ideal, é
uma das maiores conquistas da nossa civilização. Este direito,
entretanto, que pretende proteger os mais fracos, nega, de certa
forma, o direito à individualidade, ou seja, à diferença.
Só
podemos dizer que os indivíduos são iguais na medida em que êles
são amplamente inconscientes, isto é, inconscientes de suas
diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais
ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto
mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais
acentuada se torna sua diferença com relação a outros indivíduos
e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum.
As
diferenças individuais que se revelam pelo desenvolvimento da
consciência não são compreendidas pelo homem comum. A diferença
de níveis de consciência dificulta a comunicação. A pessoa, ao
adotar valores éticos, em substituição às normas morais vigentes
do seu grupo social, torna-se diferente e portanto, passa a ser
tratada com preconceito e é marginalizada. Na
verdade, para a maioria, a fim de que um ponto de vista seja válido,
precisa colher o maior número possível de aplausos,
independentemente dos argumentos apresentados em seu favor.
Verdadeiro
e válido é aquilo em que a maioria crê, pois confirma a igualdade
de todos. Mas para uma consciência diferenciada já não é mais de
todo evidente que sua própria concepção se aplique aos outros, e
vice-versa.
Saber-se
igual aos outros dá segurança psicológica, fortalece o ego,
aumenta a auto-estima. O uniforme que a criança usa desde o Jardim
de Infância nada mais é do que a obsessão, muitas vêzes
inconsciente, de pais e mestres em impor uma igualdade que não
existe no ser humano. É com base na igualdade que é identificado o
ser humano normal. Ser
normal é talvez a
coisa mais útil e conveniente com que podemos sonhar; mas a noção
de ser humano normal,
tal como o conceito de adaptação, implica limitar-se à média. ...
Ser normal é o ideal
dos que não têm êxito, de todos os que ainda se encontram abaixo
do nível geral de adaptação. Mas para as pessoas dotadas de
capacidade acima da média, que não encontram qualquer dificuldade
em alcançar êxitos e em realizar a sua quota-parte de trabalho no
mundo, para estas pessoas a compulsão moral a não serem nada senão
normais significa o leito de Procusto: mortal e insuportavelmente
fastidioso, um inferno de esterilidade e de desespero. (C.
G. Jung.)
Ser
normal é ser igual aos demais. É a confirmação da igualdade. Ser
diferente é, portanto, anormal, doentio. O diferente precisa ser
tratado para que volte
a ser igual aos demais. É assim que o ser humano mediano julga o seu
semelhante.
Se
o direito à igualdade dentro do grupo social tem os seus méritos,
ele também gera preconceitos e discriminação contra o diferente,
seja pela condição social, convicções, hábitos, preferências
sexuais, etc.
O
preconceito, por exemplo, levou o Conselho Federal de Psicologia a
adotar punições para os profissionais que tratarem o
homossexualismo como doença, ou discriminarem homossexuais. Um
grande e extraordinário passo.
O
preconceito e a discriminação sempre existiram e vão continuar
existindo porque a evolução da consciência é um processo lento.
A
preferência sexual que é ditada pela natureza individual e, não é
portanto, uma opção - mas mesmo que fosse deveria ser respeitada –
tem sido motivo dos maiores preconceitos.
Nesta
década, entretanto, temos observado que, com a melhoria dos meios de
comunicação, as pessoas têm conseguido unir-se e lutar pelo
direito à diferença, pelo respeito à individualidade, afinal essa
também é uma luta pelos direitos humanos.
Assim
como se lutou arduamente, por séculos, pelo direito à igualdade,
deve-se combater, agora, num nível superior, pelo direito à
diferença. O mesmo orgulho sadio que ostenta aquele que se
identifica como homem de massa, deve poder mostrar aquele que é
diferente em sua natureza, em sua individualidade.
O
direito à individualidade, à diferença, é de certa forma uma
utopia, mas não é proibido sonhar. Afinal sonhar é a única
liberdade do ser humano.
O
homem inconsciente tem uma compulsão em dominar o outro. Mas toda
forma de poder é verdadeira inimiga da ordem. Toda ordem ou
imposição contraria aquilo que é, por si só, um elemento
intrínseco à natureza humana. Por que dominar o outro? É querer
formá-lo à nossa imagem e semelhança.
O
sonho e o ideal do homem comum é uma sociedade igualitária. O senso
comum é essa força que também chamamos de democracia, regime de
governo indispensável para organizar uma sociedade de indivíduos
inconscientes.
O
sonho daqueles que estão acima da média do nível geral de
adaptação, daqueles que têm um maior nível de consciência da
realidade, daqueles que não sentem a necessidade de governo político
e religioso devem conformar-se em ser apenas diferentes.
Uma
sociedade fundada na solidariedade e na liberdade ainda é uma
utopia.
Amor
homoerótico
A
sobrevivência física é a primeira das necessidades básicas e
instintivas do ser humano a ser satisfeita, a segunda é a afetiva.
Lieben und arbeiten, amar e trabalhar (realização afetiva e
material) é a fórmula de bem viver, segundo Sigmund Freud.
A
Ciência comprova que as diferenças individuais, físicas e
psicológicas, tem origem genética. Embora muito se especule sobre o
assunto, desconhecemos a causa da atração amorosa e sexual entre
pessoas do mesmo sexo. Por fugir à razão e à lógica, este talvez
seja um dos motivos do preconceito. Lidar com a diferença é sempre
incômodo, porque ela relativiza nossas certezas e valores, aquilo
que entendemos como verdade.
O
ser humano não escolhe a natureza do seu temperamento, o seu tipo
físico, a cor da sua pele, dos seus cabelos ou dos seus olhos; não
escolhe ser mais, ou menos inteligente, nem opta em ser hetero ou
homossexual. Algum heterossexual recorda-se do dia em que fez a
escolha do seu comportamento sexual? Pode alguém afirmar que sim mas
se fizer uma análise profunda verá que seguiu o seu instinto
natural. Na sexualidade não há liberdade de escolha. O amor
homoerótico pode manifestar-se, inclusive, na idade adulta, na
absorção da "sombra”, quando é desenvolvido um aspecto da
personalidade que foi reprimido.
O
direito à igualdade é um ideal da nossa civilização. Entretanto,
o ódio do que é diferente se torna tão mais violento quanto mais
se afirma essa idéia de paridade entre os homens. Se o ideal é a
igualdade, a diferença passa a ser classificada como anormal,
doentia.
Nas
últimas décadas surgiu um forte movimento pelo direito à diferença
em resposta, principalmente, ao preconceito de cor. No comportamento
sexual sedimenta-se o princípio do direito de opção. Se for uma
escolha, a razão e a lógica estão satisfeitas, mas continua aberto
o campo do preconceito. Se é uma opção, por que não ser
heterossexual e assim confirmar a igualdade de todos? É nesse
sentido que algumas igrejas evangélicas estão se dedicando a
orientar a mudança, entre os seus seguidores, do comportamento
homossexual para heterossexual. Isto não é impossível. A pessoa
deixa de fazer sexo por amor e prazer, para fazê-lo por obrigação,
por um ideal.
O
homem procura adaptar a natureza humana a ideais. Criou Deus, o
pecado, a culpa e o castigo. Escreve livros e os qualifica como
sagrados, reveladores da vontade de Deus, elege-os como autoridades
absolutas quando são apenas obras suas. Com base em seus ideais quer
modificar a natureza humana. Ora a natureza não pode ser modificada,
mas sim polida e desenvolvida. A realização pessoal somente é
possível quando há liberdade para se expressar o que se é, com
base no respeito mútuo.
O
sentimento de culpa para quem teve uma educação baseada nos valores
morais e religiosos da nossa civilização cristã é uma realidade.
A imensa dor moral por essa anomalia, por esse desvio, por esse
comportamento anti-natural leva, muitas vezes, ao suicídio.
Por
outro lado, é importante verificar que todos aqueles que agridem
física e moralmente, ou matam homossexuais, parecem projetar e
reconhecer neles, o seu lado homossexual inconsciente. Parece que
querem agredir e matar o homossexual que está dentro deles. Alguém
que está seguro da sua sexualidade não irá agredir um outro só
porque tem um comportamento diferente.
A
atração, o amor homoerótico existe onde há seres humanos,
independentemente de profissão, estado civil ou nível social.
Precisamos
conhecer e amar, integralmente, a nós mesmos, para podermos amar e
respeitar a natureza individual do nosso semelhante. Este também é
um ideal, mas um ideal baseado no amor.
Ama
a ti mesmo
A
tão conhecida frase de Jesus ama o teu próximo como a ti mesmo,
base de toda a doutrina das igrejas cristãs, é repetida,
automaticamente, como a maior verdade de todos os tempos. A frase
parte da premissa de que todo homem ama a si mesmo.
Nós
somos um todo, corpo físico, mente e instintos. Quem condena e
reprime os instintos que são parte essencial de cada indivíduo,
quem se castra física ou psicologicamente, quem proíbe o prazer e a
liberdade não ama a si mesmo. Estes, entretanto, são os princípios
de todas as religiões.
Se
observarmos a moral cristã, perfeitamente identificada por
Nietzsche, perceberemos que o cristão não ama a si mesmo. São
os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para
compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da
impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos
fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o
corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das
alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida.
Esse ódio de tudo que é humano, de tudo o que é “animal” e
mais ainda de tudo o que é “matéria”, esse temor dos sentidos
... esses horror da felicidade e da beleza... tudo isso significa
vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir
as condições fundamentais da própria vida.
No
entanto, somente pode questionar a moral cristã ou de qualquer outra
religião o sábio, o homem cosmoconsciente. Muitos não sabem o que
é liberdade e ainda estão na fase do caçador, e portanto, escravos
da ignorância. Nas histórias mitológicas, o caçador refere-se
àquele que mata as coisas do mundo; se as mata é porque não as
ama; se não as ama é porque não as compreende; se não as
compreende é porque está mergulhado na confusão.
O
homem inconsciente não conhece a si mesmo, não se compreende e, por
isso, não se ama. Exatamente porque não se ama, como poderá amar o
outro?
Conhecer
a si mesmo, inteiro, corpo, mente e coração significa descobrir
este universo extremamente complexo que é o ser humano. Só é
possível amar aquilo que se conhece. Amando a si mesmo o ser humano
é capaz de viver plenamente em comunhão com o todo, e, amar o
próximo (seres humanos, animais, plantas, rios, lagos, oceanos,
montanhas, etc.) como a si mesmo.
Revolução
Nada
de novo, nenhuma idéia original tem sido apresentada para solucionar
os problemas e dificuldades que enfrentamos neste final de século. É
a roda do tempo que está girando e tudo se repete. O homem sempre
precisa encontrar um inimigo para culpá-lo de todas as suas
misérias, tanto do seu grupo social e quanto do seu país. O inimigo
comum agora é a globalização. Dizem alguns que todos os problemas
do país são causados por este inimigo sem raça, cor, exércitos ou
pátria. Na política as perspectivas são sombrias, o nosso sistema
está falido mas cabe aos beneficiários, os políticos, que, em sua
maioria, legislam em causa própria, a função de promover as
mudanças. A falta de empregos, de educação, de saúde e de
segurança leva-nos novamente a um inimigo comum, o governo. Mas são
as pessoas, através do seu voto, que elegem os seus governantes. Por
isso cada povo tem o governo que merece.
A
evolução consciente do indivíduo e somente ela, pode promover a
verdadeira revolução social. É necessário repetir este slogan
infinitamente porque as pessoas ouvem, mas não escutam, vêem, mas
não enxergam. Toda
civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo
criativo. Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro
tirou fogo de uma pedra. ... Só o indivíduo pode pensar e,
pensando, criar novos valores para o mundo. Só o
indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o
caminho para as gerações futuras. Sem personalidades decisivas
pensando e criando de forma independente, o progresso humano é
inconcebível. (Albert
Einstein, in “Liberty Magazine/BP Singer Features”, USA,1933).
O
nosso inimigo somos nós mesmos incapazes de ver que todos os
problemas sociais, políticos e econômicos são a projeção do
nosso mundo interior caótico, dominado pelo egoísmo. A
transformação pessoal começa pela Educação. Educação integral
incluindo, principalmente, os valores humanos e éticos. A nossa
educação pública e particular, com as exceções de sempre, está
direcionada para formar especialistas, máquinas humanas, robôs a
serem colocados em linhas de produção. O homem está deixando de
ser humano para ser uma máquina. Educação integral que ensine a
criança a pensar ( e não o que
pensar), a desenvolver as suas próprias potencialidades, a ser um
indivíduo, um cidadão. Esta é uma tarefa gigantesca para a qual
temos que despertar individualmente. Não esperemos que as elites que
detém o poder irão promover mudanças. Deixemos de culpar os outros
pelas nossas desgraças e estaremos começando uma verdadeira
revolução.
Incertezas
Há
momentos na vida em que somos agentes conscientes, e há aqueles em
que as coisas simplesmente acontecem, sem que tenhamos qualquer
controle sobre elas.
Entregue
tudo nas mãos de Deus, mas aja como se tudo dependesse de você
não é apenas uma frase de efeito, mas resume uma sabedoria que
transcende as nossas convicções ou valores comuns. Podemos
substituir a palavra Deus por Sorte, Azar, Destino ou Karma, mas o
que observamos é que nas leis da vida não há certezas, não há
lógica, não há leis fixas e imutáveis, somente fatos; o que
sabemos é que o somatório de determinadas condições faz
acontecer, mas quase nunca sabemos as causas que as determinam.
Somos
movidos pela vontade de poder que se manifesta como característica
individual. Em verdade, não sabemos até que ponto vai o nosso poder
mas, penso eu, nós o exercemos de acordo com o nosso caráter que
pode ser conceituado como o conjunto de disposições congênitas que
formam o esqueleto mental de um ser humano.
A
afirmação de que somos capazes de realizar os nossos sonhos é
relativa, porque há sonhos que representam reais potencialidades
individuais e outros que são apenas ilusões.
Observamos
que a vida é movida pela Lei da Incerteza mas o ego busca segurança
na certeza de aparência e na fé, que são, tão somente,
condicionamentos psicológicos que hipnotizam, incapacitam o ser
humano para a percepção de outras realidades, mesmo quando
construídas pela aparente harmonia entre razão, coração e
experiência.
Acordar
é possível porque a insatisfação, como afirma José Saramago,
está no coração do próprio Deus. É ela que nos impulsiona, que
nos leva a abrir a mente e o coração ao novo, ao diferente, ao
desconhecido e, assim, amplia a visão para além do nosso caminho,
superando as certezas e a fé, enriquecendo a nossa verdade.
O
que é liberdade?
Não
tenho ódios porque sou um homem livre.
(Carlos Lacerda em pronunciamento na Câmara dos Deputados, em 1957).
Será que alguém entendeu o verdadeiro significado da frase daquele
que foi um dos maiores tribunos que este país conheceu? O que é
Liberdade?
Eu
atingi a Libertação, declarou
Khrishnamurti, em agosto de 1927. Conhecereis a Verdade e a Verdade
vos libertará disse Jesus, o Cristo. O que é Liberdade? É a
liberdade de ir e vir, de opinião, de pensar, de sentir, de
planejar, de desejar, de fazer, do livre-arbítrio, do apego ? O que
é Liberdade?
Liberdade
é ter o poder absoluto? Se o Rei tem o poder absoluto, ele é
totalmente livre? Há algo que condiciona suas escolhas e decisões?
O que, ou quem é que governa o Rei? O Rei faz as novas leis, mas as
velhas leis fazem o Rei, afirma Dane Rudhyar. As
velhas leis são as tradições, os costumes ancestrais, os modelos
religiosos e culturais básicos e as imagens primordiais da nação
de que ele se originou, como um filho condicionado por treinamento
especial para tornar-se Rei - todos estes fatores estruturam a
consciência do Rei, e desse modo lhe determinam basicamente, ainda
que não exclusivamente (1) os seus atos. Os velhos hábitos tem
mais fundamento e poder que o próprio Rei. O
que é Liberdade?
Eis-me,
pois aqui! É impossível que seja de outra maneira, pois minha
consciência moral está presa à palavra de Deus e é perigoso e
impossível fazer qualquer coisa contra essa consciência. Não
posso, não quero abjurar. Essa teria sido,
segundo a tradição, a resposta de Lutero perante o Conselho de
Worms (2) .
Sou
escravo da minha fé, da minha consciência moral! O que é
Liberdade???
Ser
livre é saber-se escravo e prisioneiro.
Ser
escravo é estar absolutamente sujeito a outrem, é ser dependente
sem querer ou poder. Ser prisioneiro é a condição de quem era
livre e procura voltar à liberdade.
O
espírito é eterno e livre, mas prisioneiro temporário do corpo e,
durante a maior parte da vida do ser humano, do eu egoísta. A alma e
o corpo são mortais e escravos dos seus condicionamentos, das suas
necessidades de sobrevivência, do tempo, espaço e da lei da
causalidade.
Condicionamento
Todos
nós somos uma máquina de efeitos condicionados. Todos nós temos
fé, todos nós temos apegos e cada um tem o cérebro (ou cérebros,
como querem alguns) formatado
de acordo com a sua herança genética e experiência de vida. A fé
num Deus e num Salvador são criações ideais. A fé nos valores
morais e religiosos da civilização, transmitida pela tradição,
cultura e educação, condiciona o ser humano e dá-lhe segurança
psicológica. Este condicionamento, entretanto, torna-o impermeável,
fechado, incapaz de perceber e absorver outras realidades.
Mas
quem, realmente, compreende essa situação? Quem consegue sair de si
mesmo, auto-observar-se de longe e do alto, e perceber que ele é
totalmente condicionado? Quem tem consciência de que todas as suas
escolhas são condicionadas? Será que tudo aquilo que eu afirmo,
escrevo e falo é algo realmente meu, original, ou sou somente um
papagaio que vive
repetindo tudo o que aprendi pelo exemplo, pela imitação e pela
educação? O condicionamento nos dá segurança psicológica, nós
precisamos da fé, das nossas certezas, dos nossos certo e errado,
sob pena de enlouquecermos. A pessoa comum não tem consciência
disto. Ter consciência é saber, é sentir. O conhecimento
intelectual só nos dá erudição, não nos dá sabedoria. As
pessoas são condicionadas mas pensam que são livres.
A
Psicologia e a Psiquiatria tratam da psique, a religião da alma,
isto é, da mesma coisa. O ser humano normal é
um robô, uma máquina
de efeitos condicionados. Quando esta máquina
apresenta problemas o psiquiatra dá-lhe alguns lubrificantes,
alguns aditivos para
consertá-la. O Psicólogo faz uma análise e, a partir daí,
auxilia-a a consertar-se a si mesma
para voltar a cumprir as suas funções na sociedade de acordo com os
valores coletivos por ela estabelecidos. Tanto um, quanto outro,
cumprem a função de fazer o robô
voltar a funcionar.
As
religiões oficiais cumprem o mesmo papel, dando destaque para a vida
após a morte. Neste caso o robô,
ou melhor, a ovelha do
rebanho, precisa ter uma profunda fé na doutrina e nos dogmas da sua
religião. Nos casos de crises, em que a ovelha
procura fugir do rebanho, sempre haverá outros pastores
e rebanhos para
acolhê-la.
Assim
vive o homem. Magnífica máquina de efeitos condicionados,
eficientíssimo robô, até o dia em que começa a despertar, a
pensar por si mesmo. Até o dia em que começa a compreender que pode
ser livre. Até o dia que percebe que pode dispensar psicólogos,
psiquiatras, padres e pastores.
Ter
uma profunda compreensão do seu condicionamento torna o homem livre.
Livre para olhar para fora de si mesmo, isto é, ultrapassar as
muralhas do condicionamento, abrir os olhos para o universo que o
cerca. É um renascimento. Significa retirar a venda dos olhos e
substituir a fé cega pela fé consciente. Este despertar é o
conhecimento de si mesmo, é a resposta para a pergunta quem
sou eu.
Quem
sabe não perdoa
Perdão
é a remissão de uma ofensa, de um pecado.
Alguém dá o perdão quando se sentiu ofendido, agredido ou
violentado por outrem. Se alguém não se sente agredido não há o
que perdoar.
Se
alguém chamar outro de feio podem ocorrer três situações: 1) se
inconscientemente a imagem que o outro tem de si mesmo se identifica
com a palavra, ele vai responder à altura;
2) se a imagem que ele tem de si mesmo é belo
a palavra feio não o
atinge; 3) se a pessoa o xingar numa língua incompreensível, ele
será capaz de sorrir porque não se sentirá ofendido.
A
ofensa é um conceito subjetivo. Dar o perdão a uma ofensa ou a um
pecado é um ato
extremamente egoísta. – EU sou o máximo,
você me ofendeu, mas como sou boníssimo, EU vou te perdoar.
Mas dar o perdão não irá absolver a pessoa do erro.
Porque o erro ou
pecado é uma percepção subjetiva. A maioria das pessoas precisa
recorrer ao outro, externar o seu arrependimento e depende, portanto,
do outro para perdoar-se a si mesma.
Uma
pessoa consciente não precisa do perdão, mas de um profundo
arrependimento que é uma tomada de consciência, e, portanto, o
reconhecimento de um erro e, conseqüentemente, um aprendizado.
Perdão
é algo que se dá a si mesmo porque a prática de um erro é fruto
da ignorância.
E
quando há uma agressão física? As leis do olho
por olho, dente por dente e do direito de
matar em legítima defesa são promovidas pelo ego. É o ego que tem
medo da morte. A agressão física resulta da ignorância do
agressor. Que armas usar contra a ignorância da violência? A
não-violência, a lei do Amor. Afirma Rohden que há duas formas de
acabar com o seu inimigo: matando-o ou amando-o.
Um
pessoa que está em outro nível de consciência não se sente
agredida seja por um cardo, seja por um animal que ataca
instintivamente para se proteger ou para se alimentar, seja por uma
pessoa dominada pelas trevas da ignorância.
Quem
não se ofende não tem o que perdoar.
O
preconceito
Somente
há escravos onde há senhores porque é impossível a existência de
um sem o outro. Se não houver aquele que se humilha, que é
serviçal, que tem o prazer de ser pisado, não haverá o senhor
despótico, cruel, dominador.
O
homem em geral não simpatiza com o seu diferente.
Crime é a agressividade, a violência em nome da diferença.
Diferença de raça, cor, religião, país, nação, nível social,
econômico, etc. são motivos de preconceito em todos os grupos
sociais e em todas as civilizações. O preconceito também existe
porque o homem procura um inimigo
para culpá-lo das suas dificuldades, e ninguém melhor para
representar o inimigo do que o diferente.
O respeito pelo nosso semelhante ainda é uma utopia, mas nem porisso
devemos deixar de lutar por ela, diuturnamente, com todas as nossas
forças.
É
uma característica do ser humano não gostar, não simpatizar com a
diferença. Simpatizamos com a igualdade. Isto é natural. Faz-se
amizade com os semelhantes e não com os diferentes. O preconceito
caracteriza-se pelo culto do ódio e da violência contra o
diferente. Não
simpatizar não significa ter preconceito. Podemos viver em harmonia
se tivermos um profundo respeito à individualidade de cada um.
A
limitação dos sentidos
Entendo
que temos que tomar cuidado com "fatos" que parecem
incontestáveis. Os nossos sentidos são limitados e ainda
desconhecemos grande parte do funcionamento do nosso cérebro. O Sol,
por exemplo, nasce no leste e se põe no oeste. Pelos nossos sentidos
é o Sol que gira. Mas acreditamos nos cientistas que afirmam que o
movimento giratório é da Terra. Esse simples fato nos mostra como
podemos viver iludidos pelos nossos sentidos. Sabemos um pouco da
força da mente, conhecemos muito pouco do funcionamento do cérebro.
Não podemos esquecer, por exemplo, que a miragem do deserto pode ser
fotografada. Então, eu entendo que fatos inexplicáveis devem ser
aceitos como "fatos inexplicáveis" porque com o tempo nós
teremos explicações científicas para os mesmos. Nem todos, é
verdade, pois os que pertencem ao mundo interior somente podem ser
explicados pelo autoconhecimento.
A
visão ou sonho de um fato futuro é algo totalmente irracional mas
acontece.
Há
sonhos que são visões do
futuro mas, quase sempre, somente iremos identificá-las depois que o
fato sonhado acontece. A interpretação dos sonhos é tão complexa
que, arrisco-me a afirmar, muitas vezes são apenas jogos da mente
sem qualquer significado maior. Não conheço qualquer "vidente"
que saiba prever o futuro. Suas "profecias", quando
acontecem, estão dentro de probabilidades estatísticas.
As
previsões somente assustam aqueles que nelas acreditam. O medo do
desconhecido apavora aqueles que têm pouco consciência da realidade
em que vivem. Com o conhecimento científico e a ampliação da
consciência esse medo desaparece.
Livre
arbítrio
Eu
entendo que o livre arbítrio é relativo. Pensamos que somos livres
porque desconhecemos as causas que movem as nossas ações. Somos
livres para escolher superficialidades mas não para determinar o
destino das nossas vidas. Cada um desenvolve a sua individualidade de
acordo com a sua herança genética que não foi uma escolha sua.
Afirmo isto porque entendo que devemos guiar- nos pelo "saber"
e não pela crença. Entendo que a vida é o desenvolvimento das
potencialidades inerentes a cada indivíduo. Só podemos ser aquilo
que já somos e não aquilo que queremos ser; a vida não é um
tornar-se, mas, simplesmente, ser.
Consciência
Consciência
é um saber em amplitude e profundidade, horizontal e vertical. Eu
afirmo que a evolução dos níveis de consciência não acontece por
um ato de vontade consciente. Isto é, não é porque "eu quero"
tonar-me um ser iluminado que serei iluminado; não é porque eu vou
usar a força de vontade em técnicas de meditação, abster-me de
prazeres físicos e fazer sacrifícios que irei evoluir
espiritualmente. Estou fazendo afirmações que agridem o senso comum
e a doutrina das escolas esotéricas e das religiões? Sim, é
verdade. O "querer" pertence ao mundo do ego. O ato de
vontade aperfeiçoa o ego e promove o egoísmo. O mundo do ego é o
mundo do "ter", o do espírito é o "ser" (Jesus:
"O meu reino não é deste mundo".) A evolução da
consciência está no mundo do "ser", do espírito. Por
isso o "abandonar as coisas do mundo" ("dá tudo o que
tens aos pobres e segue-me", "possuí como se não
possuísseis"). O desapego, entretanto, não desaparece com a
doação dos bens materiais porque ele é um sentimento. O desapego
não é alcançado por um ato de vontade mas somente por uma tomada
de consciência. Tomada de consciência é um "insight",
uma "iluminação" que brota espontaneamente do fundo da
alma. Não é um querer.
Evolução
ética da humanidade
Entretanto,
pelo meu ponto de vista não há uma evolução Ética (1) da
humanidade. Parece-me que a violência e o egoísmo continuam tão
fortes quanto o eram há dois ou cinco milênios. Não podemos
afirmar que depois de duas guerras mundiais e genocídios que vimos
neste século, matando dezenas de milhões de pessoas, o homem tenha
aprendido, isto é, tenha evoluído. As guerras continuam e,
principalmente, a violência urbana está cada vez mais assustadora.
Se observarmos a história da humanidade perceberemos que os ciclos
de paz e guerra se repetem. Por isso, eu entendo, que "realizar
o céu na Terra" não será possível em nível coletivo. Eu
entendo que não há uma redenção coletiva mas que ela somente
acontece individualmente. A "iluminação", ou seja, a
tomada de consciência da Verdade é uma experiência individual que
não pode ser transferida. É um "insight" que brota do
fundo da alma, é algo que simplesmente acontece. Não é um ato de
vontade. O céu ou paraíso, e o inferno são percepções pessoais.
São sentimentos que independem de como está o coletivo. O país é
rico, sem desemprego, com alto nível de vida em todos as áreas, mas
as pessoas estão suicidando-se. Por que? Porque felicidade é um
sentimento pessoal que está no nível do espírito (alma, psique).
A
perfeição do ego
Sobre
a vontade, afirmo eu, na mensagem "Eros e Logos": "A
subjugação dos instintos é feita pelo eu racional e egoísta
canalizando energia instintiva reprimida que irá constituir-se em
força de vontade. A vontade de poder atrai naturalmente o ego (2). A
luta é basicamente o caminho da vontade.
Quanto maior a repressão maior é o ego.
Ele quer atingir a perfeição. Quanto mais inatingível o fim, maior
perfeição do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto.
Conseguir a perfeição do ego é tornar-se o centro do universo."
Sim,
instinto e espírito são dois pólos da mesma energia. Na verdade, o
ego precisa atingir a perfeição para poder ser perdido. Somente
pode-se perder aquilo que se tem. O ego promove o progresso da
civilização. Ele precisa tornar-se mestre "no domínio da
matéria", para encerrar o segundo ciclo evolutivo. A mudança
do ciclo do ego para o ciclo do Amor e da Sabedoria (terceiro ciclo)
é promovida pela Lei cósmica. Não é um ato de vontade, um querer,
mas uma determinação da Lei. A morte do ego (egoísmo) representa
uma crise existencial extremamente dolorosa ("paixão da alma"
como a define C. G. Jung).
(1)
Uso a palavra Ética para conceituar os valores do espírito que são
permanentes: Amor, Liberdade, Harmonia e Sabedoria. Moral são os
códigos de valores que mudam de tempo e lugar de acordo com as
civilizações, nações e grupos sociais.
(2)
Ego é um aspecto da personalidade que Freud chama de superego. O
"eu" não será perdido, mas sim o egoísmo. Uso ego porque
é a palavra utilizada pelos mestres esotéricos.
Avatares
são faróis
Eu
entendo que cada Avatar, cada Mestre mostra um caminho que é o seu
caminho. Buda,
por exemplo, disse que o caminho é a experiência direta; Jesus, ao
contrário, disse que o caminho é a fé.
Entretanto, se você seguir alguém, você não será você mesmo.
Para mim os grandes guias espirituais são faróis na escuridão, são
setas nos caminhos para nós caminhantes. Nós temos o potencial, a
partícula divina para nos tornarmos mestres iluminados. Nossos
caminhos são orientados pelos Guias até que a nossa luz interior, a
mônada, se desenvolva. Aí, então, também seremos estrelas com a
capacidade de iluminar o nosso próprio caminho e servir de farol
para guiar os passos dos nossos irmãos inconscientes.
O
universo, o homem e Deus
Dizem
que o Universo está em expansão infinita. Na verdade, sabemos que
tudo passa, tudo tem início meio e fim, no mundo que somos capazes
de observar. Tudo nasce, se desenvolve, atinge a maturidade, declina
e morre. O Sol desaparecerá com o seu sistema e a Terra se
desintegrará. A Terra já teve outros habitantes que a dominaram
durante centenas de milhões de anos e desapareceram tão
misteriosamente como surgiram, os dinossauros. O homem de neandertal
foi uma espécie que também não sobreviveu, além de muitas outras.
O homo sapiens, sapiens é um habitante recente deste Planeta. O
desenvolvimento da sua inteligência é algo fantástico. O uso da
inteligência e da razão está permitindo a construção de uma
civilização inimaginável. O homem também nasce, cresce, atinge a
maturidade, envelhece e morre. O homem não é eterno. Mas ele
descobriu que a energia é eterna porque ela se transforma, e que ele
também é energia. Descobriu pela mecânica quântica, embora os
sábios orientais já o houvessem intuído há milênios, que o
Universo é um todo, que há uma "alma", um "oceano"
que o permeia e se esconde sob as aparências. Esta "alma",
este "oceano" é Tao, o Todo, o Uno, O Nada, Puro Nada. Na
minha concepção o Uno é Deus. Deus não está separado, fora, em
outro mundo, Deus é o Universo, a Lei, o Todo. Eu não sou Deus, mas
sou um em Deus. Tudo nasce desse "oceano" e a ele retorna.
O
homem sabe, portanto, que ele não é somente um corpo físico que
morre, mas sendo também energia (alma, psique, espírito, vida),
esta irá sobreviver. O que ele não sabe, mas somente especula, é
se a sua memória se perpetuará. Parece haver quase um consenso de
que a memória morre com o corpo e a consciência sobrevive. Aqueles,
então, que despertaram, atingiram a iluminação, a plena
consciência, serão imortais e eternos?. Os demais seres humanos são
eternos, mas retornam inconscientes, ao "oceano" cósmico?
Nós
conhecemos somente o nosso mundo, mas sabemos que muitos outros
mundos há que estão além da percepção dos nossos sentidos. A
humanidade "mora" no Planeta Terra. Aqui os seres humanos
estão em níveis que vão da inconsciência à plena consciência.
Tenho a sensação de que no Planeta Terra sempre foi e sempre será
assim. Desconhecemos as outras dimensões do Universo. Especular ou
acreditar em seres e mundos fantásticos somente nos desviará do
principal: a única realidade é o aqui, agora. Viver este momento é
a suprema realização.
O
homem é a medida de todas as coisas
Lembrando
a famosa frase "o homem é a medida de todas as coisas",
ocorre-me que o "eu" sempre é a medida de todas as coisas.
Analiso, separo, comparo, julgo o mundo que me cerca de acordo com o
meu "eu". Sim, eu sou o centro do universo, não no sentido
de ser o dono da verdade ou ser um ego perfeito, mas porque a partir
do "eu", percebo o mundo à minha volta. Ver a realidade
sem as ilusões da fé e da crença, sem estar seguindo guias ou
"autoridades", é ser consciente e livre. Cada ser humano
tem o seu caminho particular. Nisto está a beleza e o prazer. Se eu
vejo o mundo a partir da consciência egoísta, racional e lógica,
eu não vou compreender aquele que a vê a partir do sentimento, da
intuição e do saber. Entre estes dois pontos de vista há um abismo
embora o segundo compreenda o primeiro.
A
verdade está dentro de cada um
Em
cada ser humano há uma centelha, uma partícula do Uno, do Todo que
interage com Ele. A Verdade está dentro de cada um e não fora.
Dizem que lá foi colocada pelos deuses porque seria o último lugar
a ser procurado pelo homem. Despertar é lançar luz sobre as trevas
do inconsciente, ou, como prefere C. G. Jung, é o processo de
transferência de conteúdos do inconsciente para a consciência.
Deus, Diabo, céu, inferno e todas as entidades criados pela mente
humana estão dentro do homem, porque se lá não estivessem
impossível seria criá-los.
Qual
é o sentido da vida?
Há
uma questão básica a partir da qual desenvolve-se a nossa vida, a
compreensão da nossa existência: “Qual é
o sentido da vida?” Esta questão
fundamental não encontra respostas na Filosofia e na Ciência. As
Religiões dizem ter a resposta. Esta, entretanto, baseia-se em
crenças e idéias. W. C. Heisenberg afirma:
‘Cada um dá à sua vida o seu próprio sentido, de acordo com o
mundo que é capaz de conhecer”. Cada ser
humano é um universo que se desenvolve impulsionado por forças
instintivas de acordo com um “modelo”,
um “esqueleto mental”
que faz parte da sua herança genética. A natureza individual dá o
sentido, o “rumo”
da sua existência. O sentido da vida é viver a sua vida,
desenvolvendo potencialidades inatas; viver é experimentar;
experimentar é aprender e compreender. Muitos aprendem mas não
compreendem e por isto precisam passar por tantas lições quantas
forem necessárias à sua compreensão. A compreensão demanda
conhecimento teórico sobre as causas e os efeitos da experiência.
Não nos iludamos, entretanto, sobre o valor do conhecimento
intelectual pois ele somente tem valor quando é aliado à prática.
O
meu caminho
É..
o meu caminho e o seu são totalmente diferentes. O meu caminho é o
autoconhecimento e o seu é servir. A sua luta é contra o inimigo
externo, contra as injustiças, contra o mal... Eu luto contra o
inimigo interno, as ilusões. A minha vida se realiza olhando para
dentro de mim, a sua se realiza olhando para fora.
Deísmo
Deísmo
– sistema dos que, com rejeitar toda espécie de revelação
divina, acreditam todavia em “Deus”, mas um “Deus” destituído
de atributos morais e intelectuais, e considerado apenas como a força
infinita, causa cega de todos os fenômenos do Universo.
Poeta
filósofo
Confessava
Goethe não possuir um “órgão apropriado para a filosofia”. Mas
esse reconhecimento se refere à incapacidade e ao desagrado que ele
nutria por reflexões e exposições sistemáticas, abstratas. Goethe
é um exemplo de “poeta-filósofo”, cujo pensamento não se
expressa em conceitos abstratos, mas em forma imediata, intuitiva,
sensorial, reivindicando do leitor uma disposição similar. Pascal
(1623-1662), por sua vez afirmou: “aqueles acostumados a julgar
pelo sentimento nada entendem das coisas do raciocínio... outros, ao
contrário, acostumados a raciocinar por princípios, nada entendem
das coisas do sentimento.”
Sem
dúvida não são muitos os que tem a capacidade de usar a razão
para compreender em profundidade as coisas do coração. Razão e
sentimento não se excluem mas se completam quando direcionados para
a tomada de consciência, para o “saber”.
Incapaz
de pensar
O
homem em geral tem uma profunda aversão a conhecer-se a si mesmo.
Por que? Eu vejo a questão da seguinte perspectiva:
- Quem é escravo, numa cultura escrava, com antepassados escravos, quer ser livre? Incapaz de pensar.
- Quem está condicionado, prisioneiro de comportamentos repetitivos, quer ser livre? Incapaz de pensar.
Apego
e amor
A
palavra apego, no seu sentido popular, é sinônimo de amor. Apego é
uma inclinação afetuosa para com uma idéia, um objeto, um animal
ou uma pessoa. É a satisfação de uma necessidade instintiva.
Sentir-se cheio,
saciado, satisfeito é
a sensação de preenchimento desse vazio que sempre é temporária,
pois como afirma Saramago, a insatisfação reside no coração do
próprio Deus.
Caracteriza-se
o apego ou amor, pelo controle, posse e domínio daquilo que lhe
“pertence”.
O ser humano apega-se aos pais, irmãos, família, namorada (o),
amigos, cachorro, casa, jóias, carro, dinheiro e poder. Mesmo aquele
que pouco tem, gruda-se
àquele pouco, seja uma roupa usada, uma faca velha, uma bijuteria
barata ou uma imagem de sua devoção. Mas há, também, o apego às
suas “verdades”,
à sua fé, ao seu Deus. A fé é sentimento, apego, amor.
Dizem
os gurus, profetas e avatares que a libertação só é possível com
o total desapego. É possível ao ser humano, viver sem apegos, sem
amor? É possível amar sem apego? É possível viver “tanquam
non”,
como se esses objetos de apego não existissem? Não será o desapego
somente um ideal ou é possível ao ser humano experimentá-lo?
"Querer
é poder" e a "força do pensamento positivo" parecem
ser verdades absolutas na nossa cultura. Quando não trazem os
resultados esperados fala-se em fatalidade mas não se questionam os
princípios.
Mas,
individualmente, só uma fatalidade convencerá o homem de que há
uma força superior ao seu "pensamento positivo" e ao
"querer é poder". Enquanto a vida corre em altos e baixos,
dentro de variações estatísticas consideradas normais, em que os
fracassos e sucessos são atribuídos à inteligência, à esperteza
ou à sorte, por que questionar o tão propalado "poder" do
ser humano? É necessário que aconteça uma tragédia pessoal para
que o homem perceba que ele não é “Deus”. Só uma "desgraça"
pode acordá-lo. Só um acontecimento funesto pode destronar o ego e
só ele é capaz de fazer o homem se desapegar das suas riquezas e
poderes.
O
desapego total, a libertação acontece, sim, mas é um processo
lento, uma tomada de consciência que envolve muita dor e sofrimento.
Só a dor ensina. Só uma doença incurável com muita dor, que
incapacite para atividades laborais, afetivas e sociais, muitas
vezes, é capaz de promover a revolução, mudar o enfoque, a visão
que a pessoa tem da sua realidade. Só uma tragédia pessoal fará o
homem despertar e compreender que "querer é poder" e
"pensamento positivo" são verdades egoístas.
Só
a revolução na mente do ser humano provocada pelo destino irá
libertá-lo. A libertação, portanto, não resulta de um querer, de
um ato de vontade do ego; não é alcançada por meio de orações,
técnicas de meditação, missas ou cerimônias; não é dando
esmolas aos pobres, promovendo o amor egoísta ou altruísta, ou
decorando a Bíblia; a libertação acontece àquele que nasce com as
qualificações e reúne durante a sua vida as condições para
libertar-se.
O
amor-apego, posse, domínio e paixão; a crença, a fé em "deuses
e astronautas", anjos e santos; o apego às riquezas e ao poder
pertencem ao mundo do ego. O desapego total, a libertação do jugo
do ego, a ascensão leva ao Amor-alegria-liberdade-harmonia, estado
superior de ser. É alcançado um outro nível de consciência em que
o homem percebe que o ego alimenta-se de vaidades, de valores
passageiros que somente trazem insatisfação e sofrimento. O homem
liberta-se ao entregar-se ao fluxo da vida, parar de resistir e de
querer traçar o seu próprio destino, deixar-se levar, passivamente
ativo.
Autoconhecimento
A
auto-observação é a base para o autoconhecimento. Depois de um
longo período de tempo de auto-observação, a pessoa começa a
perceber a sua diferença com relação aos outros seres humanos. C.
G. Jung observou esse fenômeno e escreveu: Só
podemos dizer que os indivíduos são iguais na medida em que êles
são amplamente inconscientes, isto é, inconscientes de suas
diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais
ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto
mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais
acentuada se torna sua diferença com relação a outros indivíduos
e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum.
Esta visão diferente do seu mundo e da sua realidade cria
dificuldades no relacionamento pessoal. Mesmo procurando pensar de
acordo com o nível do outro, a realidade às vezes está tão clara
que a pessoa não consegue entender porque o outro não a está
percebendo. Nestes casos, muitas vezes, a arte e a poesia são os
melhores canais de expressão.
As
pessoas falam muito de ego e egoísmo mas uma coisa é ter a
informação e outra é saber.
É impossível transmitir o saber
(sapere, o gosto, o
sabor, a experiência) e, por isso, há dificuldades de comunicação.
É necessário um autoconhecimento profundo para compreender as
motivações e ações que movem a personalidade e identificar o id,
ego e superego
(Freud). De
forma resumida: ego
para os esotéricos, é o superego de Freud; o id
representa as forças instintivas e dentre elas identificamos o
espírito; o eu
(ego de Freud) representa o centro do campo de consciência, formado
pela razão, memória e emoções; o superego (ego
dos esotéricos) é formado pelos
condicionamentos, pelas máscaras
que usamos para viver em sociedade. O eu é
naturalmente dominado pelo superego (ego). Afirmamos que perdeu o ego
a personalidade em que o eu
passa a ser dominado pelas forças do id.
O
que é intuição? Segundo C. G. Jung, o processo intuitivo não é
uma percepção sensorial nem um pensamento, nem também um
sentimento. Intuição é um processo de sentir, ou seja, a percepção
das possibilidades inerentes a uma dada situação. A intuição
decorre de um processo inconsciente, dado que o seu resultado é uma
idéia súbita, a irrupção de um conteúdo inconsciente na
consciência. A intuição é, portanto, um processo de percepção,
mas, ao contrário da atividade consciente dos sentidos e da
introspecção, é uma percepção inconsciente. Intuição é uma
percepção cognitiva que comprime anos de experiência e aprendizado
num clarão instantâneo. O saber não resulta de um insight, um raio
de luz que vem do céu e cai na cabeça do escolhido por Deus. Não é
uma iluminação feita uma língua de fogo que vem das alturas e faz
a pessoa falar diversas línguas e a conhecer os segredos do
universo. O saber resulta de esforços pessoais, estudos, pesquisas e
as mais diversas experiências de vidaConhece-te a ti mesmo, verdade
desprezada pela nossa civilização ainda é a base para a descoberta
dos segredos do Universo.
A
vida é um círculo
A
vida, quando não interrompida por um acidente de percurso, é um
círculo que se inicia no nascimento e se fecha com a morte. Feliz
é aquele, diz Goethe,
que consegue estabelecer uma ligação entre o fim de sua vida e o
começo. O sonho de criança vai realizar-se
na idade adulta, para então, o homem voltar a ser adolescente e, no
final da vida criança, se o ego não se cristalizar na meia-idade.
A criança ainda não desenvolveu o egoísmo,
e o ancião o perdeu, se o espírito evoluiu. Fecha-se o círculo
quando se reencontram a inocência, a pureza, a naturalidade, a
liberdade, a harmonia e o amor. Este homem realizou-se.
A
violência
Touradas,
torneios crioulos, “farra do boi”, brigas de galo, boxe,
assaltos, seqüestros, assassinatos, guerrilhas, guerras religiosas,
políticas, econômicas etc., parece que a violência do ser humano
não tem fim.
O
homem simplesmente está exteriorizando a violência que habita a sua
alma. Usa a violência para combater a violência, e, assim vive e
assim morre. Há uma lenda no Guias do Velho Testamento, sob o rótulo
“Corrupção da Humanidade”, em que se lê a propósito da
maldade dos homens: “O Senhor arrependeu-Se
de ter criado o homem na Terra, e o Seu coração sofreu
amargamente”.
A
violência e o ódio, a paz e o amor caminham juntos porque o homem
inconsciente divide a realidade entre certo e
errado, de acordo com
as suas verdades.
Todos
querem extirpar a violência que está nas ruas, nas cidades e no
campo esquecendo que a origem, a causa da violência que está lá
fora é somente o reflexo da violência que está dentro de cada um,
e que se manifesta inicialmente, na sua casa, no seu trabalho, no seu
clube, contra as pessoas do seu relacionamento. Dar um basta na
violência verbal, física e psicológica contra o(a) namorado(a),
mulher, marido, pai, mãe, filho, irmão, vizinho, companheiro, amigo
é o primeiro passo. O primeiro passo é o mais difícil porque
representa a tomada de consciência de que a violência está dentro
de nós. Ninguém pode amar o próximo se não ama a si mesmo. Só é
possível amar o que se conhece. Conhecer-se a si mesmo para ser
capaz de se amar, e então, amar a namorada, os vizinhos, o irmão,
plantas, animais, rios, montes, a mãe-Terra, o pai-Sol e a Deus como
quer que você o conceba.
A
violência quer se esteja lutando contra
ou a favor é a mesma.
Superar a ignorância - a ilusão – é a base para o reinado do
Amor.
Crenças
O
debate intelectual é estéril. Não produz frutos. O debate sobre
crenças é estéril, pois a sua base é a imaginação. O ser humano
continua uma incógnita e por isso apega-se a crenças por mais
absurdas que sejam. Alguns canalizam tanta energia na sua crença que
a imagem criada torna-se real para aquele que nela acredita. O homem
sente grande atração por dogmas e mistérios e, quanto mais
irracionais e ilógicos, maior atração eles exercem. A ilusão –
maya - e a ignorância – avidya -, segundo os mestres hindus, é a
mesma coisa. “Quando dedicamos nossa mente, nossa energia e nossos
recursos a acreditar no que não existe, isso parece existir e é
“maya”"(1).
A
crença cria um apego. Na nossa ignorância, na nossa insegurança,
nos “agarramos” à ilusão como uma tábua de salvação. Lutamos
com todas as nossas forças contra aquele que nos quer tirá-la,
somos capazes de matar, porque sem ela, pensamos: "estamos
perdidos".
Mesmo
com o desenvolvimento da Ciência, o homem continua apegado às
ilusões porque, ou não tem acesso às informações, ou prefere
viver na comodidade da ignorância.
O
canal de televisão por assinatura, Discovery, está apresentado um
documentário sobre as experiências de quase morte, viagem astral,
seres de luz, etc. Os cientistas apresentam resultados que
desmistificam estas experiências e crenças.
Muitos
acreditam na reencarnação e há, inclusive, psicólogos que fazem
“terapias de vidas passadas”. Ora se temos uma memória
inconsciente, ela pode resultar da herança genética transmitida
pelos nossos antepassados, e, neste caso, são experiências vividas
pelos ancestrais da pessoa analisada, ou de transmissão de
pensamentos, ou quem sabe, nada disso.
Depois
de todos os estudos, pesquisas, experiências e crenças, parece que
o poeta “Circunda-te de rosas, ama, bebe, E cala. O mais é nada”
e o filósofo “Todo o meu saber consiste em saber que nada sei”
têm razão.
(1) Swami Ajaya - Vivendo com os Mestres do Himalaia, Ed. Pensamento.
Prisioneiro
do medo
O
homem é prisioneiro de si mesmo, uma máquina de efeitos
condicionados, um robô que cumpre tarefas determinadas pelo seu
instinto e pelo código de convivência social.
A
capacidade de despertar e libertar-se é uma potencialidade inerente
a cada ser humano, mas o desconhecimento e o medo da Lei que move o
universo o imobilizam. A forma mais fácil é andar em grupo,
seguindo um cincerro, protegendo-se mutuamente, porque, se um cair no
abismo, todos cairão juntos. Já é um consolo. É muito mais fácil
criar deuses protetores e acreditar neles. É muito mais fácil não
pensar e deixar para os outros esta tarefa tão desconfortável. É
muito mais cômodo ser prisioneiro, reclamar da prisão e da comida
do que serrar grades, pular muros e enfrentar o desconhecido.
Para
ser livre é necessário ter a audácia e a coragem de ser si mesmo.
O
medo é a base de todos os problemas da existência humana e a
ignorância a causa de todos os medos.
Evolução
cultural e da consciência
A
evolução cultural da humanidade no último século foi algo
assombroso se observarmos que o homem levou aproximadamente um milhão
de anos entre controlar o fogo e desenvolver uma linguagem. A
evolução da consciência, já amplamente aceita antes de Darwin não
tem relação, entretanto, com o desenvolvimento cultural. A evolução
da consciência é individual, lenta e gradual. O desenvolvimento
científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o
seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser
transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de
forma pronta e acabada. A consciência, entretanto, é uma
experiência de vida que não pode ser transferida pois, no campo do
espírito, o homem não tem a capacidade de ensinar e nem aprender
com a experiência dos outros.
Em
todos os tempos da história da humanidade encontramos registros de
pessoas plenamente conscientes, alguns famosos como Moisés, Lao Tse,
Buda, Jesus Cristo, outros nem tanto. Pessoas deste nível de
consciência continuam a existir entre nós, entretanto, sempre são
exceções na história da humanidade.
Na
escala de evolução da consciência do ser humano observamos três
estágios característicos e progressivos que num gráfico podem ser
representadas por uma linha ascendente:
- inconsciência – nível do “caçador”; mata as coisas do mundo porque não as ama; não as ama porque não as compreende; não as compreende porque está mergulhado na confusão; dominado pelos instintos.
- consciência egoísta – nível do ego, da razão, do saber intelectual, da religião organizada, da ciência e da tecnologia; dominado pela razão;
- consciência cósmica – nível da sabedoria, plena consciência e do Amor; a poesia e a imaginação triunfaram sobre a filosofia e a razão; dominado pelo espírito.
A
evolução cultural é promovida pela inteligência e pela vontade de
poder; a evolução da consciência tem como causa a lei cósmica de
evolução e foge, portanto, ao controle da vontade consciente.
Eros
e logos
A
evolução do ser humano é individual, ele é um universo único.
Ele não nasce uma tabula
rasa, uma
folha em branco, mas é o produto final de uma linha
de produção que começou no início dos
tempos. As características físicas com a sua forma peculiar e
individual, assim como o seu caráter - o conjunto de disposições
congênitas que formam o esqueleto mental – representam um
resultado aleatório, imprevisível, que tem como causa a sua herança
genética. O homem é, física e mentalmente, o efeito, o resultado
final de uma causa gerada por todos os seus antepassados. No seu
inconsciente está guardado o espírito da raça, da cultura e da
tradição, a memória das experiências de vida dos seus ancestrais.
A
busca de Deus e da Verdade é o caminho da descoberta de si mesmo.
Muitos nada buscam porque pensam que os encontraram ou porque não
sentem essa angústia, essa necessidade interior que leva o homem a
se perguntar “quem sou, de onde vim e para onde vou”. A minha
angústia não surge de um desejo consciente ou de uma vontade
especulativa, mas de uma ansiedade que se instalou na alma e para a
qual a razão não tem respostas. Ela, portanto, tem uma causa
irracional, instintiva e inconsciente.
A
civilização desenvolve-se na permanente subjugação dos instintos
regidos pelo princípio do prazer. O homem primitivo, em conflito com
o meio natural e humano chega à compreensão de que uma plena e
indolor gratificação de suas necessidades é impossível. Começa,
então, a desenvolver a função da razão: aprende a examinar a
realidade, a distinguir entre bom e mau, verdadeiro e falso, útil e
prejudicial. Adquire as faculdades de atenção, memória e
discernimento; sacrificando a libido direciona esta energia a
atividades e expressões socialmente úteis. A felicidade fica
subordinada à disciplina da reprodução monogâmica, ao sistema
estabelecido de lei e ordem. O homem aprende a renunciar ao prazer
momentâneo, substituindo-o pelo prazer restringido; adiado, muitas
vezes pela religião, para uma vida futura depois da morte.
A
civilização e a religião são produtos da razão, baseados na
repressão aos instintos e ao princípio do prazer. Nesse
desenvolvimento, Logos - a Razão, é elevado à categoria de Deus. A
luta interna, que permeia a alma do ser humano, é, portanto, o
conflito entre os instintos – Eros (também chamado de Diabo, pelas
religiões) e a Razão – Logos (também chamado de Deus).
Para
a plena satisfação das suas necessidades instintivas e
inconscientes que significam prazer e felicidade, o homem precisa de
liberdade. Esta, entretanto, é incompatível com os princípios da
civilização.
Os
instintos podem ser conceituados como aquelas forças profundas,
naturais e involuntárias que governam a vida. Sob
o ponto de vista psíquico tanto o animal como o homem estão sob o
domínio inconsciente dos instintos. Constituem-se
de energia vital e das experiências acumuladas durante todo o
processo de evolução.
A
subjugação dos instintos é feita pelo eu racional e egoísta
canalizando energia instintiva reprimida que irá constituir-se em
força de vontade. A vontade de poder atrai naturalmente o ego. A
luta é basicamente o caminho da vontade.
Quanto maior a repressão maior é o ego. Ele
quer atingir a perfeição. Quanto mais inatingível o fim, maior
perfeição do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto.
Conseguir a perfeição do ego é tornar-se o centro do universo.
O
ego ao pensar-se perfeito entra em declínio. Encerra-se um grande
ciclo de evolução daquele ser humano que o experimenta. Agora, Eros
que foi violentamente reprimido, promoverá uma profunda crise na
personalidade. A angústia é o
sintoma da força instintiva reprimida que exige liberdade. A
conquista da liberdade é um novo ciclo de evolução que exige a
crucificação e morte do ego para que nasça a Consciência cósmica.
Se a construção da civilização exigiu sacrifícios, a morte do
ego é a passagem pelos infernos e a purificação pelo fogo.
O
homem primitivo, instintivo, inconsciente e inocente que vivia no
paraíso foi despertando aos poucos, iluminado pela razão,
abandonando o princípio do prazer, construiu a civilização.
Construída a civilização, a força evolutiva leva-o a
reintegrar-se, a fazer as pazes consigo mesmo, a conciliar Eros e
Logos, promovendo a harmonia e a unidade originais, com uma única e
substancial diferença: o nível de consciência. Se primitivamente,
morava inconscientemente no paraíso que foi perdido pelo despertar
da razão, agora retorna ao paraíso plenamente consciente. É o
retorno à casa do Pai.
Todo
ser humano tem, potencialmente, os talentos para realizar esta
odisséia que se realiza no tempo presente, no aqui e agora, embora
digam os avatares que muitos são os chamados mas poucos os
escolhidos.
Livre-arbítrio
O
livre arbítrio é um tema polêmico. Na nossa civilização há o
endeusamento da razão, do intelecto, do ego e do “querer é
poder”.
As
igrejas cristãs enfatizam a existência do livre arbítrio porque
sem ele não haveria pecado, culpa, castigo e recompensa. O homem
teria o livre arbítrio para escolher entre o Bem e o Mal.
Não
podemos negar que a nossa vida é feita de escolhas. Mas, “quem”
escolhe? Por que eu penso o que penso, por que eu faço o que faço?
Quem é o “eu”? Na verdade, eu não escolho, a minha natureza
escolhe por mim. Eu não escolhi a minha natureza, o meu tipo físico,
intelectual emocional e mental. Por isso o meu livre arbítrio é
condicionado. Spinoza tem um pensamento sábio: “Os homens se
enganam quando acreditam que são livres; e o motivo desta opinião é
que têm consciência de suas ações, porém ignoram as causas que
as determinam; por conseguinte o que constitui a própria idéia de
liberdade é o fato de desconhecerem a causa de suas ações”. Há
um ditado árabe que mostra de forma sutil o nosso livre arbítrio.
"Se Alá predestinou alguém a morrer num determinado lugar,
suscitará nele o desejo de viajar até lá."
Eu
entendo, pelo exposto, que não há o “querer é poder” na forma
simplista como é colocada, assim como não há a escolha entre o bem
e o mal. A evolução é um processo de aprendizagem empírica.
Quando estamos aprendendo ensaiamos, erramos, tornamos a ensaiar até
conseguir uma seqüência certa de respostas. Aprendemos pela dor -
outra afirmação polêmica, mas a experiência me mostra que é
assim.
O
nosso intelecto irrequieto quer explicações racionais, lógicas
para tudo. Mas a vida não é lógica. Ora a evolução se processa
na superação de obstáculos e, para mim, a doença é uma
dificuldade, um obstáculo a ser vencido, donde resultará um
aprendizado. A morte é um mistério, mas infelizmente, fomos
condicionados a pensar que temos o poder de adiá-la e “morrer de
velho”. E por causa dessa crença o ego procura culpados.
Concluindo,
não quero passar a idéia de passividade perante a vida e culpar o
destino por todas as nossas mazelas. Precisamos ser ativos mas também
conscientes das leis que movem a vida e que pode traduzir-se numa
frase: “Entregue tudo nas mãos de Deus mas aja como se tudo
dependesse de você. “
Há
uma oração muito sábia utilizada nos grupos de auto-ajuda que
vocês devem conhecer: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade
necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar,
coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para
distinguir umas das outras.”
Aprender
a pensar
Somos
uma máquina de efeitos condicionados. Como libertar-nos dessa
servidão?
Questionando tudo e todos. Abandonando todas as nossas crenças,
todos os nossos valores morais, espirituais, tudo o que julgamos
certo e errado e, tal qual crianças, recomeçando a descobrir a nós
mesmos e o mundo que nos cerca. Isto é extremamente difícil porque
as nossas crenças e valores nos dão segurança psicológica. Cada
pessoa precisa
saber
que está certa.
Esta
certeza é que dá segurança, esta certeza é que dá auto-estima.
No
nosso condicionamento agimos por imitação, e por isso, a vida, ao
invés de ser
passa a ter um objetivo: tornar-se.
Esta percepção é fundamental e precisa ser sentida.
Nascemos
geneticamente condicionados e toda a nossa vida é um processo de
condicionamento até que começamos a despertar. Levamos 20, 30, 50,
60 anos reforçando o nosso condicionamento, o nosso eu egoísta. O
grande problema é que quando despertamos para esse processo queremos
revertê-lo mas, na maioria das vezes, essa reversão é um novo
condicionamento. Pensamos que nos libertamos mas tão somente mudamos
de condicionamento. Pelo autoconhecimento, com a ampliação da
consciência, começamos a perceber a amplitude desse condicionamento
e tomamos consciência que é impossível descondicionar
totalmente essa
máquina. Continuamos uma máquina de efeitos condicionados, mas
agora conscientes. Agora somos
porque sabemos quem
somos.
O verbo tornar-se
deixa de ser conjugado.
Afirma
Gurdjieff que "...Por
causa dos fatores que operam contra todos nós, o indivíduo pode ter
certeza de que seu desenvolvimento interior não será fácil; ao
contrario, exigirá grande compreensão e trabalho hábil, e este
trabalho só pode ter início quando percebemos a verdade acerca da
condição humana". A verdade acerca da
condição humana é o verdadeiro autoconhecimento que exige
auto-observação. A experiência de vida é fundamental. Quanto mais
caminhos trilhamos maior a nossa sapiência. Não basta ficar lendo,
estudando e pesquisando. É necessário ir a campo, caminhar, sentir,
ver, ouvir, tocar, saborear. A sabedoria tem vida, cor, movimento e
imagens de diversos ângulos e dimensões. Olhar para dentro de si
mesmo é uma caminhada infinita.
Qualquer
livro, qualquer autor, qualquer autoridade deve ser questionada.
Precisamos aprender a pensar. Este é um dos grandes desafios:
aprender a pensar. “A inteligência se
manifesta muito mais pela capacidade de dissociação de idéias do
que pela capacidade de associação. É a dissociação intelectual
que permite distinguir a realidade da aparência, desfaz confusões e
ilumina aspectos ocultos das coisas. A simples associação de idéias
é um processo mecânico, ao passo que a dissociação exige muito
mais argúcia, poder de observação e senso dos matizes. .. A
genialidade consiste em certa maneira muito pessoal e desprogramada
de estar no mundo, de
avizinhar-se do segredo das coisas e das pessoas.” Concordo
que se adote um livro para servir de guia para o desenvolvimento do
autoconhecimento. Esse autor, entretanto, precisa ser questionado. É
no questionamento que aprendemos a pensar, a ter idéias próprias, a
sermos nós mesmos.
É
muito mais cômodo não pensar, deixar que os outros pensem e nos
apresentem verdades prontas e acabadas. É muito mais cômodo viver
numa cela, recebendo a comida dada pelo Senhor do que aventurar-se
para além das grades e dos muros da prisão. É muito mais cômodo
ser um servo, colocar uma viseira e seguir um guia. É muito mais
cômodo.... Mas tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora. De
repente, sem avisos, o Destino bate à sua porta. É preciso
despertar!
Paz
e luz
“Paz
e luz!”. Bonita mensagem. Ela me faz refletir. “Paz” é o
oposto de “guerra”, “luz” de “escuridão”. São pólos
opostos de uma mesma realidade. A paz somente é possível depois da
guerra e a luz surge da escuridão; só conhecemos a escuridão
porque a comparamos com luz; quem só conhece a escuridão ou a luz,
não sabe o que é escuridão nem luz. A paz é o período entre
guerras. Assim como a guerra, a paz também “cansa” pois o
universo está em evolução. Felicidade eterna e sofrimento eterno
são ficções criadas pela mente. O desejo humano do descanso
eterno... Descansar sim, mas o descanso eterno não existe. Tudo está
em constante desenvolvimento, em evolução. Guerra e paz, luz e
sombras, prazer e dor, nascer e morrer... A morte é um período de
descanso para um novo nascer, a paz para a guerra, a luz para a
escuridão. Como não sabemos de onde viemos, também desconhecemos
para onde vamos. Esta é a verdade, o restante é especulação. A
frase de Sócrates traduz a realidade do ser humano: “Todo o meu
saber consiste em saber que nada sei.” Eu, o meu mundo, o aqui e o
agora, esta vida, este momento é a única realidade. Muitos não
querem o prazer, a felicidade possível, agora, pensando na
felicidade eterna depois de morte. Querem uma compensação eterna
por suas dificuldades temporárias. Deixam de realizar-se como seres
humanos para esperar recompensas de um ente superior por eles mesmos
criado. Vivem da crença em suas fantasias. Isto não é fantástico?
Sexo
Sexo
na nossa civilização cristã ocidental está relacionado com
sujeira, impureza, bestialidade.
Apesar
de toda a liberdade sexual que se propaga, ela certamente, é do
mesmo tamanho da liberdade dos nossos antepassados, dependendo do
grupo social analisado.
No
final do segundo milênio depois de Cristo, o corpo nu de um ser
humano ainda é uma agressão a muitas mentes.
Certamente,
se os teólogos cristãos tivessem poderes, mudariam a reprodução
sexuada, por uma assexuada, mais “pura”, mais “limpa” e,
principalmente, bem mais eficiente segundo modelos que já existem há
milhões de anos na natureza. Como Deus não erra, certamente o sexo
deve ser uma criação do diabo. Por isso ameaçam de danação
eterna aquele que não fizer sexo somente para fins de reprodução.
Vejam que Jesus, o Seu filho, nasceu – segundo eles - de mulher
virgem, concebida por fecundação astral, sem contato físico,
bioplasmaticamente. Afina sexo – dizem os teólogos - é um
resquício de animalidade de que ainda é portador o ser humano. Esta
condenação do sexo manteve e mantém o rebanho na ignorância. Sexo
é tabu. Assunto discutido apenas por teólogos que dizem ser os
portadores da verdade.
Numa
época que se situa milhares de anos antes de Cristo, os hindus
perceberam que o ser humano é uma unidade energética que interage
com o cosmo. A base dessa energia é sexual. Descobriram, também,
que através da relação sexual pode-se chegar à iluminação –
Tantra-Yoga.
Energia
sexual é energia vital. Quanto maior a energia sexual de uma pessoa,
maior é a sua energia vital. Pessoas com grande energia sexual
superam a mediocridade tornando-se líderes, santos ou grandes
“pecadores’. Polarizada em masculina ou feminina, um homem pode
ter energia feminina e uma mulher energia masculina. São os pólos
energéticos opostos que se atraem e não os corpos
físicos·anatomicamente diferentes. A falta de percepção dessa
realidade tem levado a julgamentos equivocados”.
Sabe-se,
por experiência direta, sem a necessidade de filósofos, teólogos,
psicólogos ou cientistas, que higidez física e mental é efeito,
principalmente, de um relacionamento sexual satisfatório e sem
culpas. Culpas que são incutidas na alma humana por normas morais e
religiosas baseadas na ignorância.
Sexo
é energia, sexo é vida. O relacionamento sexual, a troca de
energias entre dois corpos e duas almas, é fonte de vida
(reprodução), equilíbrio energético e de prazer, uma das
necessidades básicas de cada ser humano sadio.
A
lei do amor
A
Lei que move o Cosmo é a da mais absoluta justiça. No nível em que
se move o ser humano, a vida é uma experiência contínua regida
pela lei de causa e efeito, semelhante à lei mecânica de Newton que
estabelece: “toda a ação desencadeia uma reação igual e
oposta”.
A
vontade do homem, movida pelo desejo, é a causa que eventualmente
dará frutos: os efeitos. Os acontecimentos da nossa vida são
efeitos das escolhas que fizemos no passado e as opções do tempo
presente determinam o futuro. Se analisarmos a nossa vida em
profundidade, verificaremos que raramente agimos de forma consciente,
isto é, sabendo o efeito das nossas ações. Consciente ou
inconscientemente, colhemos o que semeamos, pois a Lei não concede
ao homem o benefício da ignorância. Somente é possível aprender
pelo próprio erro e não pelo erro dos outros. Toda ação tem
efeitos imediatos e futuros e, uma vez desencadeada, o agente sofrerá
os efeitos. Nem sempre temos consciência desse resultado e, muitas
vezes, atribuímos a outros a culpa dos nossos fracassos. Entretanto,
iremos ensaiando, entre o prazer e a dor, tantas vezes quantas forem
necessárias ao aprendizado. Cada um, individualmente, paga pelo que
faz; cada um, individualmente, colhe o que semeia. O arrependimento e
o perdão não alteram os ditames da Lei.
O
homem vive na escuridão da inconsciência. Como livrar-se dos
desejos? Como libertar-se da lei de causa e efeito? Afastando-se do
convívio social, enclausurando-se num mosteiro? vivendo num local
ermo, meditando numa gruta ou debaixo de uma árvore? Como agir
corretamente para não acumular débitos perante a Lei? Quem abandona
o mundo está fugindo da realidade. Abandonar o mundo não é a
solução pois o aprendizado somente é possível na convivência com
o outro e nas oportunidades que o mundo oferece. A opção é
abandonar todas as teorias, credos e idéias alheias. Lutar para
vencer o estado hipnótico e de ilusões em que se vive, e, aos
poucos, perceber que a lei de causa e efeito rege a consciência
egoísta e dual. É necessário despertar para perceber que há uma
Lei superior à Lei de causa e efeito: a Lei do Amor. Não o amor
paixão, apego, domínio e posse, mas o Amor alegria, liberdade e
harmonia: sentimento de união com o Todo.
O
mundo está dentro de nós. Analisamos o mundo de acordo com a
consciência que temos dele. Estamos condicionados a ver o mundo
dividido entre Bem e Mal, certo e errado, belo e feio, etc. pois o
nosso intelecto analisa, divide e separa as coisas. Por isso nos
posicionamos no lado “certo” e lutamos contra o lado “errado”.
Esta luta produz sofrimento. A Lei do Amor está em outro nível de
consciência pois supera as diferenças e unifica o que o intelecto
separa. Por exemplo, há duas formas de acabar com o inimigo:
matando-o ( “olho por olho, dente por dente”- agindo de acordo
com a lei da causalidade) ou amando-o (lei do Amor). São níveis de
consciência, “pontos de vista” de quem está na planície ou
está no alto da montanha: há aquele que somente consegue enxergar
as partes e há aquele que consegue ver o todo.
Pelo
exposto, verificamos que todos estão sujeitos à mesma lei e à mais
absoluta justiça. A diferença consiste em:
- dividir a realidade, tomar partido e lutar contra o lado oposto, sujeitando-nos à lei de causa e efeito;
- perceber a unidade do cosmo. Esta compreensão nos levará a amar as diversidades que compõem o todo; amar o inimigo e “apresentar a outra face” para aquele que nos feriu. Conseqüentemente, não havendo uma ação “contra”, não haverá “reação igual e oposta” e assim superamos a lei da causalidade.
O
tempo é uma idéia. Ele também está ligado à lei da causalidade.
Pelos sentidos temos a percepção da duração (tempo) e da dimensão
(espaço) e só temos noção de "causa e efeito" porque
acontecem no tempo e espaço. Observemos a ênfase que é dada pelas
doutrinas orientais no "aqui e agora". O universo é um
"agora" em evolução. É difícil para o intelecto
compreender o "aqui e agora" desvinculado do passado e
futuro porque ele está condicionado. Podemos afirmar, então, que o
tempo é um condicionamento da mente. Com a ampliação da
consciência começamos a perceber "o eterno tempo presente":
no meu mundo, o passado é "presente" e o futuro são
possibilidades do "presente". O "eterno tempo
presente" está no "sentir" e não no "pensar".
A Lei do Amor acontece no aqui e agora.
Ver
o mundo como um todo e agir de acordo com a Lei do Amor significa ser
um agente ativo, acompanhando a lei da evolução. Há aqueles que se
isolam pensando em neutralizar as leis da vida esquecendo-se que,
pela lei da evolução, não agir no momento oportuno, cria um débito
com a Lei. Como agir corretamente, na hora certa, empregando os meios
adequados, sem agir "contra", e ativar a lei da
casualidade? Fazer o bem sem olhar a quem, é agir corretamente?
Depende, pois até nas ações mais simples e, racionalmente
corretas, escondem-se segredos. A legião de egos que habitam a nossa
alma nos levam, muitas vezes, a agir com a melhor das intenções
mas, por ignorância, obtendo efeito contrário. O faminto precisar
aprender a "pescar", isto é, evoluir. Como irá fazê-lo
se o seu semelhante satisfaz as suas necessidades? Como irá evoluir
se, sentado na calçada, pedindo e recolhendo esmolas suprirá as
suas necessidades básicas? Quem dá a esmola, por acaso, não estará
agindo contra a lei da evolução?
A
sabedoria é um longo caminho, um longo aprendizado. Agir
corretamente é extremamente complexo. Tanto a ação "contra"
quanto a não-ação no momento certo, criam débitos com a Lei. Como
saberemos dos meios e do momento adequados? Diz a sabedoria que tudo
tem o seu tempo e cada coisa a sua hora.
Como
sabê-lo ? Quem sabe
o que é Amor? Pensamos que o intelecto, a inteligência e a razão,
nos dão as respostas. Se a razão nos desse as respostas não
haveria egoísmo, violência, pobreza e riqueza. A resposta não
encontra-se na razão, ela está no coração.
Descubra-a!
A
busca da verdade
A
busca da verdade é uma caminhada infinita. Muitos nada buscam porque
pensam que a encontraram ou porque não sentem essa angústia, essa
necessidade interior que leva o homem a se perguntar “quem sou, de
onde vim e para onde vou”. A minha angústia não surge de um
desejo consciente ou de uma vontade especulativa, mas de uma crise
existencial que não tem uma causa aparente. É uma ansiedade que se
instalou na alma (psique) para a qual o intelecto não tem respostas.
Ela, portanto, tem uma causa irracional, instintiva e inconsciente.
O
ser humano tem como base de sua segurança psicológica a razão e a
fé, através das quais, forma as suas certezas. Mesmo sendo pólos
opostos, são complementares pois representam o lado objetivo e o
lado subjetivo da mente. A razão, também chamo de consciência, ou
seja, a faculdade que o homem tem de saber que sabe. A fé é,
igualmente, um sentimento próprio do ser humano. Todos tem fé, pois
a não-fé também é uma forma de fé.
A
segurança psicológica, portanto, repousa na razão e na fé. As
causas instintivas são irracionais. Os instintos podem ser
conceituados como aquelas forças profundas, naturais e involuntárias
que governam a vida. A educação de um modo geral e a educação
religiosa, em particular, condicionam o homem a reprimir os
instintos. Eles, entretanto, são mais poderosos do que a razão
porque representam as forças da vida e as experiências da raça
humana.
A
angústia é o sintoma da força instintiva reprimida. O verdadeiro
crescimento interior acontece com a liberação progressiva dessa
energia. Esta libertação faz-se através da experiência direta,
com a mudança de valores e de comportamento individuais. A força
instintiva acompanha a lei cósmica da evolução.
A
busca da verdade é, neste caso, uma necessidade instintiva. Incerta
e dolorosa porque coloca em cheque todas as nossas verdades e
certezas. Deste processo de auto-transformação vai nascer um novo
homem, um homem renascido pelo “espírito” (instinto).
Saber
e realidade
O
monismo cósmico afirma que o Universo é um Todo, uma Unidade.
O
intelecto analisa, separa e divide as coisas em certo e errado, belo
e feio, Bem e Mal, quente e frio (ver o texto de Huberto Rohden,
encaminhado em 25/02/00) . Entretanto, o “quente” somente é
percebido quando comparado com “frio”, o “Mal” com o “Bem”,
o “belo” com o “feio” porque eles não existem por si mesmos.
Um somente existe em função do outro. Deus e o Diabo fazem parte
dessa concepção, dessa compreensão dual do Universo. Esta
percepção está relacionada com um nível de consciência. Na
evolução da consciência o homem, aos poucos, passa a perceber que
essa dualidade é uma ilusão da mente.
O
que eu estou afirmando não é uma teoria, mas um “saber”. Há
uma diferença substancial entre o saber teórico e o empírico.
Exemplos: 1. se você é ou foi um militar disciplinado, você “sabe”
o que é uma “ordem”. “Cumprir uma ordem” faz parte da sua
experiência de vida como militar. Aquele que não foi, nem é
militar pode ter a experiência em outras áreas, mas ele não “sabe”
o que significa cumprir uma “ordem” no regime militar. 2. Aquele
motorista que estudou todas as leis e regras de trânsito pode tirar
uma nota dez em conhecimentos teóricos mas é incapaz de dirigir um
carro no trânsito de uma cidade. O motorista teórico será um
“desastre”. Ele vai “saber” dirigir depois de muita prática.
3. O homem pode ter todas as informações sobre uma gravidez, mas
nunca “saberá” o que é estar grávida porque esta experiência
é uma exclusividade da mulher.
O
“saber” está em outro nível de consciência, ele é um
“sentir”, um saborear (“sapere”).
Para
quem “sabe”, o mundo real é o mundo individual, subjetivo,
formado pela experiência de vida, pela consciência. Cada um vive no
“seu” mundo. O mundo objetivo é relativo. “Inclino-me a dizer
– afirma W. C. Heisenberg (Prêmio Nobel de Física de 1932 e um
dos fundadores da mecânica quântica) – que a ciência da natureza
não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte do jogo
recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também uma parte
da linguagem com que nós falamos do mundo. Por conseguinte, nós
mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela”. Isto é, há
uma inter-relação entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo em que
o observador faz parte essencial do fenômeno observado.
Há diferenças entre o sábio e o erudito: o sábio vê o mundo com
os seus olhos, o erudito com os olhos dos outros; o sábio vive de
acordo com as suas idéias, o erudito de acordo com idéias alheias;
o sábio vive só, o erudito em rebanho; o sábio despertou, o
erudito continua dormindo.
Sobre
Tomás de Aquino, dizia o Padre Antônio Vieira, no Sermão da
Sexta-feira da Quaresma, de 1662, em plena Capela Real, numa velada
crítica ao Doutor Angélico: "porque até entre os anjos pode
haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de
sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que
algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas
as contrárias". Este Sermão é todo vazado em termos de
aprovação da verdade, e contrário ao culto da autoridade, não
importando quem fala, mas a verdade do que é dito. E no Sermão de
São Pedro, de 1644, adverte: "Ora, desenganem-se os idólatras
do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão
grandes como os que já foram, e ainda maiores".(Cobra, Rubem Q.
- Vieira. Página de Filosofia Moderna, Geocities, Internet, 1997.
www.geocities.com/Athens/7880/rc-vieira.html)
Há
um abismo entre aquele que “pensa” e aquele que “sente” o
mundo. O mundo das idéias, das palavras e o mundo do sentimento, do
coração estão em campos opostos, mas são complementares. Em
termos de valor, observe, mais vale um olhar, um sorriso, um abraço
(um sentimento) do que mil palavras.
O Cristo
É
necessário separar Cristo, de Jesus. São duas palavras com
significados totalmente diferentes. Jesus foi o nome de uma pessoa,
filho bastardo de um oficial romano com Maria e morreu crucificado
em Jerusalém segundo os registros do Templo. (Se este Jesus
histórico foi um Cristo, não se sabe.) Na verdade o Novo Testamento
é um “arranjo” que inclui a Bíblia, doutrinas esotéricas,
mitologia e filosofia gregas.
Cristo
é a "monada", a "luz interior", a "centelha
divina", a “semente de Deus” de que todo ser humano é
portador. Com o desenvolvimento dessa "luz" nasce o
"Cristo". Por isto diz-se: Jesus, o Cristo!
Todas
as religiões podem ser chamadas de "cristãs" porque foram
seres iluminados que lançaram as mensagens que foram deturpadas
pelos homens ditos religiosos ou seja, sacerdotes que organizaram
igrejas.
Ser
iluminado
O
ser é "iluminado" pela sua "luz" interior, isto
é, ele toma consciência de que há algo maior do que o "eu".
Esta é a "iluminação". Mas ele não é um iluminador.
Ele pode servir como um farol de orientação para aqueles que buscam
a verdade. A "transcendência" é uma experiência pessoal
que não pode ser ensinada. Ninguém pode iluminar o caminho de
outro, mas tão somente, dar indicações, porque cada caminho é
individual e a "iluminação" acontece durante a caminhada.
Consciência
A
vida é um imenso quebra-cabeças cujas peças, aos poucos, são
colocadas no seu devido lugar. Quem as coloca não sei, mas eu sei
que não sou eu.
“Homo
sapiens, sapiens”. O homem sábio, consciente. Este está no
vértice da pirâmide humana. Na inconsciência, a base da pirâmide,
está o grosso da humanidade. Consciência não é algo que pode ser
obtido pelo poder da vontade ou pelo conhecimento intelectual. O
desenvolvimento da consciência humana está dentro do processo de
evolução da vida no cosmo.
Cientistas
dizem que “assim como tivemos a revolução de Galileu há
quatrocentos anos, talvez precisemos agora de uma nova revolução
comparável, para produzir uma ciência do subjetivo, do único e
individual, e uma ciência da consciência”(Oliver Sacks). A
consciência, entretanto, não pode ser medida, comprovada e testada
porque é um sentimento.
Consciência
é o conhecimento de si mesmo. Só compreenderemos o outro e o mundo
que nos cerca quando conhecermos a nós mesmos. O homem consciente
sabe que não pode julgar seu semelhante. Cada pessoa é um universo
individual complexo e diferente de qualquer outro ser humano. Decorre
daí que o verdadeiro “amor ao próximo” é o respeito à sua
individualidade.
A
prática sexual é uma obsessão das religiões ditas cristãs. São
incapazes de ver o ser humano na sua total individualidade que
necessita expressar-se com liberdade.
A
inconsciência leva à necessidade de seguir guias, autoridades,
livros “sagrados”, e a formar rebanhos; a inconsciência faz o
homem querer tornar igual o que é desigual em sua natureza.
Já
disse alguém que “estamos estruturados espiritualmente pela nossa
sexualidade”. O que sabem os “seguidores” de espírito e de
sexo? Numa demonstração de inconsciência só sabem repetir o que
está escrito em seus livros e o que dizem as suas autoridades.
Pensar
e sentir o mundo
É
muito mais fácil, para o ser humano, avaliar os outros, o mundo que
o cerca, externo, objetivo e as suas qualidades, do que a si mesmo. O
"eu" é um perfeito juiz dos outros e, quase sempre,
somente deles. Autoconhecimento é um processo raro e, geralmente,
superficial. O homem projeta nos outros aquilo que ele é, mas
dificilmente identifica como seu, o conteúdo projetado.
Cada
pessoa, na verdade, tem uma forma peculiar de perceber a realidade,
que passa a ser a "sua" verdade. O condicionamento cultural
nos leva a pensar que somos iguais. Quanto mais inconscientes, mais
essa ilusão de igualdade se impõe. E por força dessa
inconsciência, o homem cria leis para definir o que é "ser
normal". A Educação, a Psicologia, muitas vezes, e a Religião,
quase sempre, são os agentes da sociedade que procuram promover a
igualdade do que, na sua natureza, é desigual.
Essa
desigualdade já está presente na formação da consciência. Há
duas formas gerais e inatas de perceber a realidade e que mudam de
graus de acordo com cada indivíduo: "pensar" e "sentir"
o mundo.
"Pensar
o mundo" é vê-lo através da razão, da lógica e da
coerência. É uma forma abstrata composta por idéias e conceitos
objetivos. As experiências de vida são orientadas pelos fenômenos
objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais.
"Sentir
o mundo" é recolher os fatos apenas como evidência para suas
próprias hipóteses e não em benefício dos próprios fatos. O
modelo vem de dentro, da experiência de vida, da intuição
(inconsciente) e é, portanto, puramente subjetivo. Predomina a
profundidade em detrimento da amplitude.
Em
sua maioria, os filósofos e os cientistas "pensam" o
mundo, os poetas e os artistas "sentem" o mundo.
Entre
o "puro pensar" e o "puro sentir" há um abismo
quase intransponível: a razão não compreende o sentimento e este,
não compreende a razão. No desenvolvimento da consciência o
"pensar" alia-se ao "sentir" para formar o
"saber". Entretanto, só o sentimento é capaz de promover
essa união.
Finalizo
com três pensamentos:
"
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra
pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente
é ser ela." Fernando Pessoa.
"
... só a arte, no que diz respeito à manifestação das essências,
é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na vida." Gilles
Deleuze.
"O
racionalismo puro é estéril, o irracionalismo simples é
regressivo. O pensamento surge no "entre"". Peter
Sloterdijk.
Faça
o que você pensa!
O
que é melhor, e o que é pior? O que é Justiça, Bem, Belo? O que é
Liberdade? O que é ilusão e o que é realidade?
O
pensamento desvinculado da ação não tem valor. Não é importante
o que você pensa. Importa o que você faz. Faça o que você pensa,
faça o que você sente. Mas, faça! Não foram os filósofos, os
sábios, os iluminados, os avatares que transformaram o mundo, mas
aqueles homens que tiveram a coragem de agir. É a ação que faz o
mundo evoluir.
São
os “bons”, os “certos”, os acomodados, os portadores de
verdades prontas e acabadas que constróem muralhas mentais para
proteger-se da renovação. Preferem o mal velho, testado e vivido, à
experiência inovadora. Eles tem medo. Medo de descobrir que o seu
deus tem pés de barro.
Todo dia é um novo dia
Todo
dia é um dia histórico. Todo dia é um dia diferente. Todo dia é
um novo dia.
A
sensação de uma nova chegada.
Assim
como todos os dias, todas as chegadas são diferentes. Nunca volta-se
ao mesmo lugar. Impossível. O ar já não é o mesmo, o chão já
não é o mesmo, as árvores já não são as mesmas, o mar já não
é o mesmo, a praia já não é a mesma, o sol já não é o mesmo,
e, principalmente, eu já não sou o mesmo.
Esta
sensação da diferença... Foi outra pessoa que passou por aqui,
dezenas, centenas, talvez milhares de vezes, e cada vez que passava
ela pensava que era a mesma. Mas não era. Sinto isso agora ao ver
toda a minha “caminhada” desde o nascimento. Sim, é
interessante. Sinto-me hoje (o “hoje” não é o “dia de hoje”,
mas algo maior ou talvez menor, é um tempo com medição indefinida)
como se o tempo não existisse, sinto-me como uma existência que
começou há muitos anos e que voltou ao seu ponto de origem. Vejo o
meu nascimento físico como o ponto de partido para realizar uma
grande tarefa: descobrir o mundo e a mim mesmo. Caminhando
inconsciente, sendo levado, conduzido, pensando que eu me conduzia.
Um grande aventura em que pensava ser agente ativo. A minha natureza
me indicava os caminhos a serem seguidos e eu os seguia, muitas vezes
errando, mas aprendendo; aprendendo com muita dificuldade, é
verdade.
Parece-me
que o círculo da minha vida se fechou e que cheguei a um novo ponto
de partida, num outro nível dentro do círculo. Estou um pouco
assustado, com um pouco de medo também, porque há a sensação de
morte. Algo morreu dentro de mim e algo está nascendo. Estranha,
muito estranha essa sensação. Não é de dor, não é de tristeza,
de melancolia, mas também não o é de euforia. É de uma
expectativa serena. Vejo o “filme” da minha vida, todas as
máscaras, todos os nicknames, cada um representando aspectos
diferentes do mesmo eu. Todas as máscaras e apelidos serviram para
externar muitos egos que, aos poucos, foram abandonados. Eram
somente camuflagens do verdadeiro eu. Eram apegos a valores - no seu
sentido mais amplo. Desapegar-se é tornar-se liberto. O desapego é
a verdadeira liberdade, o verdadeiro encontro consigo mesmo. Ele só
pode acontecer ao conhecer-se a si mesmo, e perceber que, “ser” é
o que importa e não “tornar-se”.
Esta
é a minha experiência, a minha história, a minha vida... Muitos
caminhantes cruzaram o meu caminho. Às vezes caminhamos juntos para
aprender e transferir algum aprendizado, mais tempo, menos tempo, ou
apenas um olhar, um contato rápido, mas esta foi a jornada que
concluí. Com muitos continuarei caminhando, com muitos outros
cruzarei, mas agora com outros olhos, com outra percepção, mais
consciente, mais eu.
As máscaras
Eu
sempre fui o que sou. Eu não mudei, minhas máscaras, estou
descobrindo; as muitas máscaras de que a natureza me dotou para
viver neste mundo. Elas nasceram comigo, eu somente aprendi a
usá-las. Até à exaustão. E, então, por uma necessidade interior,
elas vão sendo identificadas. Elas fazem parte de mim, da minha
natureza, e, somente posso identificá-las na solidão, na
auto-observação.
Perante
o mundo preciso continuar usando as principais, aquelas que me fazem
parecer igual aos demais. Mas é um uso forçado, elas me sufocam,
angustiam, deprimem. Mas arrancá-las seria como, arrancar a própria
face.
Por
isso gosto de pessoas que ainda estão aprendendo a usá-las, os
jovens anjos idealistas. Entristece-me vê-los amadurecendo,
identificando-se com as suas máscaras.
Somos
bestas metidas a deuses
A
existência é a realidade percebida pelos nossos limitados sentidos.
Através deles percebemos como se nasce, se vive, se morre; como vive
e se transforma o nosso mundo e o nosso universo. Tudo tem início,
meio e fim. Toda vida é o desenvolvimento de uma semente que em si
contém todo o código do ser que lhe deu origem. A semente não
perpetua a espécie, mas somente transmite o potencial que poderá
sobreviver sob determinadas condições. Se estas se alterarem e ela
não tiver capacidade de se adaptar será o seu fim. Nesse
desenvolvimento novas formas de vida surgirão que também terão o
seu ciclo. O planeta Terra com todos os seus habitantes, o Sol, a
Galáxia e o Universo tem nascimento, desenvolvimento e morte. Mais
alguns bilhões de anos e a Terra se transformará num deserto árido
e sem vida; bilhões de anos esfriarão o Sol, o deus do nosso
Planeta; outros trilhões ou mais acabarão com o universo, porque
tudo o que tem começo tem fim.
Tudo
o que nos é permitido perceber e compreender é a nossa limitação
e a finitude da nossa existência. Criamos céus e infernos onde
queremos perpetuar a nossa existência. Somos bestas metidas a
deuses. Ou será que não?
Feliz
existência, enquanto ela durar!
Infinito
vazio
O
processo do renascimento, do vir-a-ser, da individuação, da
auto-transformação, é uma mudança acompanhada pela dor do
desmantelamento da máquina de efeitos condicionados a que o homem
está reduzido, a reprogramação
desse robô em que está transformado.
Neste
despertar, entretanto, a força do eu egoísta
substitui a programação por
outra de igual valor. A tradição, a fé, os valores morais, as
verdades e as certezas do homem-máquina são
substituídas por novas certezas e verdades de tal forma que a dor
dessa transformação passa a ser percebida como um verdadeiro
despertar. Esta mudança, entretanto, significa tão somente a troca
de Senhores pois a
escravidão continua. Um condicionamento é substituído por outro.
Ele deixa de seguir o rebanho
de um Pastor, para
seguir o rebanho dos homens diferentes
que conseguem encontrar valores comuns em muitas autoridades,
e por isto, podem afirmar que seguem nenhuma autoridade
em particular. Ele
pensa e propaga que é livre! O eu egoísta
está cada vez mais forte e autodenomina-se de eu-superior,
eu-verdadeiro, mônada,
o verdadeiro filho de Deus.
O apego às suas certezas e verdades é total, pois antes ele estava
errado, agora está
certo. O homem diz que
despertou, mas em
verdade, continua andando em círculos, permanece uma máquina
de efeitos condicionados, um robô,
prisioneiro e escravo do seu eu egoísta
É
necessária muita dor - a paixão da alma
- para despertá-lo desse círculo vicioso.
Quando
o homem percebe que os seus valores atuais, os seus modelos, a
reconstrução sobre os escombros dos valores renegados do passado e
a experiência de todas as alternativas se mostram vãs, inúteis e
insatisfatórias; quando o eu egoísta
torna-se um saco sem fundo,
um buraco negro onde
tudo o que é absorvido desaparece; quando o homem toma consciência
de que tudo passa, de que não há certezas nem verdades, ele dá um
grande passo: compreende que a vacuidade, o vazio é o verdadeiro
estado do Ser.
No
vazio desaparece o apego por falta de algo a que se apegar,
desaparece o medo porque não há do que se amedrontar.
O
vazio, o vácuo, a fonte do profundo silêncio, onde palpita o
Espírito Universal, morada do Belo, da Arte e do Amor.
Despertando
Lembre-se
que aquilo que você escreve está endereçado a você mesmo. Todas
as suas opiniões revelam o que você é. Quando você julga, você
pensa que está julgando o outro, mas você está julgando a si
mesmo. Você só pode ver no outro aquilo que você tem dentro de si:
“a beleza não está na flor mas naquele que a vê.”
Se
você tem o “conhecimento”, você percebe quando o outro também
o tem porque há uma identificação.
O
Profeta
Neste
belo país, deitado eternamente em berço esplêndido, em algumas
regiões, "profeta" era chamado o acendedor de lampiões,
antes da chegada da luz elétrica. O "profeta" iluminava as
trevas da cidade. Este Profeta pretende ajudar a iluminar as trevas
das almas de pessoas de boa vontade.
Sei
que falo para surdos, tento iluminar caminhos para cegos, mas que
posso fazer? Este é meu destino.
Jesus,
que Jesus?
Aqui,
parece que todos precisam de Jesus, de um Senhor, de um Salvador, de
uma "autoridade", de um Ser Superior para seguir, para
adorar, para se prostrar, esperando recompensas ou castigos! Raça de
escravos imbecis e ignorantes! Quando despertareis?
O
que é religião?
Não
confundam Religião com igrejas e seitas, com a crença em Deus e
Diabo, com a fé num Salvador porque esses seres são criados pela
mente do homem que vive nas trevas da ignorância. Um homem pode ser
profundamente religioso sem estar filiado a nenhuma religião
oficial, a nenhum credo, a nenhuma seita, a nenhuma escola. O
significado de "religião" precisa ser desvinculado de
sistemas solidários de práticas e crenças que formam uma mesma
comunidade moral, para a concepção ampla da busca da transcendência
do ser humano, que não precisa estar necessariamente vinculada a um
Deus e a um Diabo, mas a uma "divindade" que reside no
próprio homem. Ciência e Religião (no sentido da evolução do ser
humano para o “divino”) estão interrelacionadas, elas se
complementam, porque a Ciência, aos poucos, confirma o saber
intuitivo. A Ciência serve de base para que o homem compreenda a si
mesmo e o Universo substituindo a fé cega daqueles que vivem na
ignorância daquilo que é.
Homens
de muita fé, despertai!
O
homem somente terá valor quando a sua luz iluminar o seu caminho. Ao
invés de ficar repetindo idéias alheias, ele deve procurar as
respostas para os mistérios da vida dentro de si mesmo.
Cada
ser humano é um universo próprio, individual, interligado ao Todo,
ao Uno. Por isso não há seres humanos superiores ou inferiores,
mais adiantados ou mais atrasados, em baixo ou em cima. Nós
caminhamos juntos, o que nos diferencia é o nosso nível de
consciência da realidade. A evolução da consciência é um
processo em que a luz interior vai iluminando os labirintos da alma
através da experiência direta, da intuição e da erudição. É um
despertar progressivo. Isto somente é possível quando abandonamos
todas as nossas verdades, certezas e crenças que nos transformaram
numa máquina de efeitos condicionados.
A
verdadeira autoridade, o verdadeiro mestre está dentro de cada um de
nós. Permitamos que ele se manifeste!
Você
não escolhe!
Você
não escolhe, a sua natureza escolhe por você. A sua natureza é o
seu verdadeiro caráter (conjunto de disposições congênitas que
formam o esqueleto mental de um homem”(Renné Le Senne). O caráter
pode ser comparado a uma máquina de escrever e a personalidade à
letra escrita.) Este é o mistério do “quem sou eu?” porque o
seu caráter não foi uma escolha sua e ele fará as escolhas por
você. Muitas opções, tanto no campo afetivo como profissional,
entretanto, são feitas pelo ego dentre ideais coletivos, da tradição
e cultura desprezando a sua natureza individual o que ocasiona
conflitos internos e crises existenciais.
A
sua natureza não vai curvar-se aos seus ideais, aos ideais de sua
família ou do seu grupo social. Você precisa ser você mesmo. Viver
não é tornar-se algo, mas ser o que se é. Isto não é uma
escolha, mas somente a percepção da verdade.
Encontre
o seu mestre
Dê-se
o direito de dispor de um tempo, diariamente, semanalmente, para
estar consigo mesmo. Faça uma reflexão profunda, procure entrar em
contato com o mais íntimo do seu ser. Isto levará algum tempo e não
será fácil. O ego obstrui esse contato, desvia os seus pensamentos,
produz muitas ilusões, mas não desista.. Na parte mais profunda do
seu ser mora o seu mestre. Ele não será encontrado através de um
ato de vontade, de um querer. Ele se manifestará quando você menos
esperar. Será uma luz, uma iluminação, e você o identificará.
Mas da mesma forma como ele se manifesta ele desaparece. Depois da
primeira experiência você sentirá que não mais está só. Você
fez contato com a consciência superior que direciona a sua vida. Mas
não se iluda, o ego, o intelecto – “lúcifer”- vão continuar
dificultando a sua vida. É a luta entre Lúcifer e Logos. É nessa
luta que a consciência se amplia e se ilumina.
Mas,
lembre-se sempre, tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora. Não
tenha pressa, deixe acontecer.
Re:
Você não escolhe
A
erudição é indispensável. Na verdade, sempre estamos repetindo o
que alguém em algum tempo e lugar falou ou escreveu. Normalmente,
citam-se autores não só para dar maior "autoridade" ao
que se escreve, mas também, para realçar um ponto de vista
divergente ou convergente. O autor, neste caso, é citado porque o
exemplo parece ser original e há uma identificação entre ele e
este que vos escreve.
Pobres
mortais todos somos.
Re:
Homens de muita fé, despertai!
Ao
aderir a determinada religião, credo, escola, método, sistema,
corrente doutrinária ou filosófica o ser humano se limita. Eles são
uma camisa-de-força. O ser humano precisa ser livre para seguir seu
próprio caminho, determinado pela sua natureza. Ser si mesmo, sem
nenhuma concessão. Nisto está a redenção.
Teístas
e ateus
Teísta
é aquele que crê em Deus; ateu aquele que não crê. Mas quem ou
que é Deus? Cada Religião dá uma definição racional, lógica e
objetiva mas exige a fé. Por que? Porque Deus não pode ser
compreendido pela razão.
Tanto
teístas quanto ateus usam estes rótulos que, muitas vezes, nem eles
compreendem. Muitos imaginam que o teísta precisa seguir uma
religião oficial e o ateu religião alguma. Li uma afirmação
típica: “o ateu não crê na imortalidade da alma”. Mas o que é
alma? Cada religião também dá uma definição mas exige a fé. Por
que? Porque alma, espírito e vida também estão além da
compreensão racional.
Ser
teísta ou ateu resume-se, então, numa fé cega. Tanto num caso como
no outro. Uns têm fé em Deus, outros não têm fé em Deus e sob
esses rótulos vivem-se digladiando.
Considerando-se
que Deus, a vida e o Universo não podem ser compreendidos pela razão
e pela Ciência, precisamos explorar o nosso lado irracional, a outra
“dimensão”, o inconsciente. Mas para isto é preciso despertar.
As “armas” da razão e da inteligência precisam ficar em segundo
plano.
Entretanto,
é muito mais fácil e cômodo seguir doutrinas prontas e acabadas ou
simplesmente negá-las, não é mesmo? Ir além é o grande desafio.
Re:
Teístas e ateus
É
necessário observar, para uma melhor compreensão do que exponho,
que o teísta e o ateu, com fé ou sem fé, estão no mesmo nível de
consciência. Êles não conseguem compreender que pode existir uma
realidade além dessa percepção. Êles não conseguem perceber que
pode existir uma compreensão, uma consciência que supera o teísmo
e o ateísmo, uma saber que não é um credo.
A
luz do mundo
O
nosso Mestre interior é a “luz do mundo”. Essa “luz” está
encoberta pelo nosso egoísmo e pelos nossos condicionamentos.
Progressivamente, enquanto o egoísmo e os condicionamentos forem
sendo removidos, essa luz vai-se manifestando, aumentando de
intensidade e iluminando a nossa consciência. Superaremos a fé ou a
não-fé, o teísmo ou o ateísmo, porque compreenderemos, então,
aquilo que “é por si”; o Sem-Nome e Sem-Forma; o Indefinível; O
Todo em Tudo, mas também, o Absoluto Nada; O Infinito Vazio, A Fonte
do Profundo Silêncio.
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Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2000.
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